Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Política

As eleições foram boas para os evangélicos?


As eleições de 1998 foram boas do ponto de vista evangélico? Há muitas respostas possíveis.

Do ponto de vista da fé cristã
O “ponto de vista evangélico” pode significar o “ponto de vista da fé cristã”. Aí, podemos fazer perguntas como: as eleições fortaleceram a democracia? os resultados ajudam a tornar o país menos injusto, e a vida pública mais transparente e menos corrupta?

A democracia é importante porque os evangélicos são minoria e precisam da democracia para garantirem a liberdade religiosa (uma ditadura pode ter liberdade religiosa mas como favor do regime, não como direito de cidadania). Mas, antes disso, é importante porque se adequa à visão cristã do ser humano, de sua potencialidade para o bem e sua tendência para o mal. Deste ponto de vista, as eleições foram um importante passo na consolidação da democracia brasileira. Mas cabe lembrar que, para muitos cientistas políticos, uma democracia só é consolidada quando um presidente eleito passa o cargo para um outro presidente eleito, o que ainda não aconteceu no Brasil (Collor sofreu impeachment e FHC se reelegeu).

Se a democracia é importante, o índice de abstenção nas eleições passadas preocupa. Em vez de caminhar para a maturidade democrática, podemos nos desviar para a desilusão, que deixa a democracia à mercê de aproveitadores e abre o caminho para soluções não-democráticas. Pela prática duvidosa ou pela omissão, nem todas as igrejas e entidades evangélicas ajudam a tornar a democracia brasileira mais forte e eficiente.

Quanto à pergunta se os resultados ajudarão a tornar o país menos injusto e corrupto e mais transparente, cabe lembrar que, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a América Latina é o continente com a maior desigualdade social, e o Brasil é o país mais desigual da América Latina. O próprio presidente já disse que o Brasil não é um país subdesenvolvido mas um país injusto, e que, com a inflação controlada, o segundo mandato dele priorizaria as questões sociais. Neste sentido, as perguntas evangélicas são: As forças que compõem o governo respaldam essa intenção? As medidas concretas refletem essa prioridade? Quanto à transparência, as atitudes e ações dos poderes públicos refletem um esforço sincero para diminuir os vícios na administração dos bens públicos? Como evangélicos, sabemos que não bastam as boas intenções, mas precisamos de boas estruturas e leis, um congresso corajoso na fiscalização e cidadãos informados e atentos.

Do ponto de vista dos evangélicos
O “ponto de vista evangélico” pode também significar “a projeção de evangélicos e a defesa de interesses evangélicos”. Isso já é mais complicado. Existem interesses evangélicos legítimos, como a liberdade religiosa, e a garantia de tratamento justo e igualitário pelo poder público. Existem também interesses ilegítimos: o desejo de usar o Estado para favorecer nossos projetos, como fazem tantos outros grupos; a sede de poder e de respeitabilidade. Da mesma forma, existem razões nobres para desejar a projeção: um evangélico com atuação realmente boa na vida pública dignifica o evangelho, ajuda diretamente muita gente e facilita indiretamente (pela sua boa fama) o trabalho de recomendar e defender a fé. Mas há também ambições menos nobres: um desejo de ter evangélicos eminentes para superar o nosso sentimento de inferioridade; a ideía de que amigos influentes são fundamentais para a evangelização eficaz; a ilusão de que basta colocar “a pessoa certa” lá em cima para que as bênçãos venham e tudo se resolva...

Neste sentido, que achar da atuação evangélica nas últimas eleições? Os evangélicos não tiveram destaque na corrida presidencial. Os “comitês evangélicos” pró-este ou aquele candidato não foram muito atuantes; e as entidades supostamente representativas foram menos ativas do que em 1994 (o CNPB praticamente deixou de existir, e a AEVB se ressente da saída de Caio Fábio da presidência). Mas, em outros níveis, os evangélicos se fizeram sentir. Além do destaque em três eleições para governador, o número de eleitos para o Congresso parece ser o maior de todos os tempos.

No Rio, a dupla Garotinho/Benedita venceu. Pela primeira vez, um dos mais importantes Estados terá governador e vice-governadora evangélicos. Contrariando muitas percepções acadêmicas da política evangélica, Garotinho (PDT) e Benedita (PT) pertencem aos dois maiores partidos do lado esquerdo do espectro nacional.

Em Goiás, Iris Rezende perdeu surpreendentemente a eleição para um terceiro mandato como governador, após 16 anos de domínio quase completo da política estadual. Seria interessante saber até que ponto o eleitorado evangélico participou dessa virada.

