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A compreensão científica não anula a visão religiosa — nem esta elimina aquela


O 140º aniversário da publicação do livro Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural, de Charles Darwin, agora em novembro, a reconstrução facial de Luzia, o crânio da mulher mais antiga do Brasil, e a renovação da disputa entre criacionismo e evolucionismo no Estado americano de Kansas trazem à tona a gloriosa história da criação. Ultimato reuniu em Campinas, SP, o físico Ross Alan Douglas e o biblista Willian Lacy Lane para programar a presente entrevista. Ross Douglas, canadense naturalizado brasileiro, 71 anos, PhD em física pela Universidade de Winsconsin, é professor aposentado da UNICAMP e vice-presidente da Aliança Bíblia Universitária (ABU). Willian Lane, brasileiro descendente de missionários americanos, 36 anos, mestre em teologia pelo Calvin Theological Seminary (especialização em Antigo Testamento), é professor de hebraico e diretor do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas.

Ultimato - Existe conflito entre ciência e religião?
Douglas -
Acreditamos que existe uma verdade objetiva que pode ser conhecida em parte por meio do cristianismo, mas também da ciência. Toda verdade é a verdade de Deus, quer venha do estudo da natureza, quer venha da revelação de Deus. A história revela muitos conflitos, de maneira que a situação tem sido como uma guerra. Entretanto, um exame mais aprofundado mostra que muitas dessas diferenças são apenas aparentes, sendo o resultado de extrapolações injustificadas e interpretações inadequadas. Sinto que, ao invés de guerra, a complementação mútua seria uma melhor maneira de ilustrar esta relação.

Lane - Há um conflito aparente quando se observa os pressupostos de cada lado. A religião cristã, pelo menos, afirma ser Deus o criador do universo e aceita em geral a cronologia bíblica como verdadeira. A ciência, por outro lado, tende a anular qualquer causa externa à natureza (ao mundo material) para a origem e o desenvolvimento do universo. Entretanto, isso não significa dizer que são incompatíveis. Isto é, a compreensão científica não anula a visão religiosa e nem esta elimina aquela.

Ultimato - O que é evolução?
Douglas -
A evolução, como é entendida popularmente, é algo bastante complexo e abrange diversos conceitos. Pode se referir aos seguintes processos: a) evolução inorgânica (Gamow) - versa sobre a formação do nosso mundo físico, as estrelas, inclusive o sol e seus planetas, e as galáxias; inclui uma explicação para a formação dos elementos a partir de partículas elementares; também chamada de Teoria do Big Bang; b) evolução da vida (Oprain) - procura descrever processos de obter vida a partir de materiais inanimados; c) evolução orgânica (Darwin) - descreve as mudanças em seres vivos que abrangem desde pequenas diferenças entre indivíduos (irmãos e irmãs) até grandes diferenças, como o desenvolvimento de uma nova espécie; os processos seriam aleatórios e a seleção, baseada na sobrevivência do mais forte; d) evolução filosófica (Huxley) - considera a evolução orgânica como um fato já estabelecido e aplica essas idéias nas áreas de história, ética e religião; e) evolução sócio-cultural (Morgan) - aplica as idéias de evolução orgânica nas ciências sociais, como a psicologia e a antropologia. Evidentemente, há uma necessidade de se especificar cuidadosamente que tipo de evolução está-se discutindo.

Lane - Evolução pode ser entendido como um processo de desenvolvimento biológico que ocorre na natureza. O termo, contudo, assume um significado específico quando se discute a origem da vida. Neste caso, evolução é usado para descrever o surgimento de espécies a partir de células. Uma outra maneira de definir evolução diz respeito à formação do universo (os planetas e os astros), cuja origem tem sido atribuída ao Big Bang.

Ultimato - A evolução é uma lei, uma teoria ou um mito?
Douglas -
Estes termos são usados com sentidos variados na prática comum. Se entender por mito algo proposto que não tenha uma base firme, as evoluções filosófica e sócio-cultural são candidatas a aí se enquadrarem, por serem uma extrapolação de idéias da evolução orgânica para outros campos da ciência. Se entender uma teoria por hipótese, ou explicação tentativa, que ainda não foi adequadamente demonstrada, a evolução orgânica seria uma possibilidade, uma vez que o movimento de “desenho inteligente” levanta sérias dúvidas a respeito do desenvolvimento de seres vivos por mecanismos envolvendo apenas o acaso. Se entender por lei uma teoria que já passou por todos os testes aplicados, sugiro enquadrar aí a evolução inorgânica, pelas provas aferidas de estudos sobre a radiação de fundo.

