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Reflexão — Robinson Cavalcanti

Viver é pensar: as alegrias e tristezas de um autor cristão

Devo, publicamente, agradecer as observações gentis (e generosas) que recebi de irmãos e irmãs, de diversas regiões do país e de diversas denominações, referentes ao texto sobre 40 anos de vida e ministério publicado na edição anterior. Alguns leitores pediram que comente um pouco sobre áreas e ênfases que foram marcantes nessa trajetória.

A “primeira” área foi, sem dúvida, o “evangelismo”. Esse era o título da coluna que escrevi por dez anos, a partir de 1979, no “Jornal do Commércio”, em Recife, na época o de maior circulação no Nordeste. Essa era a ênfase dos dois programas de televisão dirigidos pelo pastor presbiteriano João Campos de Oliveira, de quem fui um leal colaborador. Essa era a ênfase de um sem-número de acampamentos promovidos pela Aliança Bíblica Universitária (ABU) e por movimentos denominacionais de mocidade, dos quais fui preletor. Essa era a ênfase também dos sermões em igrejas, enterros, casamentos, colações de grau e eventos de várias naturezas na sociedade. Foram sempre ocasiões em que o eixo da mensagem era o “plano de salvação”. Dou graças a Deus pelos filhos e filhas na fé. Existencial e ministerialmente, continuo a ser, antes de tudo, um evangelista, proclamando as boas novas de Jesus Cristo como único Senhor e Salvador.

A “segunda” área foi a “apologética”. Entre as camadas populares, os nossos ouvintes tinham a mente cheia de crendices, superstições e heresias. Entre o público universitário, nos deparávamos com o positivismo, o existencialismo e o marxismo, frutos do iluminismo. A apresentação da fé implicava uma defesa da fé e uma ponte de comunicação com a mentalidade e os conceitos dos ouvintes. Tínhamos de conhecer essas idéias. A filosofia e a história, particularmente a história da Igreja, foram ferramentas essenciais. A apologética tem também um valor interno, para a própria Igreja, que deve estudar as outras religiões e se estudar, de forma interdisciplinar (teologia, filosofia, ciência), em uma tarefa epistemológica a serviço da verdade. É lamentável que, no geral, a Igreja tenha medo de se ver no espelho. Nunca senti o conflito entre ciência, filosofia e fé. São métodos de abordagem sistematizada da revelação, tanto natural quanto especial. Segui os conselhos de Paulo, no “examinar de tudo e reter o que é bom” (1 Ts 5.21), e de Pedro, no “estar preparado para dar a razão da fé que há em nós” (1 Pe 3.15). Não há “ciência atéia”, mas cientistas ateus, agnósticos ou crentes.

A “terceira” área foi a “eclesiologia e a missiologia”, isto é, a natureza e a missão da Igreja. Uma percepção histórica e universal da Igreja, uma abordagem dedutiva (do todo para a parte), que supere a tentação sectária, localista, isolacionista (e personalista) e afirme a Igreja, una, santa, católica e apostólica, e, no nosso caso, reformada. Uma Igreja comunidade terapêutica, comunidade docente, comunidade diaconal e comunidade profética. A ABU, a Fraternidade Teológica Latino-Americana e o Movimento de Lausanne me levaram à adoção da teologia da missão integral da Igreja e a uma ênfase em sua responsabilidade social, cultural e política. Adotei dois pensamentos-chaves: 1) “Não creio em vida cristã que não comece com conversão; não creio em conversão que não termine em consciência social” (Wesley); 2) “A tarefa dos cristãos é uma só: mudar o mundo” (Finney). A alienação sociopolítica, o adesismo conservador, a participação com a ausência de projeto e de ética, e o desconhecimento da doutrina do “mandato cultural” são obstáculos para essa Igreja como agência de transformação histórica.

A “quarta” área foi a “teologia da sexualidade”. Por demanda dos estudantes e profissionais da ABU, diante da quase completa ausência bibliográfica, publiquei, em 1976, como trabalho pioneiro e de abordagem multidisciplinar, “Uma Bênção Chamada Sexo” (com oito edições esgotadas), que me levou, por vários anos, a receber convites para falar sobre o tema. Dez anos depois, incorporando novas pesquisas, mas fiel às mesmas convicções, publiquei “Libertação e Sexualidade”. Vim a perceber, pelas reações dos leitores, que o público evangélico havia mudado: de uma atitude de busca aberta e sincera para uma atitude de rigidez, de um só ponto de vista (neofundamentalista), a que foi exposto. Na ocasião, fui “honrado” com a publicação de um “contra-livro”, cujo objetivo não era uma discordância intelectual, mas a desqualificação do autor, mesmo que para isso tenham sido usados critérios pouco éticos (frases isoladas, fora do contexto, citações de autores como se fossem pensamentos meus, deduções absurdas etc.). Fiz um trabalho intelectual, honesto e sincero, não só lançando mão do instrumental analítico das ciências humanas, mas procurando demonstrar as limitações do nosso etnocentrismo, em contraste com as visões que a Igreja teve em outras épocas, ou tem hoje em outros lugares, sobre essa temática, particularmente os reformadores protestantes. Nessa área, o protestantismo brasileiro, no geral, fez uma opção por uma pretensa “reta doutrina” (dogmatismo), que é um conjunto ideológico estático, em que entram claros princípios bíblicos misturados com visões culturais e de classe, fortemente influenciada pelo “cinturão da Bíblia” (“Bible belt”) norte-americano.

Essa “reta doutrina” é um tabu, de escassas implicações pastorais para a vida e os dramas de milhões de pessoas. O resultado é uma alienação entre o dogma, por um lado, e uma “clandestinidade erótica” dos cristãos, por outro, com previsíveis danos espirituais, éticos e emocionais. O neofundamentalismo e o liberalismo têm sido (até aqui) mais fortes. Paciência. Um dia a igreja evangélica brasileira terá a coragem e a sinceridade de enfrentar essa temática de forma desarmada e não-emocional.

Em todas essas quatro áreas (ou em outras de menor militância), nunca me vi, nem nunca pretendi ser um “autor polêmico”, mas, simplesmente, um autor. O pesquisador — aprende-se na universidade — tem um compromisso com o que pesquisa, e não com a maneira como o resultado da pesquisa será recebido. Isso significa honestidade intelectual e, no caso dos autores cristãos, consciência tranqüila diante de Deus. Por outro lado, profetas não trabalham de olho em “ibopes eclesiásticos”. O pensador, com sua história de vida e seus estudos, vai produzindo e se posicionando. Isso é difícil quando parece que a maioria prefere não tomar posições, repetir posições, importar posições ou silenciar (para sobreviver) às custas da transparência. Dou graças a Deus por três coisas, entre outras: 1) ter minha própria fonte de renda secular (ser um “fazedor de tendas”), o que me tornou menos vulnerável aos sistemas eclesiásticos; 2) ser um ministro da Igreja Anglicana, histórica e inclusiva; 3) ter amigos-irmãos que fertilizaram um pensamento em construção.

Com humildade e seriedade (nas limitações do humano-pecador), tenho procurado não enterrar talentos, mas obedecer ao Senhor em seu chamado. Todo discurso humano é provisório. Tenho procurado seguir a atitude de Lutero: estar sempre disposto à retratação, desde que “persuadido pelas Escrituras e pela razão. Caso contrário, assim permaneço. E que Deus me ajude!”


Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.ieabrecife.com.br


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