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Capa

As muitas “espiritualidades” e a graça de Deus em São Thomé das Letras

O mineiro com cara de matuto

 

Bem antes de chegar a Três Corações, a caminho de São Thomé das Letras, no final de janeiro de 2016, o Mineiro com Cara de Matuto ficou surpreso e intrigado ao ver pela janela do ônibus o alto de uma montanha distante como que coberta de neve. Só quando chegou a São Thomé é que ele percebeu que a cidade está edificada sobre uma enorme jazida de quartzitos, que brilham quando sobre eles incide a luz solar, por causa da mica existente na rocha, a 1.290 metros de altitude, de onde se vê todas as montanhas ao redor.

Além da tradicional saudação “Bem-vindos a São Thomé das Letras” e da enorme estátua do apóstolo Tomé, o que chama a atenção são as três colunas do portal da cidade construídas com placas irregulares de pedra umas sobre as outras. O calçamento, os muros, a maior parte das casas, as portas, as janelas, a Igreja da Pedra, tudo é feito com essas pedras. O quartzito é antiderrapante, de baixa absorção de água, atérmico, durável e prático, cada vez mais usado por arquitetos, decoradores, paisagistas e engenheiros no acabamento de obras, e popularmente conhecido como Pedra São Thomé. Está faltando um templo evangélico construído com essas pedras, o que faria sentido, já que Jesus é a pedra principal e os fiéis, as pedras vivas (1Pe 2.4-8).

Paz e amor

A Pedra da Bruxa é impressionante. Surge de repente para quem está caminhando do lado norte de São Thomé. Tem 10 metros de altura. A largura menor na parte de baixo contrasta com a largura bem maior na parte de cima, como se fosse um pescoço sustentando uma enorme cabeça. Alguns metros à direita fica a famosa Pirâmide, que só parece uma pirâmide de fato na parte de cima da construção. É um lugar muito procurado pelos alternativos, porque simboliza a ligação do céu com a terra. A base da pirâmide manda energia da terra para o céu e coloca as pessoas em contato mais direto com as divindades, seja qual for, na concepção dos místicos. Sua base é quadrada e representa a terra (os quatro elementos da natureza) e o ápice indica o “ponto final” e o “ponto inicial” de todas as coisas, o “centro místico”, a divindade. Numa pirâmide invertida, a base para cima e o ápice para baixo, são os céus que mandam energia para a terra. Entre a Pirâmide e a Pedra da Bruxa, encontra-se uma modesta cruz fincada no chão. O Mineiro adoraria se fosse uma enorme cruz vazada, como aquela que está no Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG, porque essa cruz aponta tanto para a morte como para a ressurreição de Jesus Cristo.

O Mineiro supõe que alguns dos alternativos devam ficar incomodados com a invasão da modernidade em seu paraíso de São Thomé das Letras. Junto à Pedra da Bruxa há três altas torres de transmissão e junto à Gruta de São Tomé há uma agência do Banco Itaú.

Em não poucos pontos turísticos de São Thomé, o Mineiro viu o símbolo da paz, criado em 1958 por Gerald Herbert Holtom (1914-1985), o preferido pelos hippies. Dentro do círculo há como que um tripé, cujo significado é “Paz e Amor”. Junto à Cachoeira da Lua e ao Mirante, o símbolo estava desenhado na grama em alto relevo, com o auxílio dos quartzitos.

A Paróquia São Tomé Apóstolo foi criada em 1840. 92% da população de São Thomé das Letras se diz católica. Apesar disso, na área de 370 quilômetros quadrados assistida pela paróquia não há nenhuma freira e nenhum outro sacerdote senão o padre Sebastião, que o Mineiro fez questão de visitar. O padre lhe disse que o desinteresse pela igreja é enorme e poucos a frequentam. Ele atende sozinho treze comunidades. A despesa da paróquia, na ordem de 12 mil reais mensais, é maior do que a receita, no valor de 8 mil.