Lane - A evolução, enquanto descrição do processo de desenvolvimento da natureza, é uma lei natural. Mas, no que diz respeito à origem do universo, é uma teoria da ciência que se baseia em certas evidências aceitas cientificamente. Para exemplificar: o relato da criação na Bíblia afirma que todas as coisas foram criadas a partir da fala de Deus. Deus ordenou e aconteceu. Entretanto, nem tudo foi criado do nada. Os seres viventes (animais domésticos, répteis e animais selváticos) foram criados da terra: “Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie” (Gn 1.24). O mesmo ocorreu com as ervas (Gn 1.11) e com o próprio ser humano. Deus o criou conforme sua imagem (Gn 1.27) e, no que diz respeito à matéria, criou-o do pó da terra, de modo que “o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). A palavra homem, no hebraico, é adam e terra, é adamah, que é o substantivo feminino de adam. O adam veio do adamah. O ato criativo de Deus para estes seres se deu não de modo imediato, mas mediato, isto é, Deus usou meios naturais para criá-los. A ciência, naturalmente, não aceita a ação divina nesse processo.

Ultimato - É possível harmonizar a história bíblica da criação com a teoria da evolução?
Douglas -
Há muitas tentativas de harmonizar a história bíblica da criação com as ciências biológicas e geológicas. Apesar de a teoria da evolução ser muito associada a estas ciências, evidentemente não são equivalentes. Muitos dos esforços de conciliação foram descritos no livro de Bernard Ramm: The Christian View of Science and Scripture (Eerdmans, 1954). É uma pena que este livro nunca tenha sido traduzido para o português, embora uma parte dele já tenha sido publicado pela Ediciones Certeza, em espanhol. Ramm defende o que ele chama de criacionismo progressivo, em que ele postula que os dias de Gênesis devem ser interpretados como eras de longa duração. Outros evangélicos como Charles Hummell (The Galileo Affair) sugerem uma interpretação literária do texto bíblico. Donald Daae (Bridging the Gap) faz uma interpretação mais literal. Embora nenhuma tentativa de harmonização seja completamente satisfatória, parece-me que há esperanças de se alcançar bons resultados no futuro.

Lane - Se harmonização significa acomodar o relato bíblico à ciência, eu diria que é possível harmonizar, porém, não é necessário. Por exemplo: a Bíblia diz que a luz foi criada no primeiro dia (Gn 1.3), mas apenas no quarto dia é que foi criado o sistema solar, incluindo o sol e a lua (Gn 1.14-19). A ciência diz que o sol é a fonte da luz. Quem está certo? Criacionistas dirão: a Bíblia está certa. Naturalistas dirão: a ciência está certa. Uma interpretação cristã tenta acomodar as duas visões, defendendo que o sol foi criado no primeiro dia, mas o céu estava nublado. Apenas no quarto dia, ao se dissiparem as nuvens, é que o sol foi visto. Ora, isso é um absurdo. Para entendermos esse conflito precisamos lembrar que Gênesis não é um tratado científico moderno. Além de possuir uma visão do cosmos diferente do que a ciência conhece hoje, está, acima de tudo, falando de Deus, o criador. Neste sentido, é preciso lembrar o que Apocalipse afirma sobre o sol: “A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada” (Ap 21.23; cf. 22.5). Gênesis está fazendo afirmação semelhante. Deus é a fonte de luz e, não, o sol. Isto faz mais sentido ainda no contexto religioso da antigüidade, em que se cria na divindade do sol. Gênesis está dizendo que o sol não é um deus, pelo contrário, é criatura de Deus. Mas um bom exemplo no pensamento cristão reformado sobre como resolver este conflito é o comentário de Calvino do texto de Gênesis 1.16. Este versículo diz que Deus fez os dois “grandes luzeiros”. Como conciliar isso com a constatação dos astrônomos de sua época de que Saturno era bem maior do que a lua? Calvino responde: “Moisés escreveu num estilo popular coisas que todas as pessoas comuns, mesmo sem instrução, possuídas de bom senso, são capazes de entender, mas os astrônomos investigam com grande esforço aquilo que a sagacidade da mente humana pode compreender. Entretanto, este estudo não deve ser rejeitado, nem deve esta ciência ser condenada, pois algumas pessoas têm a audácia de rejeitar qualquer coisa que lhe é desconhecida. Mas a astronomia não é apenas agradável, mas também bastante útil para ser conhecida: não se pode negar que esta arte revela a admirável sabedoria de Deus.” (Calvin’s Commentary: Genesis, vol. I, p. 86.)

