quinta-feira, 02.setembro.2010
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Reflexão — Robinson Cavalcanti
Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes
Robinson Cavalcanti

Um grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de “pentecostalismo” dois fenômenos distintos. De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem -- nem devem -- ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus. 

Podemos afirmar, ainda, um segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como “evangélicas”. Elas próprias, por muito tempo, relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação “evangélica” por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil. O evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento. 

Se o pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo. O discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé. Chamar o bispo Macedo de protestante é de fazer tremer o Muro da Reforma, em Genebra, e os ossos de Lutero e Calvino em seus túmulos. Muita gente tem incluído a IURD, e assemelhadas, como pentecostais, evangélicas ou protestantes, para inflar, de forma triunfalista, os números, ou por temor de retaliações legais, ou extralegais, vindas daquelas instituições. Se sociólogos têm denominado manifestações novas na cristandade, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, ou a Ciência Cristã, como “seitas para-cristãs”, podemos denominar a Igreja Universal e congêneres de “seitas para-protestantes”. 

O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo. Esse “bloco histórico” em formação, para se consolidar, não apenas deve se conhecer mais mutuamente, somando conceitos e subtraindo preconceitos, mas também responder aos desafios de um pluralismo que inclui a diversidade do catolicismo romano, o pseudo-pentecostalismo, o esoterismo, os sem-religião e um agressivo secularismo, emoldurado pelo relativismo pós-moderno. Isso passa, necessariamente, pelo aprender com a história da igreja -- durante, depois e “antes” da Reforma -- e pela superação de uma iconoclastia que, equivocadamente, equipara o artístico com o idolátrico. 

Contamos com estadistas do reino de Deus, com humildade, visão e coragem para consolidar esse bloco? 


Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Odilon De Oliveira Lima Junior | Itarumà - GO #1
Ao meu ver a IURD nunca foi reconhecida como igreja evangélica motivada pelos seus sérios desvios doutrinários. Ela tem muito mais a ver com ESPIRITISMO do que com religião. Assim seguem as novas "igrejas" que estão surgindo sem ase doutrinária nenhuma...
Postado em 23/09/2008 às 10:35:05
 
Alex Esteves Da Rocha Sousa | Alagoinhas - BA #2
Que excelente texto! Como assembleiano, ainda sou daqueles que tentam resistir, dentro da Assembléia de Deus, às fortes investidas do Triunfalismo e da Teologia da Prosperidade, mas é muito bom ver um pastor como o nosso Robinson Cavalcanti fazer essas necessárias distinções. Afinal, a IURD é, sim, fenômeno diferente, fora do Evangelho, alienado da Igreja, com pregação claramente estranha. Eles mesmos, quando falam em programas de rádio, dizem ao ouvinte: "Você que é espírita, católico, evangélico..." No fundo, eles sabem que são outra coisa.
Postado em 25/09/2008 às 12:31:03
 
Edmario Soares Diniz | Nilópolis - RJ #3
Com certeza este artigo do Bispo Cavalcanti é atual e elucidativo em relação a definição de determinadas igrejas que prometem um paraíso na Terra em detrimento de se colocar como alvo principal de sua pregação a graça e a salvação. Estas igrejas que ensinam o triunfalismo terreno divorciado da plenitude de todas as coisas verdadeiramente são pseudo-pentecostais e afirmo mais ainda: elas são pseudo-evangélicas. E pronto!
Postado em 03/10/2008 às 19:45:55
 
Jose Lima De Oliveira Junior | João Pessoa - PB #4
Eu pensei que com o tempo as seitas como: Umbanda, Candomblé,Nagô... deixariam de existir no Brasil. Mas graças a IURD elas apenas mudaram sua forma de cultuar os Orixás, colocaram: JESUS CRISTO É O SENHOR! Antes era OXALÁ É O SENHOR! O q é a IURD senão uma modernização destas seitas? A diferencia e q na IURD o "despacho", as vezes sai mais caro. A IURD tem fachada de igreja, mas na verdade é um grande terreiro.
Postado em 22/10/2008 às 14:45:18
 
Padre Marcus Lima | Curitiba - PR #5
Dom Robinson Cavalcanti, aceite minha mais profunda admiração. Quanto ao texto, vejo na IURD uma grande festa demoniaca com cara de "céu." Como comentou o sr. José Lima de Oliveira Júnior: "a IURD é um grande terreiro", só não entende os pastores e padres covardes e sem compromisso com o verdadeiro JESUS CRISTO.
Postado em 24/10/2008 às 17:10:58
 
Rosa Do Carmo De Oliveira Lima | Campina Grande - PB #6
Sou evangélica de uma igreja Reformada, sei que o impacto de igrejas como a IURD e cia na imagem do Protestantismo é devastador, mas me pergunto se o problema não estaria muito mais no nível de exposição do que necessariamente nas heresias. Imagino se as igrejas ditas Reformadas e Pentecostais tivessem o mesmo grau de exposição se o impacto seria amenizado. Afinal, é na luz que as sujeiras vêm a tona. Talvez as verdadeiras igrejas evangélicas não estejam tão limpas, mas apenas se escondendo da luz.
Postado em 31/10/2008 às 11:21:17
 
Daniel Gonçalves De Melo | Santo André - SP #7
Para mim a IURD tem mais cara de "terrero" como já foi mencionado. O Bispo Robinson de verdade consegue expor o que já está diante de nossos olhos e as vezes não enxergamos nessa totalidade como ele explicou. Se cultuar mais ao diabo do que a Cruz de Cristo tem trazido mais grana pro bolso do Maiscedo, e é por isso que é melhor pra ele trair o Cristo e tentar "libertar as pessoas pela sua força doque esperar e aguaradr a libertação que Deus faz nas pessoas através da verdade. Trabalhamos com pessoas no ABC e não tem tanta "manifestação" assim como na IURD que o D pode ser entendido como DIABO.
Postado em 19/11/2008 às 14:08:50
 
 
 
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