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Colunas — Avivamento tupiniquim

Memória Histórica (parte IV)

Manfred Grellert

Queremos aqui refletir sobre o avivamento tupiniquim que nos levou a contabilizar uma população evangélica ao redor dos 26 milhões, na virada do milênio. Perguntamo-nos sobre possíveis conseqüências sociais desse fenômeno. A maneira mais simples de enfocar a questão é perguntar: “Crescerão juntas a igreja evangélica e a miséria em nossa nação? Nosso avivamento tupiniquim será socialmente profícuo ou inócuo? O Brasil será diferente por causa dessa efervescência evangélica? Como? Temos uma proposta a partir da nossa melhor compreensão dos propósitos de Deus para influenciar nossa querida nação? Por que utopia factível vale a pena orar e lutar, a longo prazo?” O supremo bem só virá no fim da história, como ação soberana de Deus, quando o seu reino vier com poder e glória.

Nos artigos anteriores demos uma breve olhada nos dois Grandes Avivamentos do passado, que por algum tempo tanto mudaram vidas como transformaram sociedades. Como os furacões, tiveram o seu impacto, depois perderam força. Avivamentos posteriores não tiveram nem a mesma profundidade, nem o mesmo impacto. Temo que seja o nosso caso. Uma teologia rasa sempre produz igrejas anêmicas e acomodadas. Hoje o que mais chama a atenção é o significativo fenômeno pentecostal/carismático/neopentecostal, que continua explodindo pelo mundo inteiro, inclusive entre nós. Mas já não se produzem os assembleianos de outrora.

Pode-se notar, também, a mudança do eixo geográfico do cristianismo contemporâneo. Do Atlântico Norte, onde se consumou a síntese fatídica entre o cristianismo e o capitalismo, o cristianismo migrou para o sul. No norte tem ganhado a secularização materialista. Mas hoje a maioria dos cristãos vivem no sul, são morenos e, muitas vezes, pobres. Os estudiosos dizem que o cristianismo mais sério hoje se pratica na Ásia. O que acontecerá conosco, que tendemos a ser mais divertidos que sérios? Por que matamos meninos de rua e gente sem teto?

J. Edwin Orr, que estudou os avivamentos posteriores, trabalha com um marco de avivamento tirado de Atos 1 e 2. Um avivamento ocorre num ambiente de oração corporativa e de dependência do poder do Espírito Santo. Acontece uma revitalização espiritual da igreja. Surge um novo poder para pregar e ensinar a Palavra. Parte-se para a evangelização e para a responsabilidade social. Acontece um grande número de conversões tanto dentro como fora da igreja.

A maior mudança que ocorreu recentemente foi a transformação do avivamento em campanha evangelística, em cruzada. Parte-se de um evangelho minimalista, facilista, mágico, forte em promoção, pressão e emoção, mas fraco em conteúdo bíblico e carente de profundidade profética. A vida cristã se reduz a um começo fácil e a um final feliz. As sérias demandas do evangelho são ignoradas. Mercadeja-se um Jesus Cristo que pouco exige, mas que dá paz ao coração. Reduz-se o evangelho ao individual, íntimo e celestial. Surgem igrejas grandes, com impacto pequeno. Busca-se escapar do mundo, por um lado, mas ocorre uma acomodação impensada a ele, por outro. A capacidade de mudá-lo desaparece. A ascensão social, a preocupação com o consumo e a segurança inibem um compromisso sério com a vontade de Deus. (Que meus queridos irmãos evangelistas me perdoem esta caricatura, necessária para fins de argumento. A mesma caricatura, ou uma pior, se pode fazer dos engajados.)

Como chegamos a essa situação? Aqui, brevemente, alguns fatos básicos. Primeiro, vários avivamentos posteriores aos dois clássicos tiveram lideranças leigas, sem cabedal teológico. Finney, Moody e Sunday ficaram muito aquém da profundidade de um Wesley ou de um Edwards. Os neo-avivalistas muitas vezes tiveram vista curta e pouco profunda. Usa-se uma tecnologia de evangelização, que se pode administrar sem a bênção de Deus.

Segundo, na briga com o iluminismo, uns foram para a acomodação modernista e outros, para um fundamentalismo estreito e reacionário. Uns foram para o evangelho social, esquecendo a pregação do evangelho, e outros, para uma evangelização sumária, truncando as demandas do evangelho. Grande parte das energias foi usada na briga de uns contra outros, e não na briga contra o mundo, a carne e o diabo, na compreensão paulina destes termos. Somente em meados do século 20, surgiu um movimento “evangélico” que buscava outra vez assumir sua responsabilidade cultural e social, junto com sua paixão pela evangelização. Aqui os nomes de Henry, Billy Graham e John Stott merecem ser lembrados. Nessa conjuntura nasceu também a Visão Mundial, em 1950.

