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Reflexão — Bráulia Ribeiro

Ensaio sobre a nudez

Numa dessas noites quentes que convidam ao nirvana intelectual, assisti na TV a uma cena insólita, típica do Brasil de hoje. Lá estava a dona Hebe Camargo, entrevistando, em seu sofá superconfortável, um grupo interessante: mulheres bonitas e bem vestidas, homens nem tão bonitos, mas igualmente bem vestidos, e duas moças absolutamente sem roupa — uma purpurina aqui e ali, e só.

O grupo estava cômico. Hebe e seus convidados falavam de seios, silicones e prazeres sexuais, como sempre. Alguns exibiam um semblante contraditório, obviamente forçados a questionar o pouco de moralidade que lhes restava; outros, decididamente cínicos, tiravam “casquinhas” descaradas da nudez das donzelas.

As moças purpurinadas são produtos extremamente vendáveis para o horário nobre da TV. Os pobres convidados eram apenas coadjuvantes, perplexos diante do inexorável: a bordelização da cultura brasileira. É assim que estamos: perplexos, porém seduzidos, mesmerizados até com a sensualidade exacerbada que nos cerca.

Aqui também, no nosso centro missionário, de vez em quando alguém fica nu. Em setembro, foi um casal que veio de uma tribo isolada com um bebê doente. Era a primeira vez que eles estavam em outro contexto que não fosse a sua aldeia no meio do Amazonas. Sentiam-se desconfortáveis, usando roupas: a camisa ficava pensa, a calça, torta. Agüentaram quinze dias de calor nos corredores e no quartinho do hospital, onde o bebê recebeu tratamento. Quando finalmente a criança se recuperou, eles puderam sair do inferno de concreto e sangue, que é o hospital público, e voltar para o nosso centro, cercado de mata. A felicidade de ver o filho recuperado e reencontrar a natureza não combinava mais com as roupas desajeitadas e amarfanhadas. Kwakwey, o marido, homem de seus trinta e poucos anos, forte e bem formado, andava por aqui como quem tem a liberdade de andar na sua própria tribo. A única peça de vestimenta em seu corpo era um cordão peniano com uma franjinha pintada de vermelho.

A população do nosso centro é constituída de índios visitantes de várias tribos, alunos, missionários e crianças. A grande maioria recebeu a nudez de Kwakwey com naturalidade. Para Moru, a esposa, que exibia os seios e o traseiro nus, a tolerância era ainda maior. Não notei — talvez eu seja cega, sei lá — estranhezas impudicas, olhares lascivos, nem aquela intolerância gerada por puritanismo religioso. É claro que houve risadas nervosas, comentários irônicos, olhares de surpresa e choque. Mas, como somos “transculturais” na nossa essência missionária e diversidade cultural, este é o ar que respiramos. Gente nua ao derredor, genitálias expostas durante os cultos constituem apenas mais uma realidade a qual devemos nos acostumar.

Trabalhei com esta tribo durante alguns anos. Em minhas primeiras viagens eu era ainda solteira, e, apesar de minha inexperiência em relação à nudez masculina, não fiquei chocada ao conviver com uma população nua. Convivendo com pessoas para as quais a nudez era tão natural como o vestir-se é para nós, estar nu fazia mais sentido que vestir-se. Nos caminhos estreitos da selva úmida, as pessoas se reconhecem pelo traseiro, o leite de peito se torna útil para uma infinidade de tarefas além de amamentar e a ausência de roupa proporciona uma maior agilidade de movimentos.

Mas, por incrível que possa parecer às nossas mentes povoadas de imaginações sexuais, a nudez cultural dos Suruwahá não provoca uma sexualização exagerada nas relações sociais. Eles são eróticos e sexuais na proporção “normal” de qualquer sociedade. Isso não quer dizer que eles sejam mais ou menos puros que nós — são apenas menos neuróticos. A nudez tem este efeito positivo.

Mas, antes que pareça que estou fazendo uma apologia do naturismo, vamos comparar esta nudez possível dos Suruwahá com a nossa nudez brasileira, bem representada pelas mulatas purpurinadas do programa da Hebe.

A mulher brasileira parece ver o seu corpo como um patrimônio. Algumas nascem com um patrimônio maior ou menor, mas todas têm o direito de usar seu corpo para adquirir valor. Em terras tupiniquins, o valor da mulher não é inerente; é adquirido, e principalmente em relação ao seu “poder” ou potencial de sedução. Por isso chamamos de “poderosas” as mulheres bonitas, de corpo atraente.

Num contexto cultural como o nosso, a nudez não nos aproxima da verdade sobre nós mesmos, como acontece na sociedade tribal que descrevi. Ela é exibida, da mesma maneira que exibimos roupas de marca ou jóias caras. É uma marca de status — mais uma forma de estratificação numa sociedade engessada em castas, como a Índia. As mulheres brasileiras que se pensam livres e modernas na verdade se coisificaram a ponto de não saberem quem são, de se valorizarem na proporção da idoneidade de seus traseiros, de se exibirem sem constrangimentos na vitrine dos sex-shops, que são nossas ruas, nossos shoppings, nossas casas.

Não posso deixar de me perguntar até onde mais desceremos, nós, mulheres brasileiras. Eu me sinto uma mulher segura, realizada e bonita, mas não faço da beleza a única busca da minha existência, nem extraio de minha figura segurança e realização pessoal. Gosto de sexo, mas Freud e Hebe que me desculpem, sexo não é o principal elemento do meu dia-a-dia, não é o ar que respiro, nem o sonho que sonho, nem o centro das minhas conversas e nem mesmo a minha fonte máxima e essencial de afirmação existencial. Há muitas coisas mais que me interessam e impressionam na vida, além de sexo.

Mas, sempre me pergunto: até quando suportarei algumas gordurinhas sem “precisar” de uma cirurgia plástica para continuar me amando? até quando me olharei no espelho e verei com naturalidade, e não com horror, os efeitos dos anos no meu rosto? até quando vou me aceitar, me amar e me saber valorizada por Jesus, por quem eu sou por dentro? Tudo ao meu redor trabalha para me dizer o contrário. Estou cercada pela cultura que reduziu a mulher a curvas, bumbuns, medidas e apelo erótico.

Naquela noite, ao assistir àquele programa da Hebe, percebi que cada vez mais produtos como eu são absolutamente estranhos, quando pendurados nesta prateleira-Brasil. Não se sabe distinguir mais por aqui o bonito e o sensual do grotesco, nem se sabe a diferença entre liberdade e escravidão. Mas nossa escravidão é purpurinada, claro.


Bráulia Inês Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, onde leciona lingüística e missiologia na Escola de Treinamento Transcultural da JOCUM — Jovens Com Uma Missão.
braulia_ribeiro@yahoo.com.br


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