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Os primeiros refugiados na Bíblia

Délnia Bastos

O ser humano muito cedo se deslocou de sua terra de origem: o jardim do Éden. Devido à queda, por uma ação de proteção do próprio Deus, nossos primeiros pais foram expulsos do jardim (Gn 3.22-24). Lá eles viviam em harmoniosa convivência com Deus, um com o outro e com a natureza; tinham abundância de alimento, trabalho digno e bem-estar (Gn 2.8-25). Já no “refúgio”, a harmonia nos relacionamentos foi quebrada, o alimento dependia de trabalho duro e o bem-estar deu lugar ao cansaço (Gn 3.16-19).

No “exílio” da presença de Deus, nasce a esperança. O descendente da mulher feriria a cabeça da serpente (Gn 3.15). O protoevangelho anuncia uma vitória final daquele que seria o Messias. Como fruto do seu trabalho, já no Apocalipse, podemos antever novos céus e nova terra -- ou seja, o homem “refugiado” voltará às suas boas origens (Ap 21.1ss). Os cristãos, que muitas vezes se sentem forasteiros neste mundo, de fato o são. As palavras “estrangeiros” e “exilados” são usadas para descrever a situação da humanidade. Quando o plano de Deus estiver concluído, finalmente nos sentiremos em casa!

Caim -- refugiado precursor de vários elementos culturais
Caim e Abel, os primeiros filhos do primeiro casal. Caim se ira, se levanta contra o irmão e o mata. Torna-se um refugiado fugitivo, conforme se lê em Gênesis 4.10-14: “E disse Deus: Que fizeste? [...] serás fugitivo e errante pela terra”. Caim vive um castigo parecido com o de seus pais, mas ainda pior. Torna-se um nômade acuado e com a pior consequência do pecado, que é o afastamento da presença de Deus.1 Mas, mesmo em meio a pecado e castigo, Deus derrama sua graça e provê cuidados para o assassino Caim, conforme lemos em Gênesis 4.15: “E pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse”.

Ainda que o nome do Senhor tenha começado a ser invocado pela linhagem de Sete, outro filho de Adão (Gn 4.25-26), Deus não se esqueceu do refugiado Caim. O autor de Gênesis se importa em incluir a sua descendência na narrativa bíblica. E ainda mostra que a linhagem de Caim instaurou vários elementos culturais.2 Aqueles que poderiam ser rotulados como um “bando de beduínos” são responsáveis pela origem do urbanismo, da agropecuária, da música e do trabalho com bronze e ferro (Gn 4.17-22).

Noé e sua família -- literalmente sem terra
Tempos depois, mesmo com alguns cultuando ao Senhor, a maldade do homem se multiplica na terra. De um descendente de Sete, surge aquele que “nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou” (Gn 5.29). Este é Noé, “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos”; a Bíblia menciona também que “Noé andava com Deus” (Gn 6.9). Deus escolhe este homem justo para fazer com ele e sua família uma nova aliança.

Durante o dilúvio, Noé e os seus se tornam refugiados. Depois do dilúvio, a arca para no monte Ararate (Gn 8.4) e eles se fixam em outra terra, distante de onde Deus primeiro encontrara-se com Noé (Gn 6.1-9.28). E dali, desta família refugiada, surge o primeiro registro bíblico dos povos do mundo (Gn 10).

Abraão -- “o povo do outro lado do rio”
Inicia-se então um novo capítulo na história da redenção com um homem chamado Abraão. Ele vivia com sua família em “Ur dos caldeus”, uma das cidades mais antigas ao sul da Mesopotâmia, perto da desembocadura do Eufrates no golfo Pérsico. Abraão não era originalmente um hebreu -- era um estrangeiro. E, quem sabe, um refugiado, pois sua família pode ter saído de Ur procurando refúgio (Gn 11.31-32).

O chamado de Abraão consiste numa das passagens missiológicas mais importantes da narrativa bíblica, conforme Gênesis 12.1-3: “Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. [...] em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Abraão não se enquadra no conceito de um refugiado, porque peregrinou por um ato de fé e obediência a Deus -- não por necessidade de abrigo ou por sofrer perseguição. Mas podemos imaginar que ele tenha experimentado muitos dos mesmos sentimentos que experimenta um refugiado.

