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Coral de anjos em bairros pobres

O sociólogo brasileiro Gláucio Ary Dillon Soares, que há 25 anos dá aulas sobre violência na América Latina na Universidade da Flórida, diz que a pobreza é apenas uma das condições que levam ao crime. Você concorda com ele?

Concordo. A cidade de São Paulo é mais violenta que Teresina, por exemplo. Washington é mais violenta que Nova Delhi. Por outro lado, dentro de um mesmo contexto urbano, os bairros pobres são mais vulneráveis à violência. Na cidade do Rio de Janeiro, a Zona Oeste é mais violenta que a Zona Sul. Em São Paulo, as periferias mais violentas que os bairros de classe média. A desigualdade exacerbada, num mesmo espaço — sobretudo urbano —, tende a aumentar a violência.



É verdade que o hiato entre os desejos de consumo e a impossibilidade de satisfazê-los pode ser uma fonte geradora do crime, como quer Gláucio Soares?

Creio que sim, sobretudo entre os jovens, que na vida são mais livres para arriscar.



Estima-se que o Brasil tenha 21 milhões de pessoas à beira da indigência e pouco mais de 2 mil privilegiados no tijolo mais alto da pirâmide. Isso é um barril de pólvora?

Sim, evidentemente. O Brasil é campeão mundial da desigualdade. Não obstante os progressos feitos e as melhorias conseguidas com o plano real, a desigualdade continua...



Queixa-se demais da justiça brasileira. O deputado José Genoíno diz que “com os pequenos o Governo age como leão e com os grandes mia como gato”. O professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Marcos Gonçalves da Silva, afirma que “a Justiça é capaz de punir um portador de três cigarros de maconha, mas não é capaz de punir nenhum colarinho branco”. É assim mesmo?

A Justiça brasileira tem importante tradição, que remonta ao século 19, mas é lenta e distante dos problemas cotidianos da população. Ocupa-se apenas de uma ínfima parcela dos crimes violentos. Na maioria dos casos, as mortes e os assaltos ocorrem à margem da Justiça. Os direitos humanos e os direitos civis, fundamentos da democracia, soam como um coral de anjos nos bairros pobres. Belíssimos, mas sem realidade física.



O coronel Rui César Melo, comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e presidente do Conselho Nacional dos Comandantes-Gerais, declara que “a falta de punição prejudica a polícia e a justiça” e que “a lei atual instrumentaliza o mal”. Ele lembra que “dos 90 mil que prendemos no ano passado, o máximo que ficou detido no sistema prisional foram 15 mil”, muito embora 75% dos crimes por eles cometidos tenham sido roubos, estupros, homicídios, latrocínios e tráfico de drogas. O que você acha?

Pune-se muito e violentamente nos meios populares. A regra é: “Vacilou, morreu”. Não é tanto a impunidade que nos atormenta. É a falta de justiça, isto é, punições resultantes da lei do mais forte no momento — a lei do arbítrio e do medo, a tirania cotidiana.



Você concorda com o recém-eleito presidente do México, Vicente Fox, de que “a geração de riqueza é certamente a melhor maneira de combater a pobreza”?

Concordo em parte. O Brasil foi um dos países que mais cresceu economicamente no último século. Mas manteve-se também como um dos mais desiguais. É preciso gerar riqueza para ter o que distribuir, porém é preciso querer e saber distribuir.



O professor Milton Santos, da Universidade de São Paulo, é um crítico feroz da globalização. Ele está certo quando afirma que “a competição estimula a violência porque a regra que vigora é a regra que dá resultado”?

A globalização não é boa ou má, ela é boa e má ao mesmo tempo. Resolveu alguns problemas graves e criou novos problemas. Por exemplo, por um lado, superou a Guerra Fria; por outro, aumentou o risco da competição econômica. A cada tempo a sua dor e as suas esperanças. A luta pela paz chegou mais perto de casa. Tornou-se micro, feita por armas pequenas, manejáveis por um indivíduo e que matam em casa ou na vizinhança. É uma luta mais próxima da comunidade local, onde as igrejas têm um papel decisivo a cumprir.



É para se levar a sério esta ameaça do presidente da associação de moradores da favela carioca do Jacarezinho, Antonio Carlos Gabriel: “Quando esgotarmos todas as possibilidades de diálogo com os sistema, vamos descer do morro e tomar o que é nosso”?

Acho esta retórica superada — e perigosa. Prefiro o clamor pela justiça que se abre para a cidade inteira ao exaltar da sua divisão.



Em alguma situação, a violência pode ser “uma resposta legítima à exploração da classe trabalhadora pelas elites”, como quer José Geraldo Corrêa Júnior, conselheiro da Apeoesp?

A apologia da violência na luta de classes fez uma longa e desastrada história no século XX. Não me cabe julgar as decisões alheias, mas trabalho pela solução pacífica dos conflitos. Creio que são mais eficazes a longo prazo. Violência gera rancor e, portanto, o retorno da violência.



José Bové, o porta-voz da Confederação dos Camponeses da França, acredita que, se limitarmos a extensão das propriedades rurais e expropriarmos os latifúndios, faremos cessar o movimento migratório dos camponeses para as cidades. Se os agricultores permanecessem no interior e não migrassem para os grandes centros urbanos, haveria menos violência e pobreza?

Com certeza, mas esta observação já cumpriu o seu tempo. O Brasil tornou-se um país urbano em uma geração. Mais de 80% de seus habitantes moram nas cidades. Importa hoje, no mesmo espírito, valorizar as cidades pequenas e médias. É preciso distribuir as oportunidades econômicas e culturais pelo país, e desfazer a atração ilusória das metrópoles.

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