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Reflexão — Marcos Feitosa

Fábricas de violência


Enquanto escrevo, repórteres trabalham incessantemente procurando nas delegacias novas informações sobre assassinatos violentos para o telejornal das oito. Buscam de preferência algo que supere o caso do maníaco que estuprou e matou as dez moças em São Paulo há alguns meses.

Pais se preocupam com a integridade física dos filhos, não porque eles freqüentem ambientes sórdidos e comumente cheios de violência, mas porque estão indo à escola. Se a escola se tornou um dos lugares mais perigosos, o que dizer dos outros?

A violência gera audiência. Distribuidoras de filmes anunciam seus produtos como “extremamente violentos”, na expectativa de boa bilheteria. Se a violência estivesse só no cinema já seria terrível; o trágico é que está o tempo todo na vida real. Nem as crianças escapam.

Nos Estados Unidos, em abril, dois adolescentes entraram em uma escola com armas automáticas e bombas caseiras, mataram treze pessoas, entre elas um professor, e deixaram dezesseis gravemente feridas. Já contando com a fama que teriam, deixaram um bilhete: “Era assim que queríamos sair disso”. Também nos EUA, menos recentemente, dois adolescentes aborrecidos com seus colegas de classe e com a professora dispararam 27 tiros a uma distância de 100 metros. Mataram quatro colegas e uma professora, e deixaram dez crianças gravemente feridas.

O psicológo norte-americano David Grosmann, tenente-coronel expert das forças armadas americanas, impressionou-se com a precisão dos meninos — um deles não tinha experiência alguma com armas. Onde essas crianças aprenderam a atirar tão bem? Em seu livro On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society, Grosman alerta: “A mídia está condicionando as nossas crianças para matar. As mesmas técnicas usadas para treinar soldados, levando-os a ignorar suas inibições naturais e matar em campo de batalha, estão sendo usadas a tom de caixa em filmes e video games. E sem as salvaguardas que têm os militares.”

Grosmann diz que matar não surge naturalmente. Todos temos aversão inata a matar semelhantes, excetuando, claro, os sociopatas. Matar é uma habilidade que se adquire. Em seus estudos, Grosmann percebeu que, na guerra, os soldados estão mais dispostos a morrer pela pátria ou companheiros do que a matar. Para vencer essa natural resistência humana, os militares utilizam quatro métodos: a brutalização, o condicionamento clássico, o condicionamento operante e os modelos.

Primeiro é a brutalização. Desde que o recruta entra no quartel ele é verbalmente desmoralizado, sendo o sargento o agente que cumpre essa função. A humilhação constante ensina ao soldado que a individualidade está perdida e que antigos valores devem ser quebrados. Filmes como Born to Kill (Nascido para matar), de Stanley Kubrick, bebem dessa tradição militar. O que acontece com a criança? Até que ela chegue à idade de 5-6 anos, realidade e ficção não são facilmente distinguíveis, e muito do que se vê nos filmes é praticamente tomado como real. A programação “infantil” da televisão brasileira assusta: mortes, assassinatos, espancamentos. Estudos do Journal of the American Medical Association mostram que exposição de crianças à televisão é uma das razões por trás de aproximadamente metade dos homicídios que acontecem nos Estados Unidos.

O passo seguinte é o condicionamento clássico. Lembra-se de Pavlov? Os animais associam o sino tocando com a comida sendo oferecida, e toda vez que o sino toca já começam a salivar. A tarefa requerida é associada com prazer. No início da Segunda Grande Guerra, o exército japonês usava dessa técnica para treinar seus soldados a cometer atrocidades na guerra. Os prisioneiros chineses eram amarrados numa vala com as mãos para trás e alguns soldados japoneses desciam e matavam os prisioneiros a golpes de baioneta, enquanto os outros aclamavam a violência. Depois, a todos os soldados — tantos os algozes como os espectadores — era oferecido sakê, a melhor refeição dos últimos meses, e garotas. Violência e prazer. Diariamente crianças (para não falar nos adultos) também são levadas a associar sofrimento humano (e morte) com prazer. Nos intervalos comerciais de filmes violentos aparecem propagandas de refrigerantes e cereais. Nos video games, causar maior número de mortes gera bônus e “extra vida”, o que leva a criança a associar morte e violência com prazer.

