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Opinião

Advento: O Rei virá

Por Luiz Fernando dos Santos

“Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel” (Is 7.14).

Iniciamos neste domingo o novo ano litúrgico da igreja cristã, o tempo do advento. O advento é um tempo litúrgico que pode ser divido em duas partes. Nas duas primeiras semanas (dois primeiros domingos), as ênfases bíblicas se concentram nas promessas e nas profecias quanto a vinda do Messias, o desejado das nações. Os textos propostos para a reflexão da igreja se encontram em quase sua totalidade no Antigo Testamento, a partir de Gênesis 3.15. A partir da terceira semana a liturgia nos propõe a expectativa mais iminente da vinda do Messias, aqueles sinais mais claros, como o da visita do anjo na anunciação à Maria e etc. Todavia, o advento também tem um ar escatológico, pois, tendo já ocorrido na história a realização da promessa e das profecias, a plenitude do tempo já chegou (Gl 4.4) – os dias que agora vivemos são aqueles que em sóbria expectação, na alegria da salvação consumada na cruz, aguardamos o retorno glorioso de Jesus Cristo para a consumação do plano da redenção.

O advento é, portanto, para a igreja e cada crente, um tempo muito rico e que deve ser aproveitado como que saboreando a história sagrada nas páginas da Bíblia. O calendário litúrgico não tem outra razão de ser, bem como as suas festas, do que plasmar na alma e na mente dos adoradores as verdades centrais da fé. O tempo litúrgico é uma espécie de credo celebrado, cantado e confessado.

Voltando ao advento, como igreja devemos usufruir da pedagogia proposta para dar os seguintes passos na fé:

1. Aprofundar a nossa certeza e a nossa confiança nos registros bíblicos quanto ao nascimento humano, virginal, sobrenatural e histórico de Jesus Cristo, o Deus humanado, como diria Bernardo de Clairvaux. Os relatos distam de 3.000 a 700 anos antes de Cristo mais ou menos, em se tratando de Antigo Testamento. Essa esperança vem de longe, de tempos imemoriais, e foi exatamente essa esperança que sustentou a fé do povo de Deus em meio as muitas vicissitudes. Quanto mais a nós, que já não vivemos da promessa, mas que temos a realidade, quanta esperança e quanta força não podemos haurir?

2. O Advento quer demover dos nossos corações os elementos culturais e as muitas outras influências mundanas que nos impedem de dar ao Natal o seu sentido verdadeiro. Pelo Advento, ao cantar os hinos que apelam para que a velha história seja contada, ao visitarmos os textos iminentes da encarnação do Verbo, ao entrarmos no lugar onde Maria estava (pela narrativa bíblica), quando o anjo a visitou, somos despertos para a consciência de que Cristo é a única razão de ser do Natal. Se é verdade que existe um espírito de Natal, ele não pode se esgotar em palavras e sentimentos de paz, solidariedade, altruísmo, compartilhamento e boas obras, geralmente tudo de ocasião e efêmero. O Espírito Natal é o Espírito de Cristo que veio ao mundo para salvar pecadores. Que veio ao mundo para salvar todos quanto nele creem. Sem Cristo, o Natal não faz sentido.

Conheço pessoas que não se sentem bem com as festas de fim de ano, sobretudo o Natal. Sofrem com certa melancolia, são atacadas por uma nostalgia desconfortável, que parece dizer que perderam algo ou não aproveitaram como deveria uma parte da própria vida e etc. Talvez, algumas lembranças doces da infância e de pessoas queridas que não mais se encontram entre nós possam mesmo provocar em nossa alma uma saudade doída. Todavia, quando se tem bem presente de que no Natal o que ganhamos não pode mais ser perdido, que nunca mais irá embora e nem nos deixará partir, quando redescobrimos que o Senhor estará sempre presente, não havendo espaço para saudades, então as nossas carências todas são respondidas e supridas na alegria do Emanuel.

Então, para que serve o Advento? Para preparar o nosso coração tão sobrecarregado e tão distraído pelas muitas preocupações da vida. O Advento é uma espécie de memorando ou lembrete antecipado para nos recordar que o Rei está chegando, que Ele em breve virá.

Parafraseando o grande Agostinho, quem não amou a primeira vida do Rei, não suportará quando Ele regressar. Da primeira vez, Ele veio em fragilidade, pequenez, dependendo da ajuda de suas criaturas para sobreviver à nossa miserável condição. Ele se expôs no presépio, na irresistível beleza de uma criança nos braços da mãe. Cheio de graça, no tempo devido, se expôs voluntariamente no alto da cruz, agora deixando transparecer nele a fealdade do nosso pecado e a punição imputada. Quem não o amou nessa vinda primeira, quando em nossa vulnerabilidade, fez-se próximo, tão próximo que foi chamado de Filho do Homem, não o amará, antes, se encherá de medo, terror e angústia quando Ele vier sobre as nuvens, em glória, para exercer a vingança e levar consigo os que lhe pertencem.

Aproveitemos o Advento para abastecer o nosso coração de pios e santos afetos por Àquele que, vindo, trouxe-nos a salvação, e, quando voltar, nos dará a sua glória para sempre.

• Luiz Fernando é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira, Coordenador do Departamento de Teologia Pastoral do Seminário Presbiteriano do Sul, Professor de Teologia no mesmo seminário e professor de Teologia no Seminário Teológico Servo de Cristo, SP e Faculdade Teológica Batista de SP.

Photo by eberhard grossgasteiger on Unsplash
É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
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