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Opinião

Fé cristã, democracia e refeição à mesa

Qual seria a ética mínima para o engajamento político de um cristão? Qual o denominador comum entre todas as inevitáveis discordâncias?

Por Daniel Felipe Pereira de Vasconcelos

Qual a relação entre fé cristã, democracia e refeição à mesa? À primeira vista, talvez não se perceba o quanto esses temas estão conectados. Em 27 de julho de 2026, durante a aula inaugural do 2º semestre no Seminário Servo de Cristo, em São Paulo, aconteceu o lançamento de dois livros: Teologia da Mesa, de Ziel Machado, publicado pela ABU Editora, e Evangélicos e Democracia Brasileira, de Paul Freston, publicado em parceria da ABU Editora e Editora Ultimato. As reflexões compartilhadas nessa aula, conduzida por meio de uma palestra do Paul Freston, conectam-se diretamente com os três temas da pergunta que abre este texto.

Em um ano de eleições presidenciais, faz-se novamente importante conversar sobre o papel da igreja brasileira na política e compreender qual o chamado desta igreja para a sociedade, em um cenário de divisões dentro das famílias, entre amigos e, claro, entre membros de diversas comunidades locais. A experiência vivenciada em 2022 traz vários alertas. Diante da diversidade de igrejas e denominações, experiências particulares não são suficientes para abarcar tudo o que aconteceu naquele ano. Mas muito possivelmente você presenciou ou, no mínimo, ouviu falar de situações de membros saindo de igrejas em razão do posicionamento político da instituição, além de histórias de comunidades que abraçaram um partido e um projeto político, condenando possíveis divergências e formas de pensar.

Também precisamos conversar sobre o papel individual de cada cristão em relação a esse assunto e a esse contexto. A Igreja é formada por seus membros, na qual cada um tem a importante responsabilidade de ter cuidado em como trata seu próximo. O próprio Cristo nos deu exemplos práticos que nos mostram que no cristianismo, embora haja o místico e o proposicional, o que prevalece é o relacional. Cristo conduz seus discípulos a uma relação filial com Deus, expressa já nas primeiras palavras da oração que lhes ensina, “Pai nosso”, apresentando Deus não como algo abstrato, mas como alguém com quem seus discípulos se relacionam. Ser pai não é um cargo ou uma posição, mas sim uma relação. O Pai “nosso” é, também, bastante significativo: a oração não expressa somente uma relação individual com o Pai, mas insere o cristão numa comunidade de irmãos. Percebemos bem essa questão relacional no livro de Mateus, capítulo 6, iniciando na oração e continuando pelo texto, em que Jesus apresenta uma espiritualidade de relacionamento com o Pai. Jesus nos chama a imitá-lo. Esse relacionamento está no centro da mensagem do cristianismo. O pecado dividiu a humanidade, mas somos chamados a enxergar não a divisão, mas a unidade à qual primeiramente fomos chamados por Deus.

No contexto em que a unidade da Igreja tem sido bastante ameaçada pelas divisões e divergências no modo de pensar, qual deveria, então, à luz das Escrituras, ser a nossa postura? Certamente seria a de imitar a Cristo. Então vem à tona o que Paul Freston aborda com profundidade em seu livro: nesse contexto de diferenças e visões divergentes, como seria uma ética mínima para o engajamento político de um cristão? Como seria esse denominador comum entre todas as inevitáveis discordâncias? É salutar que as igrejas entendam que temos toda uma base bíblica para cultivar uma cultura política democrática, onde a Igreja seja um modelo para a sociedade em como lidar com a diversidade, como tratar aqueles que têm uma visão diferente, preservar a união e focar naquilo que nos une.

É aqui que o tema da Teologia da Mesa ganha especial importância. Sentar-se à mesa com pessoas diferentes de nós é uma forma concreta de cultivar a escuta, a comunhão e a reconciliação. Na mesa, os pratos, talheres e copos podem ser bastante variados. Nela, as pessoas podem se apresentar e conectar com suas diferentes culturas, visões e histórias de vida. E como é interessante relacionar isso com algo que Paul abordou muito bem em sua palestra sobre a oração do Pai Nosso, a partir das duas necessidades humanas fundamentais: o alimento e o perdão. Precisamos do pão de cada dia. Mas, igualmente, precisamos vivenciar diariamente o perdão, perdoando e sendo perdoado. Vejo isso como um convite para pensar à luz da perspectiva do Reino de Deus, do que é realmente necessário. E Ziel, em seu livro, traz algumas perguntas instigantes, entre elas: “Quantas vezes reunimos pessoas que não se falam mais com o propósito de reconstruir amizades a partir do perdão?”. De fato, algo acontece no repartir do pão e no compartilhar do tempo juntos.



Como Igreja, temos vários chamados urgentes de nosso tempo para atender. Somos convocados a participar do ministério de reconciliação de todas as coisas com Deus, a ser mordomos da Criação e a anunciar esse evangelho da reconciliação. Em tempos de divisão e tensões, os livros de Paul Freston e Ziel Machado são fontes preciosas para nossas igrejas refletirem e conversarem sobre esses temas. Assim, mesa, democracia e fé estão muito mais relacionadas do que pode parecer à primeira vista. E uma boa abordagem sobre essa relação é fundamental para a saúde de nossas comunidades locais e para o testemunho que devemos dar a toda a sociedade como discípulos de Cristo.

Ver dois abeuenses, profundamente ligados ao movimento, trazerem novos livros à mesa é motivo de alegria e gratidão. Como participante do ministério da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) e da ABU Editora (ABUE), sinto-me privilegiado de fazer parte de um movimento que tem esse propósito em sua missão.
  • Daniel Felipe Pereira de Vasconcelos é analista de sistemas, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, mestre em engenharia biomédica também pela Universidade Federal de Uberlândia. É casado com Aline Vasconcelos. Atualmente serve na diretoria nacional da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) e na diretoria da ABU Editora (ABUE), como 2º vice-presidente.

REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.

Saiba mais:
» Evangélicos e Democracia Brasileira – Fé, ética e liberdade de expressão em uma sociedade pluralista, Paul Freston
» Cristianismo e Política – Teoria bíblica e prática histórica, Robinson Cavalcanti
» Caminhos de Um Evangelho Integral – Um Roteiro Teológico, Valdir Steuernagel [editor]

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