Ultimato - Como nome próprio, Adão é mencionado em Gênesis (3.17 e 21, 4.25, 5.1-5), na genealogia de Jesus (Lc 3.23-38), nas Epístolas de Paulo aos Romanos (5.14), aos Coríntios (1 Co 15.22 e 45) e a Timóteo (2 Tm 2.13 e 14), na Epístola de Judas (14) e em outros livros da Bíblia (1 Cr 1.1, Jó 31.33 e Os 6.7). Esse Adão foi o primeiro ser humano?
Douglas -
Há especulações entre evangélicos de uns cem anos atrás sobre a possibilidade de uma raça pré-adâmica. Por sua vez, os arqueólogos evolucionistas têm procurado uma “Lucy”, que seria a mãe da humanidade. O Novo Testamento afirma claramente que Adão é o cabeça da humanidade, como Cristo é o cabeça da igreja. Uma boa discussão sobre este ponto é apresentada por Derek Kidner em seu comentário sobre Gênesis (Editoras Mundo Cristão e Vida Nova).

Lane - A Bíblia o diz que sim. Mas como Adão (adam) significa “homem, ser humano” e, como tal, ocorre em Gênesis 1.26-27 e em outros versículos do capítulo 2, há quem diga que esse adam é nome simbólico para a humanidade. De fato, em Gênesis 1.27 inclui tanto o homem como a mulher: “à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (RC). Em alguns casos, inclusive, as versões bíblicas parecem não concordar quando se deve traduzir Adão e quando se deve traduzir homem para o termo adam. Uma comparação entre as versões Corrigida e Atualizada de Gênesis 2.19-23 mostra esta dificuldade. A Corrigida traduziu adam, na maioria dos casos, por Adão, enquanto que a Atualizada optou por homem. O versículo 21 na Corrigida, por exemplo, ficou: “Então, o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão”. Na Atualizada ficou: “Então, o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem”. Esta diferença se dá pelo fato de não haver letras maiúsculas no hebraico para distinguir uma forma da outra. Mas há um outro fator fundamental. Para o leitor antigo, a questão da historicidade do personagem bíblico era irrelevante. Tanto judeus como cristãos consideram Gênesis parte do Pentateuco (ou Torah), que é a instrução de Deus para seu povo. Como instrução, usa bastante linguagem da sabedoria e muitas formas poéticas, cujo tema principal é a vida humana e seu relacionamento com Deus. Quando lemos outras partes da Bíblia, não perguntamos sobre a veracidade dos fatos. Assim também deveríamos fazer com relação à historicidade de Adão. Quando João relata o encontro de Jesus com a mulher samaritana, por exemplo, não ficamos nos perguntando se aqueles personagens de fato existiram, mas extraímos o ensinamento da passagem. Entendo que qualquer discussão que busque estabelecer a historicidade de Adão ou da criação afasta de nós o foco principal da instrução dada no texto. Não é dizer que não são fatos históricos, mas é dizer que estamos traindo o texto ao nos atermos em estabelecer as verdades históricas, como se a Bíblia só fosse aceita como Palavra de Deus se todos os fatos ali registrados tivessem que ser comprovados historicamente. Se a ciência quer provar o contrário, em nada fere o ensino bíblico.

Ultimato - É possível datar aproximadamente a criação?
Douglas -
Há tentativas de datar a criação. Os intérpretes mais literalistas seguem os cálculos do Arcebispo Ussher, dando uma idade em torno de 6.000 anos. Parece-me que as mais recentes versões de Henry Morse esticam esse período até aproximadamente 9.000 anos. A ciência do século passado indicava 1 milhão de anos. Os estudos mais modernos, baseados na observação dos desvios para o vermelho da luz proveniente de galáxias distantes, resultam em estimativas em torno de 12 a 15 bilhões de anos. Evidentemente, a discrepância é total e certamente envolve problemas de interpretação ou do texto bíblico ou das observações da ciência. É interessante que, quando Galileo demonstrou, através de seu telescópio, o movimento da Terra em torno do Sol e, não, o contrário, ele culpou os intérpretes das Escrituras pela discordância e, não, as Escrituras.

