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Enredo e desenredo em “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum
Gladir Cabral

Autran Dourado, em sua obra “O Risco do Bordado”, propõe a escrita do romance como metáfora da bordadura. Refletindo sobre o mistério da memória e os caminhos e descaminhos da vida, já quase ao final da história, o narrador pondera: “Mas de um homem sempre alguma coisa fica, quando nada nas lembranças, esperando a ressurreição. Feito dizem: Deus é que sabe por inteiro o risco do bordado” (1981, p. 155). Utilizando essa mesma metáfora para entender a obra “Dois Irmãos”, pode-se dizer que Milton Hatoum, por meio de seu narrador, tece uma grande obra de urdidura.

Em sua delicada e complexa tapeçaria, Hatoum utiliza muitos fios de narrativas clássicas, bíblicas, como a história dos irmãos Esaú e Jacó (Yaqub), que me parece ser o arcabouço estruturante da obra. Nela estão presentes o conflito entre irmãos, as preferências dos pais, os efeitos da superproteção, as manipulações da mãe, a cumplicidade dos filhos, a contenda da mãe com as possíveis noras e o reverso da fortuna.

A história da família de Halim se alinha com a história da cidade de Manaus e com a história do Brasil. No romance, uma comunidade de imigrantes libaneses convive, em plena Manaus do século 20, com as culturas locais, dos curumins, da floresta, das chuvas intermitentes, das frutas e peixes do Amazonas. Entretanto, mais do que literatura regional, “Dois Irmãos” lida com temas universais, como o amor e o perdão.

Ao centro da história está a família de Halim e Zana, e seus três filhos: Yaqub, Omar e Rânia. E há mais desencontros do que encontros propriamente. Por meio da narrativa, Nael vai entrelaçando os fios da memória e delineando o caminho das personagens que chegam e partem do eixo familiar. Tenta descobrir, assim, o mistério de sua própria identidade.

Entretanto, enquanto o narrador vai tecendo o fio da vida, ela mesma (a vida) vai se desfiando em inúmeros desenredos, desencantos, partidas, desamores, paixões, finitudes. Enfim, a ação erosiva do tempo vai marcando o corpo das pessoas, as casas, a cidade.

O livro mostra que a grande questão da vida é o perdão. O romance fala do poder destrutivo do rancor e do veneno da amargura, que atuando junto com o orgulho impedem as pessoas de superarem diferenças e aceitarem a possibilidade da reconciliação. Sem reconciliação, a vida trava. É o que temos em “Dois Irmãos”. A falta de perdão destrói o futuro, pois faz apodrecer o passado e torna infértil o presente. Assim lamenta o narrador: “Uma palavra bastava, uma só. O perdão” (p. 191). Nem Yaqub nem Omar deixaram descendência. O possível filho, que seria Nael, tem sua identidade envolta em dúvidas e ambiguidades. Ele não sabe de quem é filho.

No caso da história de Esaú e Jacó, a reconciliação viria depois da grande luta de Jacó ao atravessar o Vale de Jaboque. No caso dos dois irmãos, há apenas duas grandes lutas, mas em momento algum há reconciliação. Por isso, não há travessia.

• Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal.

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