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Seções — Abertura

O problema chamado Jonas

Dos dezessete livros proféticos do Antigo Testamento, o mais histórico e o menos profético é o de Jonas. Ali encontra-se mais a história do profeta do que a história de Nínive. Jonas é ao mesmo tempo o mais complicado e o mais bem-sucedido dos profetas de Israel. No livro que leva o seu nome, Jonas aparece fugindo (1.3), dormindo (1.5,6), confessando (1.12), orando (2.1-9), pregando (3.3,4) e lastimando-se (4.1-9).

No pequeno livro, Deus dá muitas ordens. A primeira é dirigida ao profeta: ele deveria viajar para Nínive e anunciar a destruição da cidade (1.1,2). A segunda é dada ao vento: ele deveria provocar uma tempestade marítima (1.4). A terceira é dada a um grande peixe: ele deveria engolir por inteiro o profeta (1.17). A quarta é dada outra vez ao peixe: ele deveria vomitar Jonas em terra firme (2.10). A quinta é dada a uma planta: ela deveria crescer rapidamente para proteger o profeta do calor (4.6). A sexta e última ordem é dada a uma pequena lagarta: ela deveria atacar a planta e fazê-la morrer (4.7). Todos obedeceram prontamente, exceto o profeta, que fugiu para Társis.

Quem mais precisa da misericórdia do Senhor no livro de Jonas? A tripulação do navio? Os 120 mil habitantes da capital da Assíria? O rei de Nínive e seus nobres? Na verdade, quem mais precisa da misericórdia do Senhor é Jonas. Como descendente de Abraão, como profeta vocacionado, como instrumento escolhido para pregar uma mensagem urgente e específica na grande cidade de Nínive — o profeta não poderia em hipótese alguma ter viajado em direção oposta a Nínive. Por ter se rebelado contra Deus, Jonas passou por experiências assustadoras. Só sobreviveu por causa da misericórdia do Senhor. Nadando em misericórdia, o profeta jamais deveria ter criticado as misericórdias do Senhor dispensadas aos ninivitas!

Segundo Jesus, os ninivitas “se arrependeram com a pregação de Jonas” (Mt 12.41). Eles “creram em Deus” e “abandonaram os seus maus caminhos” (3.10). Mas esse não foi o único triunfo do profeta. A tripulação do navio não conhecia o único e verdadeiro Deus. Na hora do perigo, cada um dos marinheiros “clamava ao seu próprio deus” (1.5). Depois do testemunho de Jonas, porém, passaram a clamar não aos seus muitos deuses, mas ao Senhor (1.14). Antes da conversão de Nínive, converteram-se os marinheiros. Além de clamar ao Senhor, aqueles homens do mar “adoraram o Senhor com temor, oferecendo-lhe sacrifício e fazendo-lhe votos” (1.16). O que Jonas fez no ventre do peixe, a tripulação fez no convés do navio — os tais votos religiosos nascidos em momentos de grande perigo. Isso não teria acontecido sem a declaração de fé do profeta: “Eu sou hebreu, adorador do Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra” (1.9).

Jonas era muito complicado. Dias depois de ter pedido a Deus que o tirasse “do ventre da morte” (2.2), o profeta quis regressar ao mesmo “ventre da morte”, por razões sem nexo (4.3).

Assim como Jonas, muitos de nós hoje precisamos mais das misericórdias do Senhor do que de psiquiatras. Mas uma visitinha a um bom profissional da área da saúde mental não deve ser totalmente dispensável.

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