Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Opinião

“Mas por que essa criança não falou antes?”

Se uma criança tentasse falar sobre uma violência sofrida, você saberia como ouvi-la? Sua igreja estaria preparada para acolhê-la e protegê-la?

Por Alexandre Gonçalves

A notícia chega quase sempre da mesma forma: um caso de violência sexual contra crianças é revelado, uma história vem à tona, uma dor – recente ou antiga – finalmente encontra palavras. E então, quase que imediatamente, surge a pergunta: “Mas por que essa criança não falou antes?”.

Para nós, que cremos no Deus que criou cada ser humano à sua imagem e semelhança e, portanto, com dignidade intrínseca, essa pergunta deveria incomodar. Não pelo motivo mais óbvio, que é tentar entender por que algo tão grave ficou encoberto, e sim porque o foco deveria ser outro. Quando insistimos com as vítimas para que respondam por que não falaram, ainda que sem perceber, colocamos um enorme peso sobre seus ombros, atribuindo a elas um certo grau de responsabilidade pelo que ocorreu. Ao fazer isso, partimos do pressuposto de que falar sempre foi uma possibilidade real, simples e acessível, e o silêncio, uma escolha.

É preciso mudar a forma como olhamos para isso e, ao invés de questionarmos o silêncio das vítimas, nos perguntar quem ou o que as fez calar? Porque nem todo silêncio tem a mesma natureza. Alguns emergem como tentativa de sobrevivência em meio ao trauma. Outros são resultado de pressões, explícitas ou sutis, que sufocam a verdade antes que ela chegue a alguém. É aqui que uma distinção se torna necessária, e entendê-la pode mudar a forma como a igreja responde a essas situações.

O silêncio como estratégia de sobrevivência
O silêncio é um estado, prolongado ou passageiro, mas raramente voluntário. Uma criança vítima de violência sexual pode permanecer calada porque não entende ou não tem vocabulário para nomear a experiência a que foi submetida. Ela pode sentir vergonha, medo, culpa ou confusão. Pode amar quem a feriu ou depender dessa pessoa para sobreviver. Em muitos casos, o silêncio é uma resposta psíquica típica do trauma, uma forma de continuar existindo em um ambiente que se tornou inseguro.

Esse silêncio não diminui a dignidade da criança. Desde o princípio, as Escrituras afirmam: “Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou” (Gn 1.27). Cada criança carrega essa marca divina. Seu valor não depende da sua capacidade de falar, explicar ou denunciar. Sua dignidade é intrínseca.

Quando Jesus colocou uma criança no meio dos discípulos e declarou: “Quem recebe uma criança como esta em meu nome, a mim me recebe” (Mt 18.5), Ele não apenas corrigiu uma visão cultural que marginalizava os pequeninos, mas revelou o coração do reino ao apontar que criança não é periférica, e sim sinal da presença do próprio Cristo.

Calar e ser calado são coisas diferentes… e isso muda tudo

Mas, se o silêncio pode ser uma resposta ao trauma, o silenciamento é algo diferente. É um processo que, na maioria das vezes, acontece quando alguém, ou mesmo um ambiente inteiro, atua para que a criança não fale, não denuncie, não seja ouvida. Pode ocorrer de forma mais direta, por meio de ameaças e intimidações, ou de forma mais sutil, quando o autor é alguém de confiança que, valendo-se do vínculo que tem com a vítima, a induz a se sentir responsável pela violência que sofreu, ou a responsabilize pelas consequências caso revele a verdade. Pode ser cultural, quando ensinamos que certos assuntos “não se comentam” ou que a honra da família vale mais que a proteção de um de seus membros. Pode ainda ser institucional, quando a igreja hesita em lidar com a denúncia por receio de escândalo e, consequentemente, de que sua reputação seja manchada na comunidade.

Esse último contexto de silenciamento merece atenção especial, pois pode assumir uma forma ainda mais cruel e perigosa: a espiritualização indevida do sofrimento. Às vezes se sugere que a vítima, mesmo quando tenha sua voz ouvida e sua versão validada, deva perdoar antes mesmo de ser protegida. Outras vezes, apela-se para a unidade da igreja ou para a preservação do testemunho público como razões para evitar a exposição da verdade.