O terceiro método usado nos treinamentos militares é o condicionamento operante, baseado no modelo estímulo-resposta. Se a pessoa é bem treinada, em situações de crise, a primeira linha de ação que surge é a resultante daquele treinamento. Quando crianças jogam video games interativos em que o mocinho destrói os outros, o que se tem é a associação estímulo-resposta. Um amigo se impressionou com seu filho num desses jogos. Ele não conseguia progredir de nível, e seu filho, já um expert, lhe aconselhou: “Não, pai, assim que aparecer, atira logo; nem pára pra pensar, atira!”

O último método é o modelo. Nas forças armadas ele é encarnado pelo sargento — que personifica violência e agressão —, com o qual os jovens soldados se identificam. Nessas últimas décadas, os heróis da meninada têm sido os “Rambos” e os “Exterminadores do Futuro”. É assustador ouvir de funcionários de locadoras que, ao serem questionados sobre o tipo de filme preferido pelos adolescentes, sem titubear apontam os filmes de horror violento e os de ação com muitos tiros e mortes.

A banalização da violência a que se chegou é assustadora. Recentemente, em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, dois adolescentes encontraram na rua um portador da síndrome de Down e o mataram a pedradas, deixando o seu rosto completamente desfigurado. Razão? É que tinham sido advertidos por policiais por terem brigado horas antes num clube da cidade. Cheios de raiva, saíram e, depois de beberem, viram o homem dormindo na rua e resolveram agredi-lo. A razão friamente alegada pelos adolescentes foi a necessidade de “extravasar uma raiva contra outra pessoa”.

O que fazer diante deste quadro? A situação é complexa e as soluções, difíceis. Mas algo tem de ser feito. Como o pensador Theodor Adorno fala em seu texto Educação após Auschwitz, “fenômenos brutais e inumanos não são a barbárie em si; são a sua manifestação”. Ele nos alerta para o fato de que as condições que produziram tanta violência contra o ser humano ainda permanecem, e nós cristãos devemos concordar com ele. Deveríamos reagir decididamente ao perceber que, mais que as condições, parece que se estabelece hoje a deseducação sistemática das nossas crianças, rumo à desumanidade.

Cristãos são chamados não apenas à proclamação, como também a uma presença cristã no mundo que faça diferença — ou que pelo menos tente fazer diferença. Tendemos a ser vistos como alienados, como o pessoal do vagão lá de trás do trem da história, os últimos que percebem o que está acontecendo. Parece que custamos a recuperar a capacidade de discernir, de ter senso crítico.

A modernidade veio e nos pegou de calça curta; bebemos sôfrega e acriticamente muito além da sêde que tínhamos. Agora vem a pós-modernidade e o perigo continua o mesmo. Surgem as novas modas e tecnologias e as incorporamos. Somos mais globais que cristãos. Diante da violência que assola, a reação comum dos pais é a indignação domesticada; a situação é horrível, mas o que se há de fazer? E continuamos a viver da mesma maneira.

Como começar a esboçar reação, ainda que pequena? A crítica que deveria ter partido de cristãos às vezes vem de lugares insuspeitos. Carlos Eduardo Lins da Silva, em comentário na Folha de São Paulo, sensatamente nos adverte que tanto pais como também algumas escolas, a partir de um construcionismo mal digerido, têm educado suas crianças sem limites e responsabilidades. Tudo que a criança faz é bom e deve ser elogiado, não importa se o que ela faz está bem ou mal feito. Tendo crescido assim, diz Lins da Silva, “sem autoridade, limites, crítica, suas crianças perderam o sentido da responsabilidade pessoal e se tornaram monstros”.

São as pedras clamando.

Marcos Gilson Gomes Feitosa, casado, dois filhos, é educador e secretário de capacitação da ABU — Aliança Bíblica Universitária.

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