O paraíso terrestre de todas as tribos

Logo ao chegar a São Thomé das Letras, o Mineiro e o neto Davi Bastos dirigiram-se à Praça da Matriz para conhecer e se relacionar com os hippies que porventura estivessem por lá. Além de entregar a edição de Ultimato, cuja matéria de capa é Propaganda de Deus (setembro/outubro de 2009), o ancião e o jovem distribuíram um formulário dirigido à comunidade alternativa. O primeiro contato foi com um peruano de 33 anos, que prefere ser chamado de artesão, e não de hippie. À semelhança de muitos outros, ele não tem religião, mas leva muito a sério a espiritualidade. Para ele – que foi católico no passado – Deus não é pessoal, mas está em todas as coisas.

O próximo encontro foi com um grupo de rapazes e moças quase todos de Campinas, SP. Eles foram muito afáveis. Um deles, de 22 anos, envolvido com o estilo de vida alternativo desde 2015, disse: “Abandonar a dualidade terrena é o único caminho para se alcançar a plenitude em Gaia”. Outro, de 19, quando se perguntou qual era a sua religião, deu uma resposta curiosa e reveladora: “Sou tudo: católico, evangélico, espírita kardecista, espírita umbandista, espírita candomblecista, ateu e agnóstico”.

No dia seguinte, quando tomavam café da manhã numa padaria, o Mineiro e Davi se encontraram com um casal muito simpático, ambos moradores de São Thomé, que ali mesmo tentaram preencher o questionário. Shallon, de 37 anos, de educação superior, registrou: “Cada um de nós tem sua fé e seu modo de ver as coisas, mas nos respeitamos mutuamente. Já presenciei experiências com irmãos estrelares. Creio que o Criador é criador de todas as coisas. Jesus disse ‘na casa de meu Pai há muitas moradas’, inclusive galáxias” – acrescentou. “O universo infinito é a casa de meu Pai e meus irmãos estão lá. O próprio Jesus declarou: ‘Eu não sou deste mundo’.” Camila, de 34 anos, a esposa, escreveu: “Deus está acima de todas as coisas, pois ele está em tudo, no ar, na terra, em nós. Vivemos (ou pelo menos tentamos viver) em harmonia, com uma alimentação melhor, mais próximos à natureza, absorvendo a energia que a terra nos passa. Não carregamos placa de igreja e religião”.

Perto deles estava um português chamado Victor, de 31 anos, alternativo desde 2004. A última pergunta do questionário era sobre o que vem depois da morte. Sendo um não cristão, a resposta dele foi muito sábia: “Só vou descobrir após a morte”.

Naquela mesma manhã e naquela mesma padaria, o Mineiro ofereceu a revista para dois jovens franceses. O rapaz visita São Thomé das Letras periodicamente e a moça, recém-chegada da França, estava lá pela primeira vez. Ambos entendem que objetos não identificados existem e que as pirâmides são catalisadores de energia. A moça adotou o estilo de vida alternativo em 2015.

Quando foram conhecer a Pedra da Bruxa, Davi Bastos e o Mineiro se encontraram com Daniel Majer, um argentino de 60 anos que se mudou para São Thomé há pouco tempo por se sentir bem no ambiente místico da cidade. Ele era evangélico e se tornou esotérico em 1980. Daniel acha que São Thomé é uma cidade-luz, dona de uma vibração-energia singular, que reúne todas as tribos, sem preconceito e perseguições. Hippies, alternativos, esotéricos, ufologistas, permaculturais, místicos, roqueiros, são várias facetas de um só prisma.

Patrimônio místico de São Thomé das Letras

Quando ouviu a lenda que deu origem ao nome da cidade de São Thomé das Letras, o Mineiro percebeu a curiosa coincidência do conteúdo da pequena carta de Paulo a Filemom com a história da cidade.

No relato bíblico, por volta do ano 60 depois de Cristo, Onésimo é um escravo preso em Roma por ter fugido de seu senhor, um cristão rico chamado Filemom. Na mesma cela, estavam Paulo e Timóteo, que pregam o evangelho a Onésimo. Quando este é libertado, o apóstolo manda uma carta a Filemom pedindo que o receba como irmão na fé, e não como escravo. Graças a esse pedido, Onésimo foi recebido amigavelmente por Filemom.