Em Gênesis 14.13, Abraão é chamado de hebreu pela primeira vez: A palavra “hebreu” significa de maneira literal “povo do outro lado do rio”, referindo-se ao rio Eufrates, uma vez que a base de seu povoado se deu após realizarem a travessia do rio e se fixarem na chamada terra de Canaã.3

Esse nome denota viandantes, aqueles que “passam adiante”. Isto porque os israelitas por um tempo realmente levaram uma vida nômade. Os hebreus tiveram uma história de migração, lutas, fugas e cativeiros.4

Jacó -- o peregrino por excelência
A vida de Jacó foi de muita perseguição e consequente peregrinação:

Primeiro, Jacó foge da fúria de seu irmão, para sobreviver ao risco de ser morto; anos depois, ele foge de seu sogro, para buscar a liberdade (o que nos lembra a questão da mão de obra escrava); finalmente, já idoso, Jacó foge de sua terra, para sobreviver aos tempos de fome e estar perto do filho.

Deus não se limita a agir em determinados locais ou países. Como na vida de Jacó, Deus acompanha o peregrino e o refugiado em suas andanças pelo mundo e pode lhes dar profundas experiências de encontro com ele e transformação de vida onde quer que seja. Isso confirma relatos de refugiados por todo o mundo contando de seus encontros com Deus. Aliás, estudiosos afirmam que uma pessoa em outro país ou cultura é mais aberta para ouvir o evangelho.

José -- vítima do tráfico
O filho mais amado de Jacó torna-se o mais odiado dos irmãos (Gn 37.4). Por isso, os irmãos planejam matar José, mas acabam vendendo-o como escravo (aos 17 anos!) para uma caravana que segue em direção ao Egito (Gn 37.18-28).

Pensando ter morrido o filho, Jacó lamenta a morte de José por vários dias (Gn 37.29- 36). Este fato nos faz lembrar os “desaparecidos” de hoje -- pessoas que são sequestradas, vendidas ou até mesmo mortas. A maioria é vendida para o tráfico sexual, outras para o trabalho escravo e o tráfico de drogas. Seus familiares nunca podem ter certeza da morte e o luto não pode ser vivenciado completamente. Que amargura é ter de conviver com esta possibilidade! Imaginar um filho ou irmão morto, ou, talvez até pior, sendo usado no tráfico sem dignidade nem respeito.

Muitas reviravoltas aconteceram na vida de José durante seu exílio. Ele foi vítima de injustiças, mas sempre se portou de maneira exemplar e Deus o abençoou ainda mais. O Senhor tinha um plano para José desde o início -- ele seria governador do Egito numa época crítica de fome em toda a terra. Tipificando o próprio Cristo, José salvaria não só o seu povo, mas outros povos também. Como ele mesmo afirmou, anos depois, quando se revelou a seus irmãos de forma extremamente comovente: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós” (Gn 45.1-8).5 Nisso também José se diferencia dos refugiados de hoje. Há exceções,6 mas a maioria não chega a atingir todo o seu potencial devido às limitações da vida no exílio. Frequentemente sofrem discriminação e têm enorme dificuldade em regularizar documentos e validar diplomas no exterior.7

Notas
1. Carriker, Timóteo. Teologia bíblica da criação; passado, presente e futuro. Viçosa, MG: 2014. p. 9.
2. Ibid., p. 10.
3. Vesce, Gabriela E. Possolli. Hebreus. http://www.infoescola.com/historia/hebreus/. Acesso em 13 nov. 2014.
4. Batistti, Júlio. História antiga. juliobattisti.com.br/tutoriais/adrienearaujo/historia006.asp. Acesso em 13 nov. 2014
5. Ver também as palavras de José em Gênesis 50.20, depois da morte de Jacó.
6. Por exemplo, Albert Einstein (1879-1955) foi apátrida durante um tempo de sua vida e produziu grandes realizações.
7. Um dos serviços da ONG cristã Compassiva, em São Paulo, é prover assistência jurídica, auxiliando refugiados árabes a conseguirem documentos e validarem diplomas para o exercício de suas profissões no Brasil. www.compassiva.org.br/levando-ajuda-ao-refugiado-lar/. Acesso em 7 jun. 2017.

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