Em São Paulo, Francisco Rossi, que em 1994 chegou de forma inesperada ao segundo turno usando um discurso acentuadamente evangélico, liderou por muito tempo as pesquisas. Nas últimas semanas, porém, caiu rapidamente, terminando em quarto lugar. Nos dias seguintes, trouxe bastante desgaste à imagem pública dos evangélicos. Havendo feito uma campanha baseada em críticas a Maluf, aliou-se a este para o segundo turno, aparentemente em troca de apoio a uma candidatura a prefeito no ano 2000. Mereceu as críticas da imprensa secular de que, até pelos padrões da política brasileira, havia sido extremamente infiel e escorregadio; e sua condição evangélica não deixou de ser reparada pelos críticos.

A predominância da Universal
Mais importante é o fato de que a nova “bancada evangélica” no Congresso será a maior da história. Além de dois senadores ainda em exercício, foram eleitos, segundo os meus cálculos ainda provisórios, pelo menos 36 deputados federais. A nova bancada evangélica é 70% pentecostal, uma proporção que vem subindo nas últimas eleições. Nada mais natural, já que 70% dos evangélicos do país são pentecostais. Mas a novidade é o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus como força hegemônica. Catorze deputados federais são membros da IURD, e mais dois cuja filiação é a outras igrejas, devem sua eleição à Universal. A IURD terá uma bancada efetiva de 16, quase a metade de todos os evangélicos. Nenhuma outra denominação chega perto. Os batistas (da Convenção Brasileira) são apenas sete, e a Assembléia de Deus (que outrora dominava as bancadas evangélicas) está reduzida a quatro ou cinco.

A predominância da Universal está em desproporção com sua força numérica no mundo evangélico. Em parte, isso se deve aos recursos (mídia, dinheiro) que dispõe. Mas não é só isso. Seus candidatos a federal receberam mais de um milhão e duzentos mil votos! A mobilização eleitoral dos membros é impressionante, e supera em muito a de outras igrejas que seguem o mesmo modelo de “candidatos oficiais”. Por que o sucesso maior da IURD? Parte do segredo está na mentalidade de “igreja perseguida” que a liderança passa aos membros (a Folha Universal da época da eleição coloca o tema da perseguição como manchete). Evidentemente, a IURD é de fato alvo de muitas críticas, justas ou não; mas o importante é o uso que faz disso para que os membros se convençam da necessidade de votar nos candidatos indicados. Além disso, seus políticos têm evitado os escândalos e absurdos que abalaram a credibilidade de vários políticos de outras denominações. Os membros percebem que os políticos têm uma função para a igreja, e não estão somente usando a igreja para fins pessoais deles ou dos líderes.

Esta hegemonia política da IURD no meio evangélico será positiva para a fé evangélica? Alguns evangélicos diriam sem hesitação que sim, e outros que não. Penso que teremos que ver. A Universal, como todas as igrejas, muda ao longo do tempo, e a responsabilidade do poder poderá acelerar este processo. A Universal não está fadada a ser nociva nem positiva. É claro que há razões para preocupação. No passado, ela já caracterizou Lula e a esquerda como demoníacos. Parece que deixou de fazê-lo. Mas seus deputados, e os partidos em que se concentram, poderão não se caracterizar pelo esforço de tornar o país mais justo e transparente. Além disso, a atuação de seus deputados no passado foi fortemente corporativista; ou seja, como me disse certa vez um deles, “estou aqui somente para defender os interesses da igreja”. Se esta mentalidade continuar, já com mais força, o desgaste evangélico perante a opinião pública será grande, pois o povo espera uma atuação mais nobre e desinteressada de uma comunidade evangélica que já chegou a 15% da população.

Outro perigo é que uma boa fatia da classe política evangélica seja seduzida pelos recursos que a Universal maneja e se torne dependente dela. É necessário agora criar contrapesos evangélicos a este possível desequilíbrio de forças que o poderio da Universal representa. Quando digo “contrapesos”, não estou falando de ser “anti-Universal” (acho absurda a posição de muitos evangélicos de que “a IURD não é uma igreja evangélica”). Trata-se de uma ação afirmativa de valores e posicionamentos evangélicos na política, quer sejam seguidos ou não pela IURD, e uma ação política mais coordenada em torno desses princípios. Denominações não poderão fazer isso; há necessidade de uma ação trans-denominacional. Talvez haja necessidade de novas entidades, mas penso que duas existentes poderão ter um papel nisso, segundo os níveis próprios de cada uma delas. Refiro-me à Associação Evangélica Brasileira (AEVB), cuja re-dinamização agora é imperiosa, e do Movimento Evangélico Progressista (MEP), o qual já tem vários anos de atuação e agora dispõe de três deputados eleitos.

Paul Freston é professor de Sociologia na Universidade Federal de São Carlos e autor de livros e artigos sobre os evangélicos na política. Faz parte da equipe pastoral da Comunidade Cristã Koinonia, em Campinas.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.