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Colunas — Política

Eleições municipais: Avanço da esquerda ameaça os evangélicos?

As eleições municipais

O primeiro turno das eleições municipais já passou. Um primeiro exame dos resultados revela duas tendências.

Uma é que segue o aumento da presença evangélica na política. Por exemplo, entre os 55 vereadores paulistanos eleitos, 10 (quase 20%) são evangélicos. Nunca houve uma proporção tão grande de evangélicos em uma legislatura importante do país (atualmente, na câmara federal, os evangélicos são mais numerosos do que nunca, mas não passam de 11%).

O mandato destes evangélicos — e dos eleitos em outros municípios — será conforme a natureza das suas campanhas (ver meu artigo na Ultimato de setembro-outubro). Existe uma certa margem de manobra, mas não há por que se surpreender muito.

A outra tendência das eleições é a que a imprensa destacou: o crescimento de partidos de esquerda ou de centro-esquerda, como o PT, o PSB e o PPS. Não é difícil perceber as razões. Como diz a manchete da Folha de São Paulo de 9 de outubro, “pobreza volta a crescer no segundo mandato de FHC”. “Em 1999, mais 3,1 milhões de brasileiros passaram a não ter renda suficiente para comer, vestir-se e cuidar da saúde e da educação... De uma maneira geral, a pobreza diminuiu nas áreas rurais e piorou nas principais capitais”. Dizer que o governo não tem opções porque a política econômica é determinada pela “globalização” é absurdo, pois hoje até o próprio Banco Mundial e o FMI começam a fazer uma autocrítica das políticas que recomendam aos países pobres. Além disso, as constantes denúncias de corrupção e o papel destacado de políticos de esquerda em promover as investigações ajudaram no crescimento da esquerda.

Candidatos da esquerda vão ao segundo turno em várias capitais e cidades grandes. Por isso, já começam os boatos que visam infundir medo no eleitor evangélico. Começam também os apelos duvidosos. Em São Paulo, Paulo Maluf posa de defensor da ética evangélica, dizendo que cristão não deve votar em Marta Suplicy porque ela defende o aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Em vista disso, cabe fazer duas perguntas.



O crescimento da esquerda é ameaça para os evangélicos?

Não.

Evangélicos e esquerda não são categorias estanques. Há muitos evangélicos de esquerda. Digamos que o eleitorado evangélico seja em torno de 17 milhões de brasileiros. Se apenas 20% deles forem de esquerda (uma estimativa modesta), representam mais ou menos 3,5 milhões de votos. Entre eles estão um bom número dos mais conhecedores da Bíblia, dos mais piedosos na vida pessoal e dos líderes mais sérios.

Além disso, as igrejas evangélicas estão penetrando cada vez mais espaços sociais. Entre estes, incluem-se os meios políticos de esquerda. Hoje, há mais pessoas com um passado de militância de esquerda entrando nas igrejas e continuando com sua militância. As críticas por parte da liderança eclesiástica são consideradas descabidas ou ignorantes, sem que isso implique um descompromisso com a igreja em si.

Estes são evangélicos que querem uma política que reflita o que lêem na Bíblia sobre a justiça, sobre os direitos de todos, sobre a prioridade do cuidado dos mais desprotegidos, sobre a honestidade e sobre a transparência necessária para controlar a pecaminosidade humana. Daí que sua opção é pelas forças políticas que parecem ser, em geral (nunca sem ambigüidades), mais favoráveis a tudo isso. Se essas forças se chamam “esquerda”, não importa. Vou me posicionar onde me parece melhor segundo a minha compreensão da fé cristã. Se a pessoa na minha esquerda me chama de direitista e a pessoa na minha direita me chama de esquerdista, é irrelevante.

A subida da esquerda no Brasil não vai trazer problemas para o Evangelho. A esquerda eleita democraticamente nunca fechou igrejas em país algum, nem durante a Guerra Fria. A liberdade religiosa (o direito de adorar a Deus, pregar em público e converter pessoas por meios pacíficos) não será ameaçada. Apenas os interesses institucionais duvidosos de alguns líderes evangélicos podem ser prejudicados. Mas os evangélicos desinteressados e altruístas não devem se deixar mobilizar como bucha de canhão em guerras particulares de líderes ambiciosos ou despreparados.

