Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Reflexão — Robinson Cavalcanti

Vivo, ativo, crente

Quando avançamos em idade, nos concedemos o direito de um olhar retrospectivo, que, de algum modo, possa contribuir para a história, e cujos subsídios concorrem para a construção do presente, que será história amanhã. Tomo a liberdade de, neste texto, fazer uma referência pessoal.


Tempo

De 1963 a 2003 são decorridos quarenta anos.
Em primeiro lugar, quarenta anos de minha confirmação (pública profissão de fé), então na Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB): um divisor de águas e um rito de passagem, que selou, e para sempre, a minha opção religiosa como protestante e como evangélico. Três anos antes havia professado a fé em Jesus Cristo como meu único Senhor e Salvador, após ter sido evangelizado por um marceneiro adventista e um colega de classe batista, para, finalmente, ser tocado pelo Espírito Santo pela instrumentalidade de um estadista do reino de Deus, o pastor presbiteriano Antonio Elias. Tempo em que, convencido pela Palavra, me afastei dos contatos espíritas da família paterna e da militância católico-romana da família materna, “sem ódio e sem medo”.

Em segundo lugar, quarenta anos da pregação do meu primeiro sermão, no templo de uma Igreja Batista de interior. Sermões pregados em povoados, em favelas, ao ar-livre, em igrejas humildes, das mais diversas denominações, assim como em catedrais e congressos no Brasil e no exterior, procurando sempre a fidelidade à Palavra de Deus e a nada fazer conhecido “senão a Cristo, e a este crucificado”. Tempo de aprendizagem na vida devocional, na leitura da literatura cristã e no exemplo, pela convivência, com homens e mulheres de Deus.

Em terceiro lugar, quarenta anos de ministério cristão, como pregador leigo, evangelista, diácono, presbítero e bispo. Lugar especial, nesse período, foram os mais de dez anos (1968-78) passados como obreiro da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), evangelizando e doutrinando estudantes secundaristas e universitários em um sem-número de reuniões e acampamentos por este Brasil afora. Tempo de fundação (1970) e direção da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL); de preparação e participação na Comissão de Convocação do Congresso de Lausanne (1974), em sua Comissão de continuação (LCWE) e em diversos eventos e consultas teológicas nos dez anos seguintes: Evangelho e Cultura, Responsabilidade Social da Igreja, Estilo de Vida Simples, entre outros. Tempo fecundo de participação na Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEP) e, nos últimos 15 anos, na executiva da Associação dos Evangélicos na Comunhão Anglicana (EFAC), denominação à qual estou filiado nos últimos 27 anos.

Tempo de trabalho no rádio, na televisão, na imprensa secular e na imprensa religiosa, com especial destaque para esse já longo período como colaborador de Ultimato. Tempo de produção de onze livros que, com lutas e dificuldades, tivemos a oportunidade de publicar. Tempo de palestras e escritos evangelísticos, apologéticos e éticos, centrados no compromisso com o Pacto de Lausanne e no conteúdo da missão integral da Igreja.

Quarenta anos, também, de procura por viver a fé na vida em sociedade: diretório acadêmico, sindicato, partido político, clube de serviço, associações e ONG´s. Na defesa da democracia e da justiça social, por obediência, tenho sido (parafraseando Nelson Rodrigues) um “pastor de passeata”. Memórias do Movimento Cristão Democrata de Centro e do Movimento Evangélico Progressista (tendo sido um de seus fundadores), do Instituto Evangélico de Estudos Sociopolíticos, do Grupo Evangélico de Ação Política e de tantos momentos de tentativa de reconciliação do evangelicalismo brasileiro com o seu passado de presença e diferença, e de combate às heresias da alienação e do adesismo antiético.

Quarenta anos de vida universitária, como estudante, professor, pesquisador e administrador, encerrada em janeiro deste ano, quando finalmente desmontei o meu gabinete no programa de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (continuava colaborando voluntariamente, já aposentado). Sou grato ao Senhor pela vida acadêmica, pela disciplina do estudo, pela liberdade de pesquisa, pela riqueza da interdisciplinaridade, pela convivência com os diferentes e pelo direito à diferença, embora, para os círculos mais conservadores da igreja, “cientista político” e “intelectual” possam ser consideradas expressões pejorativas.

Avaliação

Creio, por outro lado, ter vivido o suficiente para presenciar o “crescimento decadente” do protestantismo brasileiro — seu abandono, quase por completo, das fontes reformadas; sua adoção e práticas do pragmatismo secular; a intolerância do exclusivismo fundamentalista; e a suprema ironia da adoção de pontos de vista católico-romanos, quanto mais alta seja a retórica da sua negação. Tenho saudades do velho protestantismo que conheci e que me atraiu: fraterno e progressista, profundo e solene, ético e relevante, liderado por estadistas que davam a vida e se esvaziavam pela causa do evangelho e pela consolidação das suas denominações (que eram de reduzido número e cooperativas). Vidas e exemplos que marcaram a vida da igreja e do país, e a minha vida, em particular. Sem querer ser pessimista, posso, a esta altura, parafrasear um autor, em relação ao quadro atual do protestantismo brasileiro: “O que permanece de bom não é novo; o que apareceu de novo não é bom”.

Agostinho de Hipona afirmava que são marcas do episcopado: “Muito martírio e pouca honra”. É o que tenho vivenciado estes últimos seis anos como bispo. Protestante e evangélico, creio no Pentecostes como experiência de toda a igreja (e não de um ismo), reiterando a crença na construção do presente e do futuro do protestantismo pela constante memória e atualização do seu legado.

Como criatura redimida, tenho sido humano em tudo, inclusive no pecado. Vivencio a promessa de ver aperfeiçoada a força do Senhor em nossa fraqueza. Ele nos tem devolvido o ânimo, a visão e a esperança, apesar de na igreja termos encontrado incompreensão, ingratidão, preconceito, desamor, falsas e inconsistentes amizades, calúnias, etiquetas apressadas, inverídicas e injustas.

Lamentavelmente, o exclusivismo arrogante, estreito, intolerante e repressor que hoje infelicita o nosso protestantismo veda o livre exame, a diferença, a diversidade, a inclusividade (que deveria ser nosso apanágio e nossa riqueza) e se recusa a se examinar com o auxílio de instrumentais filosóficos e científicos, tentado a dogmatizar o seu ponto de vista e tentado ao arrepio de uma leitura honesta das Sagradas Escrituras e da história das culturas (usos, costumes, moral, formas, valores e instituições).

Quarenta anos de santo inconformismo e da paz do Senhor. Até aqui Ele nos ajudou. Procurei combater o bom combate e guardar a fé. Procurei fazer o que me competia fazer. Talvez, de vez em quando, servos e servas de Deus estejam deslocados do seu tempo e do seu lugar. Este é o tempo, chronos e kairós, que o Senhor me concedeu.

O futuro — se, quando e como — me será, a seu tempo, revelado pelo Senhor. Continuo crendo que “o nosso socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 121.2).

A Ele toda a honra e toda a glória, agora e para sempre!


Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.ieabrecife.com.br

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.