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Opinião

Quem está em cima do muro?

Jesus é mesmo surpreendente! Não apenas sua vida foge do padrão e do esquadro da nossa mediocridade como o seu ensino é absolutamente fora da curva – tanto no âmbito do judaísmo do seu tempo, quanto no campo mais amplo da religião e da ética. Se observarmos Jesus mais de perto, fica evidenciado o quanto sua vida e discurso são inteiramente congruentes, o que nos é praticamente impossível, como pecadores fanfarrões que somos.

Notemos, por exemplo, a resistência de Jesus aos questionamentos capciosos que lhes propunham os religiosos de então. O tempo todo, o Mestre escapa das tentativas do enquadramento dilemático que lhes armam os “supercrentes“, “homens do bem“, “defensores da ética e da justiça“, os fariseus.

A primeira, célebre, é o caso da Mulher Adúltera (João 8.6). O dilema era simples: se Jesus ratificasse o apedrejamento ele não seria o Messias, não trazia consigo nenhuma novidade moral, por exemplo – e, pior, ainda corroboraria uma distorção legal de Moisés, pois tal modo de execução só era prescrito na Torá para virgens já comprometidas em noivado (Dt 22.23,24). Além disso, o código mosaico exigia que as duas partes envolvidas fossem executadas (Lv 20.10; Dt 22.22). Ou seja, pegadinha sofismática! Arapuca! Do outro lado do dilema, caso Jesus banalizasse o pecado do adultério, estaria rasgando, descumprindo a Lei absolutizada no Decálogo: “Não adulterarás!“. Em que lado Jesus fica? Nenhum dos dois. Ao falar em atirar uma pedra, ele não desconsidera a Lei. Na verdade, destaca o seu espírito, ao exigir um estado superior de pureza moral – de santidade – dos acusadores. Ou seja, ele os desarma, num xeque-mate fabuloso.

Um segundo exemplo verifica-se na questão notória quanto à legitimidade do pagamento de impostos a César (Mt 22.15-22). Tentam colocar Jesus no córner do seguinte dilema: ou ele diz “SIM“ e fecha com os Herodianos – que, como o nome indica eram partidários do governo de Herodes, o rei-fantoche, marionete dos romanos – ou “NÃO” e apoiava os fariseus, nacionalistas roxos, apesar de não dados às armas, como os guerrilheiros zelotes, e como tais, contrários ao domínio de Roma. Jesus sai tranquilamente do dilema ao estabelecer quem é Deus e quem é César, ou seja, o que é divino, transcendente e eterno e o que é humano, terreno e transitório.

Lembro de tudo isso ao ler os jornais e constatar o clima crescente de ódio e intolerância ao contraditório politico. Até entre os crentes. Quem apoia o governo não merece mais estar na lista de contatos, é bloqueado ou banido das redes sociais. Na verdade, não merece ser chamado de pastor. Muito menos de teólogo: “Marxista dissimulado, esquerdista, chavista-bolivariano dos... infernos! “Na outra ponta, os riquinhos – coxinhas – reacionários, classe média alienada e golpistas: “Essa gente elitizada (!) não está nem aí para a injustiça social do nosso país, tucanos de... Belzebú!“

Eu não entro nem caio nessa. Jesus me inspira. Nada de dilemas desnecessários. Eu me nego a enquadrar ou a ser enquadrado nesse patrulhamento ideológico - especialmente por parte de irmãos em Cristo. O Mestre não fecha com maniqueísmos rasos ou dicotomias reducionistas. Jesus não é, strictu sensu, político. Tampouco apolítico – basta lembrar que foi preso e executado como uma persona non grata tanto para César quanto para o Sinédrio! Nem exatamente a favor nem necessariamente contra o Imperador. César é César. Deus é Deus. César não é Deus. Ideologias são ideologias. O Reino de Deus, a tudo o que é projeto humano, político, inclusive, subverte, ultrapassa e esvazia por sua realidade redentora: “paz, alegria e justiça no Espírito Santo“. Quem segue a Jesus de Nazaré engaja-se em outra “política”, maior, perene, que não nega os projetos humanos - aperfeiçoa-os ou, até mesmo, inutiliza-os, ao suplantá-los no sentido escatológico. Civismo é importante. Cristianismo é mais ainda. Utopia é necessário. Profecia, nem se fala. Revolução é um sonho bem-vindo. Conversão, realidade concreta. Engajamento social é prescrito. Arrependimento real é imprescindível. Política lida com o poder. Espiritualidade enfrenta os poderes. É por isso que não me vejo nem como um sonhador ingênuo nem como um cínico narcisista. Entendo que o Reino de Deus não cabe na Esquerda nem se deixa domesticar pela Direita. É uma realidade anterior e superior a esses conceitos oriundos, entre outras matrizes, da Revolução Francesa.

Se estou em cima do muro? Estou. Tento me equilibrar sobre outro muro, não o que pode me empurrar miopemente para um extremo ou para o outro. Estou, sim, sobre um muro: o das lamentações. Espiritualmente, tenho como antepassados os Profetas de Israel. Aprendi com Isaías, Jeremias e Amós a denunciar e chorar. Confronto o pecado – primeiro o meu – e me cubro de cinzas. Há muita coisa em jogo, meus irmãos e irmãs. Como seguidor do Cristo, eu me recuso - e isso não deixa de ser também um ato político – a comprometer a lucidez e a beleza da Comunhão dos Santos por um atabalhoado posicionamento exacerbado, polarizado, violento que não pode, pela natureza efêmera da condição humana, sustentar-se sem alguma inexorável contradição. Como diria um profeta hebreu herege, “Tudo o que é sólido desmancha no ar.”

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Carioca do subúrbio e paulista do ABCD. É educador, escritor, músico/poeta e pastor na Comunidade de Jesus em São Bernardo (SP). Casado com Rosana Márcia, pai de dois meninos e torcedor do Flamengo e do São Paulo.
  • Textos publicados: 19 [ver]

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