Quanto a questões como o aborto, levantadas por opositores da esquerda no segundo turno das eleições para amedrontar os eleitores evangélicos, é importante fazer algumas distinções. Em primeiro lugar, como cristãos, devemos ser defensores da vida de uma forma ampla, que inclui não só os gerados mas ainda não nascidos, como também os ainda não gerados (defesa do meio ambiente para o desfrute de gerações futuras) e os já nascidos (políticas econômicas que não condenem pessoas à morte por inanição, doenças curáveis ou violência urbana; defesa dos direitos humanos). Em segundo lugar, há uma diferença entre moralidade e legislação (nem tudo aprovado moralmente na Bíblia era matéria de legislação em Israel, muito menos hoje). Pode haver um amplo consenso moral na questão do aborto entre os evangélicos, mas talvez não haja tanto consenso legislativo. Isso porque o objetivo não é ter as melhores leis possíveis, mas ter a melhor realidade possível. Diante da realidade abortiva do país, os evangélicos podem divergir politicamente sobre a melhor política legislativa a seguir. Isso sem falar de divergências sobre as exceções (risco de vida da mãe; estupro) previstas na lei atual (tirá-las, mantê-las, expandi-las?).

Ademais, há que levar em conta a diferença entre os cargos públicos. Um prefeito não terá poderes para legislar sobre a lei do aborto no país, nem no município. Sua opinião a respeito, portanto, é irrelevante. E em muitos partidos, como o PT, não há uma linha partidária a respeito de questões como o aborto e os direitos civis de homossexuais. Há somente opiniões pessoais divergentes, como por exemplo entre Marta Suplicy e seu vice, Hélio Bicudo.

Alguns anos atrás, uma pesquisa fascinante mostrou que 53% da população querem que a lei do aborto continue como está (Folha de São Paulo, 17/4/95). Entre os deputados federais de todos os partidos, a porcentagem era de 45%, mas apenas 29% entre os parlamentares do PT. Na questão de casamento entre homossexuais, 74% da população e 67% dos deputados federais eram contra, mas somente 29% dos parlamentares do PT. Porém o interessante na pesquisa era que, entre os eleitores dos vários partidos, não havia diferença. Ou seja, os eleitores do PT se posicionam nestas questões de forma semelhante à dos eleitores dos outros partidos. O eleitor do PT não está votando no partido porque quer a liberalização do aborto, mas porque quer um sistema econômico mais justo e uma vida política mais transparente. O eleitor evangélico que vota em um candidato de esquerda está fazendo o mesmo.



O crescimento dos evangélicos é ameaça para a esquerda?

Não.

Além da crescente presença de uma esquerda evangélica, até algumas lideranças eclesiásticas que já demonizaram a esquerda mudaram de postura. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, agora diz que “a globalização é fruto de uma política econômica ditada pelos países desenvolvidos [...] dando aos seus cidadãos tudo aquilo que ‘roubam’ dos nossos” (Folha Universal, 17/10/99). Sobre o PT, diz que “entendíamos que tudo que fosse vermelho era comunista, que iam matar as criancinhas e iam queimar as igrejas [...] Mas, conhecendo o companheiro Lula [e outros, inclusive deputados evangélicos], passamos a dialogar [...] e vimos que as nossas verdades eram mentiras, que os nossos temores eram infundados e não se justificava que dentro da nossa própria instituição perseguíssemos todos aqueles que fossem petistas e alijássemos da direção da igreja [...] Entendemos que os senhores lutam por aquilo que tambem lutamos.” (Discurso do Bispo Rodrigues na câmara federal, 9/2/00). Em última análise, como já mencionei nesta coluna, a IURD ainda vota de acordo com seus interesses institucionais, mas pelo menos o seu discurso e (às vezes) a sua ação legislativa melhoraram muito.

O crescimento evangélico, portanto, não precisa ser visto pela esquerda como ameaça. Mesmo assim, a esquerda pode transformá-lo em ameaça. Pois, assim como há ignorância da esquerda em alguns meios evangélicos, há ignorância dos evangélicos em alguns meios de esquerda. Há casos verídicos (para além dos boatos mal-intencionados) de algumas administrações de esquerda que não souberam lidar com as demandas legítimas das igrejas evangélicas, nem apreciar a importância social da comunidade evangélica.

A esquerda terá de entender que o crescimento evangélico não ameaça a esquerda em si, mas terá conseqüências para algumas idéias de alguns setores da esquerda.

Certas combinações de posições passaram a ser vistas como lógicas e quase inevitáveis, quando na realidade não há conexão lógica necessária entre elas. É o caso do apoio a uma política sócio-econômica mais solidária e o apoio à liberalização do aborto. Há defesas do aborto, como a “liberdade de escolha”, que operam com conceitos burgueses de liberdade, de liberdade de, não liberdade para. Há conceitos que pensam a liberdade como fracionamento de um corpo social que não se solidariza. Mas não há nenhuma conexão lógica entre a luta por uma sociedade mais justa e fraterna e a defesa moral do aborto. Parece que a maioria dos eleitores de esquerda — inclusive os evangélicos — já percebeu isso. Cabe aos partidos não alienarem esses eleitores.

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