Na história de São Thomé das Letras, João Antão é um escravo refugiado numa caverna por ter fugido de seu senhor, um rico fazendeiro chamado João Francisco Junqueira. Na caverna, um homem de vestes brancas aparece e pede ao escravo que volte ao seu senhor e lhe entregue uma carta solicitando um tratamento diferente para Antão. Para se certificar da verdade, João Francisco, guiado pelo escravo, vai até a caverna. Não acham o tal estranho, mas encontram uma imagem do apóstolo São Tomé entalhada em madeira, que é levada para o oratório da fazenda. No dia seguinte, a peça desaparece e João Francisco acaba achando-a outra vez na mesma gruta. Esse episódio ocorre mais duas vezes, levando o fazendeiro a acreditar no relato do escravo e a construir uma capela junto à gruta, que hoje é a Igreja Matriz São Tomé Apóstolo. Porque na gruta havia também umas letras estranhas gravadas na rocha, o povo acrescenta a palavra “letras” no nome do pequeno arraial. (Especula-se que teriam sido escritas pelos índios cataguases, antigos moradores da região ou extraterrestres.) Essa história data do início do século 18 (João Francisco morreu em 1819). (O senhor de vestes brancas poderia ter sido um padre jesuíta fugido das perseguições movidas pelo marquês de Pombal.)

Diz-se que São Thomé das Letras é a segunda cidade mais mística do país (a primeira é Alto Paraíso, em Goiás). Alguns a chamam de Cidade Mística, Cidade das Pedras ou Cidade dos Óvnis. O lugar atrai místicos e alternativos do Brasil e do exterior. É fácil entender por que isso acontece.

São Thomé é uma cidade pequena (a densidade é de dezoito habitantes por quilômetro quadrado) e distante dos grandes centros urbanos (curiosamente ela está a aproximadamente 330 quilômetros de distância das três mais importantes capitais brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte). É um paraíso natural, com formações rochosas, cavernas, vários pequenos rios e cachoeiras, corredeiras, matas e pedreiras. Chega-se a dizer que São Thomé é um dos sete pontos energéticos da terra. Isso fez o Mineiro se lembrar de Isaías 40.29 (“Aos cansados Deus dá novas forças e enche de energia os fracos”).

Além do mais, certas lendas pesam muito. Diz-se que a Gruta de São Tomé é a porta de entrada de um caminho subterrâneo que atravessa os estados brasileiros de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, a Bolívia e uma pequena parte do sul do Peru, para voltar à superfície na misteriosa Machu Picchu, a “cidade perdida dos Incas”, localizada no topo de uma montanha (como São Thomé das Letras), a 2.400 metros de altitude (em linha reta o percurso seria de 3.088 quilômetros).

Outra lenda diz respeito à Gruta do Carimbado. Segundo os místicos, ela também faz parte do antigo sistema de túneis que existiam em todo o continente. Esses túneis seriam a herança de uma civilização extraterrestre que colonizou a terra antes de nós, seres humanos. Por causa disso, há quem acredite em supostas aparições de discos voadores em São Thomé das Letras.

Por causa do panorama físico e do panorama lendário, a pequena cidade atrai místicos, hippies, alternativos, bem como sociedades espiritualistas, alternativas e científicas, como a Fundação Harmonia, a Sociedade Brasileira de Eubiose e o Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick. A cidade tem mais de 120 pousadas, inúmeras lojas de artigos esotéricos, casas de espiritualidade e até uma escola de bruxas.

Desde 1983 a cidade é reconhecida como uma reserva natural, ecológica e paisagística. É conhecida também como o Parque Nacional de São Thomé das Letras. Ela acaba de comemorar o seu 44º aniversário como município.

Um caldeirão de crenças

Para muitas pessoas, São Thomé das Letras é uma cidade desacreditada, conhecida como local de intensa baderna. Mas nada disso significa necessariamente que a cidade viva em função de um estilo de vida normalmente reprovável.

Sob o ponto de vista religioso, o que mais assusta em São Thomé das Letras é o abandono do Deus da Bíblia, o desconhecimento da natureza humana e da natureza divina de Jesus Cristo e a troca do cristianismo por uma mistura enorme de crenças, como panteísmo, hinduísmo, zen-budismo, xamanismo, espiritismo etc.

