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Colunas — Ponto Final

Sola Scriptura em tempos de “pós-verdade”

Duas histórias reais.

Em 2016, a Oxford Dictionaries elegeu o vocábulo “pós-verdade” como a palavra do ano na língua inglesa, neologismo em que se admite que numa sociedade midiática não existem mais fatos, apenas versões.

Uma deputadafederal evangélica, ao incitar seu auditório a sair para as ruas, arrematou: “Porque na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção”.Uma das grandes mudanças introduzidas pela Reforma foi o livre acesso às Escrituras, facilitado pela imprensa de Gutemberg. Até então, a consulta direta às Escrituras era dificultada pelo analfabetismo, pela inexistência de exemplares da Bíblia nas igrejas e pela mediação da igreja na sua interpretação, fazendo com que a tradição se associasseao texto bíblico, chegando a ter prevalência sobre ele.

Dois exemplos:primeiro, a tradição diz que Jesus não teve irmãos. Segundo, ela diz que, ao afirmar: “Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja”, Jesus estava ungindo o primeiro papa. Para os reformadores, essa “pedra” refere-se à afirmação de Pedro: “Tu és o Cristo, filho do Deus vivo” (Mt 16.16-18).

O movimento de livre acesso às Escrituras evoluiu, com Lutero e seus sucessores, para o direito ao foro íntimo, no contato com elas, entendendo-se que Deus nos dá a compreensão por meio do Espírito Santo. E mais, chegou-se à afirmação de que somente as Escrituras são verdade e autoridade sobre questões de fé e prática: ‘sola Scriptura’ -- tudo o que se disse ou que se venha a dizer sobre essas questões deverá passar pelo crivo das Escrituras.

A essas alturas, o “dossel sagrado”-- expressão de Peter Berger -- já se desfazia. Aquela cúpula simbólica que mantinha a visão do mundo, da história e do cotidiano única, coesa e imutável -- se preciso, com o uso da espada -- começa a ruir, para dar lugar ao pluralismo iluminista. Desde então, a cada dia existe menos consenso sobre um número maior de coisas. Em cada cabeça, uma sentença; em cada coração, uma verdade.

E os fatos? Ora, os fatos!

Não muitos séculos passados, vivemos a era da “pós-verdade”. Mesmo em termos de fé. Mesmo em termos de doutrinas bíblicas, ou cristãs; mesmo entre os reformados, ou evangélicos. Sim, numa mesma denominação; numa mesma igreja; numa mesma família. Maior que os fatos bíblicos (se é que temos acesso a eles, dirá a “pós-verdade”) é a forma como os interpretamos, a narrativa à qual os ajustamos para dar suporte às nossas percepções espirituais.

E o que restou da sólida “cúpula sagrada”? Do antigo evangelho? Da palavra da verdade? Bem, das rígidas estruturas de imposição e manutenção do cristianismo medieval restou pouco. Inclusive entre os católicos. Do antigo evangelho, ainda hoje ‘best-seller’ incontestável, surgiram primorosas traduções, versões e comentários, em centenas de línguas e linguagens; o melhor dos mundos. E da palavra da verdade permanece, misterioso e intocado, o poder de Deus “para a salvação de todo aquele que crê”. Ela ainda salva, redime e santifica! E nos leva adizer em nossos corações: “Senhor Jesus!” e a cuidar do pobre, da criança, da viúva e do estrangeiro. Para esse fenômeno pode haver muitas versões. Mas não “pós-verdade”.

• Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e também consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final. Acompanhe seu blog pessoal.

Leia mais

Versão ampliada do artigo “Sola Scripturaem tempos de ‘pós-verdade’”

Música “Hora da Palavra”, de Rubem Amorese, interpretada por João Alexandre

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