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Colunas — Ponto final

Resolução para 2004

Este ano eu quero ser curado. Convivo com uma crise de coluna desde agosto de 2002. E essa crise tem prejudicado muito minha qualidade de vida. “Espere um minuto!” — você dirá — “Cura como resolução de Ano-Novo? De duas uma: ou você tem sido muito negligente com sua coluna ou está se arvorando poderes sobrenaturais, para ‘resolver’ ser curado.”

Nem uma nem outra. Minha resolução é de outra natureza. Vou dizê-la de outra forma: este ano quero romper com minha síndrome de geraseno. E isso não é nem fazer mais por minha coluna (pois a tenho tratado “a pires de leite”, como uma úlcera), nem dizer um “xazan!”, nem proferir uma palavra de comando ao céu. Nada disso. O que eu chamo de síndrome de geraseno é outra coisa.

O registro de Lucas 8.35-39 conta que, quando Jesus libertou o endemoninhado de Gadara, o povo da cidade veio e lhe pediu que se retirasse. A interpretação mais aceita para o fato inusitado é a de que Jesus havia prejudicado seu negócio com os porcos, que se precipitaram no mar.

Resta, no entanto, o fato de que Jesus não pôde abençoar aquela cidade, como havia feito em Samaria, ao se revelar à mulher no poço de Jacó. A esse povo não ocorreu “vender tudo o que tinha e comprar aquela pérola”. Em última análise, disseram a Jesus: “sua atuação perturbou a paz de nossa cidade, que estava muito bem com nossos porcos e nosso endemoninhado; se não quiser ser visto e tratado como baderneiro, por favor, retire-se”.

Sim, o endemoninhado, com o tempo, incorporou-se à identidade da cidade; tornou-se parte de sua vida, de suas tristezas. Sobre ele certamente eram lançadas as desculpas para os fracassos, para a quebra de safra, para as mazelas familiares, para as traições políticas etc. Virou folclore; era como a “doença da cidade”, a exercer o papel de bode expiatório e justificador dos pecados. O povo precisava dele, como parte de sua identidade.

Talvez aquela aberração que passeava pelo cemitério da cidade aos urros e grunhidos tenha evoluído, nas cidades de hoje, para as gangues de bairro, os traficantes, o simpático (e perigoso) anotador do jogo do bicho, o crime organizado. No âmbito da família, a síndrome do geraseno pode ser encontrada no filho excepcional, no idoso ranzinza, no filho que se sente “a vítima” da casa. No âmbito pessoal, ela pode se manifestar em um ódio antigo, resultante de um abuso, no apego aos problemas ou a uma simples crise de coluna.

É claro que nem todas as vicissitudes ou doenças têm a marca do geraseno. O fenômeno se manifesta quando o “geraseno” vira “problema de estimação”, e se entranha de tal forma em nossa personalidade (pessoal ou coletiva) que passa a fazer parte de nós, da nossa história, do nosso modo de ver e lidar com a realidade. E, inconscientemente, vira moeda de troca: “Não mexam comigo, eu sou um doente”; “Ah, meus pais nunca ligaram para mim, porque eu sou o caçula”; “Quero ver o que você vai fazer se meu coração falhar com essa sua rebeldia”; “Você sabe que seu pai tem pressão alta...”; “Meu divórcio, embora já tenha dez anos, me deixou muito mal, e ninguém vê isso...”

Este ano, quero me livrar do meu problema de coluna. Não sei (nem me importa) se terminarei o ano carregando peso ou correndo um cooper acelerado. Sei que, com a cura, perderei certos “poderes” em casa, na igreja e entre os amigos. Mas resolvo fazer uma faxina em todas as minhas dores. Jogo fora as muletas das lembranças, das mágoas, das deficiências físicas, das heranças malditas, da falta de oportunidades na vida, dos acidentes de percurso; enfim, das desculpas, ao mesmo tempo sinceras, reais e esfarrapadas para que Jesus “não entre na cidade”. Em vez de lhe pedir que se retire dos meus problemas, direi a Ele: “Entre e faça comigo o que o Senhor fez com o geraseno”. Não há como não perceber sua felicidade. Se preciso, aprenderei a conviver com ele sem seus demônios. E tem mais: para o inferno com os porcos! Se for preciso, saberei abrir outro “negócio”.

Que Deus ouça, compassivamente, esse voto-oração. E a todos que a ele disserem amém.


Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Igreja e Sociedade – o desafio de ser cristão no Brasil do século XXI e Icabode – da mente de Cristo à consciência moderna.
rubem@amorese.com.br


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