Terceiro, uma grande parte do cristianismo evangélico, especialmente no sul dos Estados Unidos, era racista. Quando o pecado se instala dentro da igreja, ela se torna socialmente incapaz e passa a simplesmente refletir a cultura do meio. Mas a conquista pacífica dos “direitos civis” do negro americano veio com o batista Martin Luther King Jr. e o católico Robert Kennedy. Para os pecados mais ignóbeis sempre há redenção.

Quarto, as duas guerras mundiais do século 20 não só quebraram o culto ao progresso, que prevalecia, como também ajudaram a recuperar uma compreensão mais profunda do pecado humano. Redescobriu-se a potencialidade para o mal e o perigo que é atrelar a igreja a um movimento político. Foi na Europa “cristã e culta” que se derramaram toneladas de sangue. Isso enfraqueceu a confiança evangélica de transformar o mundo. (Desgraçadamente, aqui não podemos esquecer que vários teólogos evangélicos apoiaram Hitler e os nazistas.)

Quinto, a grande influência da escatologia pré-milenista/dispensacionalista de Darby e da Bíblia de Scofield, com sua cosmovisão pessimista e derrotista, contribuíram para a alienação social dos evangélicos. Essa corrente escatológica não só afirma que o mundo vai de mal a pior, como também que quanto pior, melhor, porque Cristo vai voltar. O senhorio de Cristo e débil. (Aqui só vale a pena notar que o amilenismo, que defendo, é realista quanto à possibilidade de mudanças sociais, enquanto o pós-milenismo é otimista. O problema mais sério do pré-milenismo é seu acasalamento acrítico com o capitalismo e com o sionismo.)

Sexto, na briga entre o capitalismo e o marxismo, a maioria dos evangélicos se alienou acriticamente com o capitalismo. Com a queda do marxismo ateu, ficaram encurralados com o capitalismo sem Deus. À medida que o povão evangélico passou para a classe média, se tornaram bons consumidores, sempre preocupados consigo mesmos e com a manutenção do status quo. Para muitos ser pobre é ser burro e irresponsável. Ainda não se descobriu o “oprimido” dos profetas, muito menos as implicações da encarnação do Verbo em mundo pobre e ocupado. E lamentável que nesta síntese acrítica entre cristianismo e capitalismo, aparentemente Mamom vem levando a melhor sobre Jesus Cristo. O Cristo ficou sem dentes e sem pegada. (Que fique claro que não tenho nenhuma saudade do marxismo real.)

Uma das mudanças sentidas no Brasil foi a mudança do perfil de missionários que nos mandaram, refletindo sempre o momento de suas igrejas de envio. De que maneira foram diferentes os missionários do fim na transição para o século 19, comparados com aqueles da transição para o século 20? Quando foi que fundamos o último grande colégio em nossas denominações?



Quem pagou as contas?

O grande Congresso Internacional de Evangelização Mundial, sob inspiração de Billy Graham e guiado pela lucidez do John Stott, ocorrido em Lausanne, em 1974, que tive o privilégio de assistir, por indicação não merecida de um amigo anônimo, desencadeou um movimento que buscava afirmar, outra vez , tanto a integridade da evangelização, como a propriedade da ação social dos cristãos. (Essa agenda teve contribuição latino-americana, especialmente de Samuel Escobar e René Padilla.) Ambas são necessárias no propósito de Deus. Esse movimento teve também seu impacto no Brasil, especialmente no CBE1, mas foi ainda notável no CBE2. (A Confederação Evangélica do Brasil tem uma outra história, que nossos jovens devem conhecer.)

Devemos desenvolver um marco teológico para nortear nosso avivamento tupiniquim. Precisamos de líderes que proponham direções a partir do evangelho, algumas propostas macro, de longo alcance, como a questão dos índios, cujas almas desejamos salvar, mas cujas vidas estão correndo grande risco de extinção. O genocídio indígena no Brasil só pode ser comparado com as atrocidades cometidas contra a escravatura negra. Como pecamos contra estes povos! Precisamos também de muitas micropropostas, sempre adequadas às situações locais. A acomodação passiva não é uma opção para os militantes do reino de Deus. Proponho ainda nos perguntarmos: “Que modelos de renovação encontramos nas Escrituras? Contra que forcas do mal temos de lutar? Como se corrompem os avivamentos?” Vou terminar esta série de artigos compartindo e comentando brevemente um marco bíblico-teológico para um avivamento sadio. A pergunta, sobre o que fazer no Brasil, não sei se me animo a responder, especialmente por viver fora do país há tantos anos. Não se pode pontificar por telepatia, só por encarnação. É tempo de voltar? Uma volta, a essa altura dos acontecimentos, é mesmo possível? É útil?

Por enquanto orar mais e animar os irmãos e irmãs é o que me proponho a fazer. Minha intuição é que o melhor avivamento tupiniquim ainda está por vir. Essa foi a minha percepção durante o CBE2, apesar dos sinais de desalento. Deus é bom e poderoso. E como é bom o povo de Deus, quando pastoreado com seriedade.


Manfred Grellert é responsável pela área de formação cristã da Visão Mundial Internacional.

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