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Colunas — Reflexão

A igreja e a cidade

Ed René Kivitz

 

Mal chegou às minhas mãos, foi consumido com voracidade. “Por que Crescem os Pentecostais?” era um livro na medida certa para um jovem pastor que tudo quanto desejava era “fazer sua igreja crescer”. Obra de Peter Wagner, um dos precursores, com Donald McGravan, do “movimento de crescimento de igrejas” do Fuller Theological Seminary, Los Angeles, Estados Unidos, o livro chegou ao Brasil no mesmo contexto em que aterrissaram por aqui os modelos das megaigrejas na Coreia, na Argentina e na Colômbia. No mesmo período proliferaram os congressos e conferências para pastores e líderes, com temas invariavelmente abordando técnicas e estratégias para o crescimento de igrejas, que aliás perduram até hoje.

 

Chamo as igrejas identificadas nesse paradigma cujo foco é o crescimento de “igrejas “na” cidade”. São igrejas cujo modelo de atuação prioriza “ganhar almas para Jesus”, que na prática significa “tirar pessoas do mundo e integrá-las na igreja”, para que entrem na dinâmica de atividades e esforços para “ganhar mais almas para Jesus” e “integrá-las na igreja”. As igrejas “na” cidade querem ser tudo na vida das pessoas que nelas se integram. Elas não estão preocupadas com a cidade, estão preocupadas consigo mesmas e, no máximo, com as pessoas da cidade. Estão “na” cidade, mas fazem pouquíssima ou pequena diferença na cidade.

 

Além das igrejas “na” cidade, existem também as igrejas “para” a cidade. Em geral, são igrejas que, além de consolidadas, experimentaram notável crescimento e se tornaram ricas em recursos humanos, financeiros e materiais. Estas igrejas romperam o patamar da sobrevivência e da expansão, atingiram um número de membros e frequentadores suficiente para mobilizar um contingente de pessoas capaz de gerar uma dinâmica em que o crescimento é quase automático. A rede de relacionamentos dos membros e frequentadores dessas igrejas se entranha na cidade, e o afluxo de gente às suas atividades, eventos e cultos dominicais é constante. A preocupação dessas igrejas já não é mais o crescimento. Já se tornaram igrejas grandes. Agora querem ser relevantes. Conscientes da necessidade de harmonizar evangelização e responsabilidade social, passam a desenvolver programas e projetos de prestação de serviços para a cidade. E isso concorre ainda mais para que o afluxo de pessoas se intensifique em sua direção. As igrejas “para” a cidade servem à cidade. Em relação às igrejas “na” cidade, significam um avanço considerável. São raras as igrejas que conseguem esse salto na direção do serviço, capazes de conciliar palavras e obras, “kerigma” e diaconia, e que não apenas “ganham almas para Jesus”, mas reproduzem na cidade o estilo de vida de Jesus, que “andou por toda parte fazendo o bem”. Esse estágio, igrejas “para” a cidade, é considerado o ideal a ser alcançado por muitas igrejas, e a maioria das que o alcançaram desejam ampliar sua rede de serviço e influência. Consideram que ser igreja “para” a cidade é o estágio final. Mas existe um desafio ainda maior. 

 

Os dias exigem mais do que igrejas “da” cidade, ou igrejas “na” cidade ou “para” a cidade. O próximo passo é a multiplicação de igrejas “com” a cidade. Identificar organizações, projetos, iniciativas alinhadas com os valores do reino de Deus, buscar parceria com pessoas que promovem a valorização da vida humana em ampla dimensão, promover o intercâmbio entre a igreja e a sociedade nos ambientes de defesa e ação em favor dos direitos humanos, são desafios ainda a ser vencidos por igrejas com mentalidade meramente proselitista. Abandonar a pretensão do protagonismo sectarista, abrir mão da necessidade de assinar as ações de solidariedade, atuar juntamente com os conselhos municipais, entidades de classe, movimentos sociais, coletivos diversos, ONGs, integrar a igreja nas expressões de generosidade suprarreligiosas, canalizar recursos financeiros, mobilizar voluntários e trocar tecnologias sociais com organizações não confessionais são possibilidades remotas para a maioria daqueles que pensam que a graça de Deus é monopólio religioso evangélico. Abrir os templos para a agenda cultural da cidade, colaborar na elaboração das políticas públicas, mobilizar as comunidades religiosas para as ações coletivas de interesse público são coisas próprias de igrejas com fé cidadã.

 

O salto de ser igreja “na” cidade ou “para” a cidade a fim de ver surgir a igreja “com” a cidade exige o arrependimento da pretensão de controlar os agentes e atores da missio Dei. Implica ouvir Moisés ensinar aos que pretendiam proibir os que profetizavam: “Eu queria que todo o povo do Eterno fosse profeta; queria que o Eterno pusesse seu Espírito em todos eles” -- e não venha dizer que o povo do Eterno está restrito àqueles que passaram pelo batismo em “nossas igrejas”.

 

Para ser igreja “com” a cidade é imperativo superar o pensamento dos muitos João e ficar com a revolucionária proposição de Jesus: “Mestre, vimos um homem usando teu nome para expulsar demônios e o impedimos, porque ele não é do nosso grupo”. Jesus reprovou-os: “Não o impeçam. Se ele não é inimigo, é aliado”. Para ser igreja “com” a cidade é necessário se converter à verdade de que Jesus tem muitos amigos que a igreja não conhece.

 

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

facebook.com/edrenekivitz

 

 

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