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Desorganização socioeconômica

Embora não se desgastem com o sofrimento alheio, embora não tenham o seu patrimônio diminuído em favor da miséria alheia e embora não gastem tempo com os deserdados — os que têm essa filosofia de vida não são felizes, não se realizam. Felizes são “os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5.6).1 O mesmo Jesus explicou também que “há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20.35).

Gasta-se algum tempo para acreditar nessa regra de vida feliz, pois ela faz parte da contracultura do evangelho. Gasta-se mais tempo ainda para começar a colocá-la em prática. Muitos morrem sem acreditar e sem praticar. Paga-se um preço muito alto por quebrar a lei do altruísmo.

A opção pelo enriquecimento próprio, que hoje recebe forte estímulo da teologia da prosperidade, é muito complicada. A Bíblia diz: “Não esgote suas forças tentando ficar rico; tenha bom senso! As riquezas desaparecem assim que você as contempla; elas criam asas e voam como águias pelo céu” (Pv 23.4,5). “De fato, a riqueza é ilusória” (Hc 2.5), com o que Jesus concorda: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam” (Mt 6.19).

Essa desorganização socioeconômica — riqueza demasiada de um lado e pobreza demasiada do outro — tem dado péssimos resultados e torna todos infelizes. Pecam contra Deus os que têm muito e não dividem nada com os outros e os que não têm nada e tiram dos outros. Os dois crimes se relacionam e estão destruindo a segurança, a alegria e até a vontade de viver.

O professor Leandro Piquet Carneiro, da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo diz que “ao cruzar dados socioeconômicos e criminais foi possível provar que a extrema necessidade pode ser um incentivo ao crime”. Outro pesquisador, Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma categoricamente que “o grande combustível da criminalidade é a desigualdade social”.2

A redução de 74% do número de assassinatos na década passada em Nova York, lembra Leonardo Trevisan, professor de economia na PUC-SP, deve-se não só ao maior rigor da justiça e da política durante o plano da Tolerância Zero, mas também aos programas sociais e da reestruturação de áreas urbanas levados a efeito.

O encarceramento, a construção de novos e maiores presídios, o aumento do contingente policial, a aplicação da pena de morte e a matança indiscriminada e ilegal de criminosos não vão trazer segurança para ninguém. Não podemos prender, condenar e matar todo mundo. Terezinha Machado, presidente do Sindicato dos Professores do Estado do Rio de Janeiro, explica que é a ausência de inclusão social que transforma muitos jovens em presas fáceis para os líderes do tráfico. Só no Estado do Rio de Janeiro há 2 milhões de jovens sem perspectivas de emprego. Das 10 mil pessoas detidas por envolvimento com o tráfico de drogas, 90% têm menos de 24 anos. Terezinha ainda informa que nos últimos oito anos, “o tráfico tem sido o primeiro colocado na lista de infrações cometidas por jovens”.3

No dia 28 de maio, uma criança de 8 anos, outra de 9, cinco de 11, três de 12, oito de 13, cinco de 14, três de 15, quatro de 16 e seis de 17 foram presas por vender maconha e cocaína nas ruas centrais do Rio de Janeiro. O próprio juiz Guaracy Viana, que expediu os mandatos de prisão, alertou: “É preciso dar maior atenção a essas crianças que vivem na rua para evitar que elas sejam corrompidas pelo tráfico”. A mulher de 27 anos e seis filhos, acusada de ser o elo entre os traficantes e as 36 crianças e adolescentes, é também vítima da desorganização socioeconômica: “Eu fui menina de rua. Fugi de casa aos 6 anos de idade e fui morar na rua”.4

O romeno Liviu Tipurita, co-diretor do documentário exibido pela CNN em maio sobre o comércio sexual infantil na Europa Ocidental, foi taxativo: “Não acredito que as coisas vão mudar enquanto as diferenças econômicas entre os países forem tão grandes”.5 Uma das cenas que o filme mostra é a de um pai que vende o próprio filho para passar meia hora com um homem num estacionamento em Milão, na Itália, não por prazer, mas por necessidade (a criança recebeu 40 euros).

Por trás das guerras tidas como lícitas e das guerrilhas tidas como ilícitas está a injustiça social de âmbito mundial. Algumas nações agridem porque querem aumentar seu território, seus recursos e seu poder. Outras agridem porque estão desesperadas pela fome, pela desnutrição, pela doença, pela miséria e pela opressão. Em defesa daqueles que não têm condições sequer de consumir o mínimo indispensável de 2.200 calorias diárias, o advogado Ruy Martins Altenfelder Silva, presidente do Instituto Roberto Simonsen, lembra o documento Perspectivas da Economia Global, do Banco Mundial, segundo o qual “a eliminação do tratamento discriminatório das exportações dos países em desenvolvimento tiraria da pobreza 144 milhões de pessoas em todo mundo”.

Deus não precisa derramar seu cálice de ira sobre a injustiça praticada na zona rural, na zona urbana, no país e no mundo. Nós mesmos colhemos os frutos da injustiça que semeamos e praticamos!



Notas

1 Os textos bíblicos foram retirados da Nova Versão Internacional (NVI).

2 Época. 5 abr. 2004. p. 76-83.

Jornal do Brasil. 17 maio 2004. p. A-9.

3 Folha de São Paulo. 27 maio 2004. p. A-7.

4 Jornal do Brasil. 25 abr. 2004. p. A-11.

5 Folha de São Paulo. 29 set. 2003. p. A-3.

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