O Mineiro sentiu na própria pele o que Paulo vivenciou em Atenas. O historiador conta que “Paulo ficou revoltado ao ver a cidade tão cheia de ídolos” (At 17.16). O politeísmo em Atenas era tal que havia inclusive um altar dedicado “ao deus desconhecido”.

O pecado de São Thomé das Letras não é o secularismo, a apatia religiosa, o agnosticismo, o ateísmo. Os místicos que ali vivem são iguais a todas as demais culturas, em qualquer lugar e em qualquer tempo. O ser humano tem fome e sede insaciáveis de Deus. Faz parte de nossa natureza. Ninguém escapa. A ideia de Deus é tão antiga quanto a humanidade. Por essa razão nem o cérebro nem a alma conseguem se livrar de Deus – tanto os povos mais primitivos como os povos mais desenvolvidos. Os biólogos nos chamam de Homo religiosus. O jornalista Hélio Schwartsman, de origem judaica e ateu, é obrigado a admitir que a religião não vai acabar. Ele explica: “Embora Deus esteja no fundo do poço na Europa, particularmente nos países do norte, onde a frequência a igrejas e a crença em entidades sobrenaturais só despencam, o ser humano vem de fábrica com uma série de vieses cognitivos que praticamente imploram para que sejamos religiosos”.

O problema de São Thomé das Letras não é a falta de religião, mas a falta daquele Deus único, com o qual se pode ter comunhão.

Deus é posto para fora

No Cruzeiro, perto da Pirâmide, o Mineiro olhou para frente e para trás, para um lado e para o outro. A visão panorâmica o fez lembrar da declaração de que “a glória de Deus viaja pelos céus, as obras de arte de Deus estão expostas no horizonte” (Sl 19.1, AM). De fato a imensidão do universo, a beleza e a ordem de tudo, as fabulosas distâncias entre a terra e os outros astros, a variedade enorme da criação, são um convite irrecusável para o silêncio, para a contemplação e para a adoração a Deus. Pois tudo foi criado por ele e para ele.

Mas, quando se entra no terreno da chamada mentalização, prática comum entre os esotéricos, as coisas começam a ficar complicadas para a fé. A impressão que se tem é que a criação é desvinculada do Criador. Ou, mais realisticamente, a natureza ocupa o lugar de Deus. O Mineiro chegou a essa evidência ao ler um texto sobre o poder da mentalização positiva. A autora, uma terapeuta holística, ensina que é preciso sentir a presença da Natureza (sempre com a primeira letra em maiúsculo), por meio do seguinte exercício, que deve ser feito diariamente às 18 horas:

-- “Procure sentir a presença da Natureza no ar que respira, em cada respiração, em cada pulsação... Na semente que germina, na planta que nasce, no botão de rosa que se abre... Nas ondas do mar, no barulho da cachoeira, na correnteza dos rios, no pôr do sol... No orvalho das manhãs, no amanhecer e no anoitecer, no raio do sol, no clarão do luar, no brilho das estrelas, em toda a natureza, em tudo o universo... Sinta a presença da Natureza em tudo e em todos, dentro de você”.

Todo espaço foi preenchido pela natureza, e não por Deus. Essa destronização de Deus é confirmada em outro momento quando a terapeuta ensina o discípulo a repetir de si para si: “Eu Sou meu constante apoio. Eu Sou minha saúde. Eu Sou minha proteção. Eu Sou o perdão. Eu Sou a perfeita satisfação de todas as minhas necessidades e eu Sou a minha mais alta inspiração. Confio no fluxo da vida, pois sei que ela reserva para mim o que há de melhor, sempre. Eu Sou gratidão” (o verbo ser está sempre em maiúsculo). C.S Lewis, um dos grandes intelectuais do século 20 e o autor de “As Crônicas de Nárnia”, pensa exatamente o contrário: “Eu oro porque não posso me ajudar. Eu oro porque estou desamparado. Eu oro porque a necessidade flui de mim o tempo todo, dormindo ou acordado”.