Lane - Do ponto de vista bíblico, a criação tem sido datada a partir de Adão, levando-se em conta as genealogias registradas nos livros bíblicos e a literacidade dos seis dias da criação. Nestes termos, a criação teria tido seu início em 4004 a.C. (cf. Arcebispo Ussher). No entanto, o estudo das genealogias é bastante complexo, pois nem todas descrevem com exatidão o número de anos entre uma geração e outra. Além disso, há diferenças entre os manuscritos hebraicos e gregos no que se refere aos anos de vida das pessoas mencionadas. Adiciona-se a isto o fato de que descobertas arqueológicas têm constatado vida sedentária entre os anos 9.000 e 7.000 a.C. na região do Oriente Médio. A datação da criação é algo mais complexo do que a simples análise da cronologia bíblica ou mesmo a interpretação dos seis dias da criação. Tem a ver com o que se designa criação. Se por criação entende-se o ato de Deus no tempo e no espaço, então é necessário estabelecer uma cronologia confiável e assim torna-se possível descobrir quando foi a criação. Porém, se por criação entende-se o ato divino antes da existência do tempo, então é simplesmente impossível estabelecer biblicamente a data da criação.

Ultimato - Entre o primeiro e o segundo versículo da Bíblia (Gn 1.1 e 2) há algum intervalo de tempo, como alguns sustentam?
Douglas -
Há muito surgiu a sugestão de que o tempo necessário para a deposição de centenas de metros de sedimentos (como o Grand Canyon) podia ter acontecido entre o primeiro e o segundo versículo da Bíblia. De fato, esta explicação fornece um tempo ilimitado. Entretanto, a duração das eras geológicas não é o único problema, porque também observa-se que os depósitos apresentam uma seqüência que ainda é mais difícil de se explicar.

Lane - É bom lembrar que a Bíblia não foi escrita em versículos. Por isso, do ponto de vista da sintaxe hebraica, é difícil separar esses dois versículos, dando assim possibilidade de se entender que tenha havido um espaço de tempo entre os dois. Eles estão unidos na mesma sentença, descrevendo o mesmo ato criativo de Deus.

Ultimato - Os arqueólogos estão dizendo que o crânio achado há 24 anos nos arredores de Belo Horizonte é de uma mulher que não tem os mesmos traços físicos dos nossos indígenas e que teria vivido aqui há 11.500 anos. O que essa descoberta significa?
Douglas -
Para mim esta descoberta significa uma evidência preciosa da existência de habitantes neste continente que não devem ter chegado aqui pelos meios tradicionalmente postulados. Basicamente, abre uma nova perspectiva de estudar um povo até agora desconhecido que habitou nesta região.

Lane - É cedo para estabelecer um veredicto. O crânio achado 24 anos atrás ficou encostado até recentemente num museu e somente agora tem sido investigado por pesquisadores. A constatação depende de reconstruções que os pesquisadores julgam altamente confiáveis para estabelecer o tempo de vida. E, cientificamente, é difícil estabelecer teorias baseando-se em evidências isoladas. Certamente, outras ossadas foram descobertas no mesmo local ou em outras regiões do país. Foram feitos testes semelhantes? De todo modo, o que essa descoberta irá provocar será um estudo mais aprofundado da região e das teorias sobre a ocupação das Américas.

Ultimato - Toda a problemática entre o criacionismo e o evolucionismo teria começado com a publicação da principal obra de Charles Darwin em novembro de 1859?
Douglas -
Como todo trabalho científico, as descobertas são feitas de uma maneira que desafia o lógico. Nem sempre aquele que trabalha durante mais tempo é o primeiro a chegar a um resultado. Neste caso específico, um outro cientista, Wallace, estava desenvolvendo trabalhos semelhantes, indicando que cientificamente havia chegado a hora para o rompimento de barreiras. A meu ver, o problema básico não é entre criacionismo e evolução, mas entre teísmo e naturalismo. No primeiro, Deus criou o universo e ainda o sustenta. No segundo, há uma tentativa de explicar o universo e, especificamente, o homem, sem referência a Deus. O problema é realmente a idolatria, em que o lugar de Deus é substituído por um princípio ou processo como, por exemplo, o acaso.

