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Reflexão — Valdir Steuernagel

Aprendendo com “o pequeno príncipe”

Quando olhei o meu cartão de embarque e me disseram que teria de viajar de Londres à República Dominicana, via Nova Iorque, espremido num daqueles assentos do meio, num vôo absolutamente lotado, me irritei e já bateu o cansaço. E o artigo da Ultimato? O prazo de entrega estava acabando e eu não tinha conseguido escrevê-lo antes de viajar. Havia pensado em fazê-lo no avião. Mas agora, como é que eu ia acomodar um computador no colo? Naquele aperto, nem dava para abrir o computador!

O jeito era escrever a mão. Assim, reuni algum material de leitura, como costumo fazer nessas jornadas longas e desconfortáveis, acrescentei um bloco de papel e, exagerando como sempre, juntei um livro ao pacote. Um livro que eu queria ler. Melhor, reler.

Há muitos anos eu havia lido o tal livro. Li de uma só pegada, quando procurava aprender algo acerca de leitura dinâmica. Reconheço, encabulado, que isso não se faz com um livro desses. E ele, como que para vingar-se da minha desfeita, acabou voltando às minhas mãos.

É que outro dia eu estava falando a um grupo de missionários latino-americanos sobre esse jeito de Deus de chegar perto da gente e se envolver nas nossas coisas mais íntimas, e até nas mais doídas. Na hora da refeição, uma missionária me falou algo e fez uma citação. Com naturalidade, como se soubesse o texto de cor; e logo me deu a referência do livro. A citação chegava tranqüila e inteira e conectava fácil com o que eu estava falando. Decidi voltar a buscar o tal livro. Quando cheguei de viagem, tomei-o emprestado de um dos filhos e comecei a ler.

Apressado, tentei achar a passagem que a Sassá havia recitado para mim. Queria aquele pedaço. Aquela citação. Iria copiá-la e integrá-la numa futura mensagem minha, na qual ela cairia muito bem. Folheei o livro, gastei mais tempo do que queria e, nessa minha busca utilitarista, acabei não encontrando a tal citação.

Fico, novamente, um pouco envergonhado, pois não se trata assim um livro desses. Decidi, ao fim, que iria lê-lo todo; e ele acabou entrando na mala e me acompanhando na nova viagem. E foi assim que o livro acabou me fazendo companhia nesse apertado assento do meio de um avião completamente lotado.

E não é que ele animou a minha viagem, que eu iniciara já irritado e cansado? Ao mergulhar na leitura, me pareceu que eu ia entrando no texto e a minha cabeça e os sentimentos iam sendo afetados. Tanto que interrompi a leitura, agarrei a caneta e comecei a escrever: Aprendendo com “o pequeno príncipe”!

Este artigo nasce como um repente. Sob a marca de uma certa intensidade. Uma intensidade a celebrar a realidade da vida em simplicidade e um jeito de aceitar Deus e as suas coisas com uma espécie de alegria infantil. Eu me sentia convidado a ser gente, ser discípulo de Cristo e amar a Deus. Será que isso faz sentido? De fato, não busco uma linearidade cerebral nem uma compreensão de raciocínio. Só quero dizer que é bom saber-se amado por Deus e convidado a viver uma vida com a simplicidade e suficiência da sua graça. Hoje só compartilho algo que se passou comigo no dia em que escrevi o meu artigo num apertado assento do meio.

Não quero mais falar do livro, que ainda nem acabei de ler. Nem estou querendo fazer um esforço para ser entendido nessa minha decisão tão ilógica. Mas quando eu parei de lê-lo e comecei a escrever o artigo, o texto me dizia que “É tão misterioso o país das lágrimas!” (Desculpe a falta de referência bibliográfica.) Outra coisa que eu havia lido e até anotado dizia assim: “As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar a toda hora explicando. Dessa forma, ao longo da vida, tive vários contatos com muita gente séria. Convivi com pessoas grandes. Vi-as bem de perto. Isso não melhorou muito a minha antiga opinião.” (Desculpe, mas ainda não posso dizer qual é o livro.)

Mas o que eu queria mesmo era sorrir um pouco e dar graças a Deus. E disso eu posso falar um pouco mais. Já tenho muito cabelo branco e todos os filhos grandes; outro dia, um até se casou. Eu gosto de fazer as minhas brincadeiras, mas fui criado no berço da seriedade — homem que é bom é homem sério e trabalhador. Assim, cresci estudando e trabalhando sério. Orgulhando-me de mim mesmo e da minha carreira.

Com o passar dos anos, no entanto, Deus foi me mostrando e fui percebendo que a vida não podia ser só assim. Com esta minha seriedade curricular-cerebral-linear, havia muitas coisas de Deus e da vida que eu não percebia nem entendia. Não via que as relações — ah, as relações! — ficavam, neste meu mundo, muito com cara de agenda-trabalho-produção, enquanto Deus queria se encontrar comigo no jardim para rirmos juntos e para que Ele pudesse me dizer que me amava.

Assim, quando li naquele livro que “as pessoas grandes não compreendem nada sozinhas”, o meu coração disse “sim” e lembrei que Jesus disse que se não nos tornássemos como crianças não entraríamos no reino dos céus, e acho até que entendi um pouco do que Ele queria dizer com isso. Significa relativizar a si mesmo e aprofundar a confiança em Deus, eu diria na minha linguagem linear-adulta. Mas eu preferiria dizer que isso significa rir um pouco mais de si mesmo, andar descalço e aceitar o convite de Deus para encontrá-lo no jardim da vida. Lá onde eu o ouço chamando-me pelo meu nome e o encontro celebrando a sua própria criação. Eugene Peterson, a quem aprendi a ler um pouco, fala da importância da poesia e da oração na nossa vida. A poesia, digo eu, que convida a fazer versos que declarem o encontro de amor com Deus e a gratidão pela vocação humana. E a oração que mostra a Deus as minhas mãos vazias e cheias de calos — os calos das minhas árduas trapalhadas e o vazio dos meus destinos não alcançados. Mãos vazias que eu vejo Deus acolher em suas mãos, quando eu só consigo dizer que “é tão misterioso o país das lágrimas”.

Ainda não encontrei a citação que eu buscava no livro. Não faz mal, pois ainda tenho um pedaço para ler em O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Mas confesso que já valeu! Pois, bem mais além da leitura, fui vendo Deus sorrindo para mim e eu sorrindo para Ele, numa poesia de amor que declara o verso da salvação. E vejo Jesus ali, com uma criança no colo, nos convidando a segui-lo. Assobiando e descalço... Ele e nós.


Valdir Steuernagel é pastor luterano, trabalha com a World Vision International e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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