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Opinião

Abuso: uma morte por mil cortes

Como processo que inferioriza e anula, o abuso faz com que a vítima duvide da própria percepção

Por Norma Braga

Há alguns anos, abordei o assunto do abuso com um pastor. Sua resposta imediata permaneceu em minha memória: contou-me a história de um colega seu que acabou saindo da igreja que pastoreava porque não havia como reverter os efeitos de uma acusação falsa. Solidarizei-me com o ocorrido, mas a pergunta foi inevitável: por que a primeira lembrança do pastor havia sido de uma mentira e não de um caso real? Pareceu-me então um reflexo de um imaginário pronto para defender a autoridade eclesiástica, e não a ovelha. Tempos depois, recebi confirmação de que muitos seminários só tocam no tema do abuso para que o aluno se proteja em situações semelhantes, não para reconhecer e lidar com o problema.

Com mais leituras e uma escuta apurada de histórias de abuso, ocorridas tanto na igreja quanto no casamento, vim a perceber o quanto as lideranças evangélicas contornam esse ponto cego. É como se inexistisse possibilidade de poder excessivo nesses cenários. Quando há alguma lucidez sobre o assunto, considera-se “abuso” somente o ato acompanhado de coerção violenta, que deixa marcas visíveis. Porém, não podemos esquecer o tipo de abuso menos visível, que ocorre por manipulação e exploração de vulnerabilidade. São mecanismos de controle que geram abuso emocional, financeiro, espiritual etc – e que também podem anteceder o abuso físico ou sexual.

A primeira condição para que se instalem os mecanismos de controle é a conquista da confiança. Para isso, o abusador costuma iniciar o relacionamento com um bombardeio de amor. Esposas em casamentos abusivos costumam relatar que o marido era amoroso nos tempos do namoro, mas se tornou “outra pessoa” após casarem-se. Em igrejas, o líder se aproxima de um membro específico e lhe oferece uma atenção privilegiada, exagerando suas próprias funções como o “pai” ou “guia” que a pessoa nunca teve e fomentando dependência em vez de promover maturidade espiritual. O bombardeio pode incluir uma profusão de elogios e demais manifestações de apreço, presentes especiais, gestos de honra etc. O exagero fascina a vítima e a faz sentir-se segura. É então que, tal como um predador, ele dá o “bote”, mostrando as garras caso ela não “ande na linha” exatamente como ele deseja. Apavorada com a possibilidade de perder todo aquele amor, ela corresponde e cumpre aquelas demandas, refugiando-se na esperança de ser acolhida de novo. Com o tempo, descobre que o amor grandioso nunca mais voltará, mas, sem ajuda, dificilmente consegue entender o que aconteceu e recobrar a liberdade.



Dizem que o abuso é uma “morte por mil cortes”. Penso que a descrição é acurada. São cortes fininhos como feitos por papel, mas tão numerosos que, seja no lar, seja na igreja, aos poucos destroem: recusa de ouvir com atenção, comentários que rebaixam ou insultam diretamente, correções sem fim, explosões de ira ou silêncio punitivo, acusações de insubmissão diante da menor queixa, culpabilização, ações que impedem a mobilidade e promovem isolamento – proibir ou dificultar saídas, visitas, estudos, trabalho, contato com família e amigos etc –, controle excessivo dos recursos financeiros, exigência de prestar contas de cada mínima decisão, exigência de cumprimento de tarefas mesmo em situações adversas, exigência de perdoar sem promessa de mudança, indiferença diante de sofrimento por doença física ou mental… tudo isso, muitas vezes, de modo intercalado com algum afeto, o bastante para dificultar o reconhecimento do padrão.

Todos nós podemos errar ocasionalmente na maioria desses itens; mas, se de fato somos cristãos e andamos na luz, em algum momento reconhecemos o erro, pedimos perdão e seguimos tentando agir melhor da próxima vez. Já com o abusador isso não ocorre. Pelo contrário, o padrão se solidifica com o tempo, formando um cerco de controle. Soma-se a isso um comportamento duplo: para os de fora, o cultivo de uma imagem límpida de bom pai, bom líder religioso, bom amigo, o que torna ainda mais difícil crer na vítima quando ela finalmente resolve buscar ajuda. Não raro, o abusador se protege de antemão, desqualificando-a como imaginativa, dramática ou sensível demais. Depois que ela consegue relatar o abuso, torna-se mais fácil torcer suas palavras, ou recontar os episódios de um ponto de vista mais favorável.

Vítimas de abuso raramente chegam ao líder com um discurso organizado, com começo, meio e fim. Isso se dá porque o abuso, processo que inferioriza e anula, faz com que ela duvide da própria percepção. Ela tenta relatar ao líder um panorama amplo em que pequenos atos desorientadores se desenrolam ao ponto de minar a liberdade e a alegria; o líder ouve probleminhas e desencontros facilmente ajustáveis, e não raro se irrita porque a fala da mulher (geralmente é mulher) parece desconexa ou exagerada. Em parte, isso se dá porque ainda são poucos os que buscam informação especializada sobre o abuso. Mas essa não é toda a verdade: também opera aí um conjunto de defesas morais, psicológicas e institucionais que impede a escuta atenta e barra a compreensão. Admitir que um casamento não vai bem por poder excessivo do marido, ou que uma igreja não vai bem por uma liderança que domina, implica não só admitir falha no sistema, mas tomar responsabilidade e agir — algo que pode significar perdas. Porém, se o exemplo de pastor é Jesus, que se entregou por nós, o líder segundo o coração de Deus entenderá que arriscar fama, reputação e cargo custa muito menos que preservá-los ao preço de uma ovelha sacrificada.

  • Norma Braga, teóloga e escritora. @normabragaoficial.
Imagem: Unsplash.


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