De que lado Deus está quando uma criança é silenciada?
A Palavra de Deus não relativiza a justiça em nome da aparência. Pelo contrário, ela ordena: “Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, repreendei o opressor; defendei o direito do órfão” (Is 1.17).

Jesus foi ainda mais contundente ao advertir: “Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho” (Mt 18.6). É impossível ler as palavras de Jesus sobre os pequeninos sem sentir o peso delas. Não há ambiguidade aqui: o cuidado com os pequenos não é opcional, mas uma responsabilidade seríssima, da qual a igreja não pode se esquivar.

Quando compreendemos a diferença entre silêncio e silenciamento, algo muda em nossa maneira de enxergar a realidade. Se falamos apenas de silêncio, a pergunta inevitável é: por que a vítima não falou? Mas quando reconhecemos o silenciamento, a pergunta se transforma: o que, ou quem, a impediu de ser ouvida?

Essa mudança de perspectiva é profundamente bíblica. As Escrituras não começam interrogando a vítima; elas confrontam o opressor. “Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os desamparados” (Pv 31.8). A criança silenciada é, muitas vezes, o “mudo” do nosso tempo. E a responsabilidade de abrir a boca, portanto, recai sobre nós.

Proteção não é uma opção, é chamado e compromisso
Ser igreja é encarnar o Evangelho também em práticas concretas de proteção. Isso significa cultivar ambientes seguros em que crianças e adolescentes saibam que serão levados a sério. Significa formar líderes que saibam escutar sem pressionar, acolher sem suspeitar de imediato e agir com responsabilidade. Significa também falar abertamente sobre violência sexual, não como um tabu, mas como parte do cuidado pastoral que a igreja deve oferecer. Convém ainda reconhecer que a violência sexual contra crianças e adolescentes não é um “problema interno” a ser resolvido entre quatro paredes. Encaminhar uma denúncia às autoridades competentes não é falta de fé, nem fraqueza institucional, mas um compromisso com a verdade. Assim como é responsabilidade da igreja acompanhar vítimas não apenas com cuidado pastoral, mas também com o apoio técnico que só um profissional poderá oferecer.

Escrevo consciente de que nossas igrejas ainda não fazem tudo isso bem. Mas talvez seja exatamente essa consciência que nos mantém honestos diante do que a Carta de Tiago chama de religião pura e sem mácula: “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tg 1.27). No mundo bíblico, o órfão representa o vulnerável, aquele que não tem quem o defenda. Hoje, crianças vítimas de violência ocupam esse lugar. E o tipo de resposta que a igreja dá a elas é uma forma de medir sua fidelidade.

Quando uma criança falar, o que encontrará em nós?

A pergunta que então precisamos fazer não é por que crianças e adolescentes vítimas de violência não falaram, mas se estamos sendo comunidades de fé onde elas podem falar e, ao fazê-lo, receber proteção real. Quando perdemos essa distinção, julgamos quem sofreu e deixamos de confrontar quem causou o sofrimento. E quando julgamos as vítimas por não terem falado, nos afastamos do coração do Evangelho. Por outro lado, quando enfrentamos as pessoas, estruturas, culturas e práticas que as calaram, nos aproximamos da justiça do reino de Deus.

Provavelmente nunca saberemos quantas vítimas já tentaram nos contar sobre suas dores e não conseguiram, ou pior, foram impedidas. Mas podemos decidir, a partir de hoje, que ao menos em nossas comunidades, essa história será diferente. E uma forma prática de começar é se perguntar: se uma criança tentasse falar sobre uma violência sofrida, você saberia como ouvi-la? Sua igreja estaria preparada para acolhê-la e protegê-la?

  • Alexandre Gonçalves é ministro da Igreja da Irmandade, educador social e instrutor do Programa Claves.
Imagem: Unsplash.


REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (ATOS 20.35)
A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.

Deus conta com a
generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.

É disso que trata a
edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» A Criança, A Igreja e a Missão, Dan Brewster
» O que será desta criança? Cuidado, esperança e vida plena, edição 392 de Ultimato
» Perigo à vista ! - Vulnerabilidades que tornam filhos de missionários mais suscetíveis ao abuso e ao silêncio, por Braian Pitondo
» Como as igrejas podem responder efetivamente ao problema da violência sexual contra as crianças e adolescente?, por Alexandre Gonçalves
» Abuso: uma morte por mil cortes, por Norma Braga

Leia mais em Opinião

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.