Lane - Não. Em outros termos sempre houve o conflito de idéias sobre a criação do mundo. O que se sabe hoje, mediante descobertas arqueológicas, é que, já há muito tempo, havia outras concepções sobre a origem do universo. A mais conhecida é Enuma Elish, um relato mesopotâmico da origem do universo. O próprio registro bíblico no Antigo Testamento contesta essas visões de mundo dos povos antigos. O Salmo 104, por exemplo, faz a afirmação de Deus como soberano da criação num contexto em que se atribuía caráter divino aos elementos da criação.

Ultimato - Alguns criacionistas afirmam que a palavra dia, que aparece sete vezes na história bíblica da criação (Gn 1.1-2.3), deve ser interpretada como um período de tempo de 24 horas. Como pode ser isso, se os luzeiros “para marcarem os dias, os anos e as estações” (Gn 1.14, BLH) foram formados no quarto dia?
Douglas -
Parece-me que a palavra yom pode ser entendida pelo menos de três maneiras: a) como dia, aproximadamente 12 horas, em contraste com noite; b) como dia de 24 horas; c) como uma era. O intérprete deve decidir o que é mais apropriado em cada texto. Uma explicação é que os quatro atos da criação nos três primeiros dias descrevem a criação de espaços, e os quatro atos dos últimos três dias correspondem ao preenchimento destes espaços. Desta forma, a criação nos seis dias é uma resposta à descrição do versículo 2, de “um universo sem forma e vazio”. Então os luzeiros correspondem a criação de luz no primeiro dia. Segundo esta explicação, a seqüência no texto não é cronológica, mas, sim, segundo os temas. Gostaria de observar que o ano, o mês e o dia são baseados nos movimentos da Terra e da Lua, mas não existem explicações astronômicas para a semana, se admitimos que a lua tem quatro fases, cada uma delas um pouco maior que uma semana. Mas seria possível também falar em duas fases, o crescente e o minguante, porque o número de fases é arbitrário. Parece-me que a semana tem origem teológica, ou seja, Deus está ensinando a observância de seis dias de trabalho e um de descanso, e, não, necessariamente que o universo apareceu em 6 dias de 24 horas.

Lane - Esta é uma questão-chave. O dia de 24 horas só foi criado no quarto “dia”. A Bíblia usa a expressão “dia” para designar períodos. Um bom exemplo disso encontra-se já em Gênesis 2.4: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus”. A expressão-chave é “céus e terra”. Se interpretarmos literalmente, veremos então que não foram criados no mesmo dia. Gênesis 1 relata que “os céus” foram criados no segundo dia (Gn 1.8) e “a terra”, no terceiro dia (Gn 1.10). Obviamente, então, dia, em Gênesis 2.4, está falando de pelo menos dois dias diferentes. Mas a outra maneira de compreender a expressão “céus e terra”, que é mais correta, é a que denota toda a criação. Na poesia hebraica isto é chamado de merisma — a menção de elementos extremos para se incluir tudo o que está entre os dois. É como dizer “crianças e adultos” para incluir todas as idades, como os jovens e adolescentes também. Deste modo, a expressão se refere a toda a criação. Todavia, ao contrário do capítulo 1, este versículo está falando de um dia em que foram criadas todas as coisas. Portanto, dia pode se referir a épocas. Entretanto, ressalto, que esta interpretação tem por base a própria evidência bíblica do uso da palavra dia. Sou contrário à interpretação que tem por finalidade validar o texto bíblico diante das teorias sobre a idade da terra. Isto seria uma acomodação do texto bíblico, que julgo desnecessária.

Ultimato - A fórmula tempo + acaso = cosmo explica satisfatoriamente a realidade e a complexidade da vida humana?
Douglas -
Nos últimos anos, foram realizados trabalhos importantes, questionando o processo aleatório como mecanismo eficiente para explicar o desenvolvimento de seres complexos a partir de organismos simples. Esses trabalhos indicam que há problemas muito sérios nas transferências de informações. A conclusão é que opera-se um processo guiado por um “desenho inteligente”. Embora esses trabalhos não afirmem que o autor deste “desenho inteligente” seja o Deus da Bíblia, muitos evangélicos fazem a conexão de que Ele o é. E, não somente inteligente, mas também um Deus de amor, que pode ser conhecido pessoalmente.

Lane - Não. Aliás, esta parece ter sido a problemática de Darwin, quando, inicialmente, desenvolveu a teoria da origem das espécies. Segundo ele, a teoria só faria sentido se houvesse tempo para mudanças. Na época, ele foi criticado por matemáticos e físicos no âmbito da compreensão de suas disciplinas sobre o tempo de existência da terra.

Ultimato - Foi Charles Darwin quem pavimentou o caminho para homens como Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Julian Huxley e outros humanistas e ateus?
Douglas -
É difícil defender esta tese no caso de Marx, se lembrarmos que o Manifesto Comunista escrito por ele e Engels foi publicado em 1848, portanto, 11 anos antes da publicação do livro de Darwin. Parece-me que a influência de Darwin seria mais importante nos trabalhos de Engels, escritos na década de 70. Acredito que a influência sobre Huxley seria mais direta. Em geral, há um desenvolvimento contínuo de conceitos e idéias que é pontuado por eventos importantes ou ainda por artigos ou livros relevantes. Certamente o trabalho de Darwin foi um passo relevante no processo de coletar dados e dar uma explicação lógica, seguindo princípios de uma ciência empírica. O grande Newton disse que se ele enxergava mais longe era porque podia se apoiar nos ombros de outras pessoas. Assim, todos aproveitam os trabalhos dos antepassados e contemporâneos e também abrem caminhos para os que vêm depois.

Lane - A teoria da origem das espécies deu margem para que outras áreas do conhecimento humano tomassem por base idéias evolucionistas. Entretanto, é bom frisar que o evolucionismo filosófico pressuposto por muitos pensadores desenvolveu suas próprias teorias de desenvolvimento das idéias.

Ultimato - O que realmente aconteceu nos EUA no mês de agosto com referência à disputa entre criacionismo e evolucionismo? O fato deve ser comemorado como uma vitória da fé sobre a razão?
Douglas -
Segundo as informações colhidas dos jornais, entendo que as teorias da evolução e do Big Bang foram removidas da lista de tópicos para provas importantes, no Estado do Kansas, nos EUA. Devido a tendência imediatista de muitos estudantes em qualquer país, há um forte desestímulo em estudar estas teorias nas escolas secundárias daquele Estado. Algumas leis estaduais, que proibiram o ensino da evolução nas escolas secundárias, foram declaradas não constitucionais pela Corte Suprema daquele país. Esta decisão da Comissão do Estado de Kansas nos EUA representa uma nova tática neste conflito entre os que apóiam o criacionismo em detrimento da evolução. Pessoalmente, não acredito em combater a teoria da evolução por estes meios. Parece-me que trabalhos sobre o “desenho inteligente” são muito mais eficientes, mas exigem um entendimento bem mais profundo dos argumentos.

Lane - O que aconteceu foi que se eliminou do exame classificatório para entrada na faculdade a exigência de se ter conhecimento da teoria da evolução. Possivelmente, isso poderá se desencadear na eliminação do currículo escolar. Mas não vejo razão para festejar isso. Primeiramente, porque existe muitas outras questões ensinadas na escola pública que não condizem com as verdades e os valores bíblicos. Segundo, isso reflete um obscurantismo que não é compatível à fé cristã. Terceiro, não acredito que uma proibição desta, especialmente se localizada num Estado, mudará o rumo das pesquisas científicas ou mesmo a cultural intelectual de uma nação. Já houveram, em outras épocas, leis de proibição de consumo de álcool no próprio Estados Unidos — nem por isso passou a ser uma nação abstêmia. Pelo contrário, surgiu o mercado negro da bebida. Por fim, se como cristãos criacionistas queremos influenciar a ciência e a visão de mundo modernos, precisamos fazê-lo com produção literária e científica alternativa ao pensamento dominante. Convém dizer que isto vale para qualquer dos lados em questão. Ou seja, não se deve permitir que a teoria da evolução seja ensinada como única verdade sobre a origem do universo. Os perigos de um fundamentalismo científico e ideológico existe nas universidades de todo o mundo.

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