O texto parece ter sido roubado da famosa apresentação de Deus a Moisés no deserto: “Eu Sou quem” (Êx 3.14). (Veja Eu Sou quem, p. 31.) Essa absurda e indesculpável inversão é mencionada por Paulo: “[As pessoas] adoraram e serviram as coisas criadas e seres criados, em lugar do Criador, que deve ser adorado para sempre” (Rm 1.25, NBV).

O maluco da BR chamado Bicudo

Ninguém em São Thomé das Letras sabe quem é Everton Augusto Lopes Pereira, um hippie de 34 anos, casado com Eliane, pai de Ruana (10) e Radassa (4). Desde os 12 anos ele é conhecido como Bicudo.

Embora ele e Eliane conservem a aparência de hippies, eles são hippies convertidos a Jesus Cristo. Bicudo vem de uma cultura alternativa e viajava por vários estados do Brasil com uma mochila, um violão e um painel de artesanato. Não era um hippie tradicional, mas um “maluco da BR” (ou “maluco da estrada”), nome que se dá aos hippies que não param em lugar algum, viajam de carona, dormem nas praças, produzem e vendem material de artesanato (também chamados de “micróbios”).

Numa dessas viagens, Bicudo passou por uma comunidade hippie em Felixlândia, no norte de Minas, chamada Comunidade da Bíblia Hippie de Cristo, que acolhia os malucos da estrada, dando-lhes a oportunidade de viver em comunidade e de ouvir o evangelho, mas proibindo qualquer consumo de álcool e drogas. Ali, Bicudo, então com 22 anos, tomou a decisão de aceitar Cristo como seu salvador e senhor. Pela primeira vez em alguns anos, perdeu a vontade de fumar maconha. Pouco depois, porém, afastou-se do Senhor e voltou a ter uma vida mais doida do que antes. Foi nessa ocasião que ele topou com Li (Eliane) e a levou em sua companhia.

Em 2006, nasceu Ruana, e eles conheceram Israel e Talita, um casal de missionários, com os quais começaram a conviver. Quando a menina completou 1 ano, Bicudo e Li decidiram ir para a estrada de novo, desta vez em busca de um lugar tranquilo para viver longe da cidade. Ele tinha voltado outra vez para as drogas, mas a vontade de se reaproximar de Jesus estava cada vez mais forte, graças à amizade e ao testemunho de Israel e Talita. A família foi parar em São Thomé das Letras e logo encontrou alguns missionários da Avalanche Missões Urbanas e da Caverna de Adulão. Desta vez a mudança foi pra valer, tanto para ele como para a esposa.

Depois de dois anos caminhando junto com outros hippies convertidos, Bicudo voltou para Felixlândia para ser discipulado e servir, junto com a esposa, como obreiro da missão por três anos e meio. Nesse tempo, nasceu Radassa. Uma vez ordenado pastor, Bicudo foi chamado para dar suporte a um casal de obreiros da Igreja Batista que estava trabalhando com hippies em São Thomé das Letras. Há três anos, ele é pastor da Comunidade Tribos e Nações, que se reúne num salão alugado.

O Mineiro assistiu à reunião de estudo bíblico, cânticos e orações na última quarta-feira de janeiro de 2016. Havia umas vinte pessoas entre homens, mulheres e crianças. Todos estavam com suas Bíblias abertas na Carta de Paulo aos Colossenses acompanhando as palavras do pastor. O verso 16 tem muito a ver com a origem da natureza exuberante de São Thomé das Letras: “Por meio dele [de Cristo], Deus criou tudo, no céu e na terra, tanto o que se vê como o que não se vê, inclusive todos os poderes espirituais, as forças, os governos e as autoridades. Por meio dele e para ele, Deus criou todo o Universo”.

De vez em quando, o Mineiro se lembrava do pequeno manual intitulado Trinta Dias de Oração por São Thomé das Letras, redigido por Daniel de Castro Alves, pastor da Igreja Presbiteriana de Barão Geraldo, em Campinas, SP, um apaixonado pela cidade e pela evangelização dos tomeenses, como se pode ver no que está escrito na primeira página: “A glória de Deus resplandece sobre São Thomé!”. Daniel faz um apelo veemente: “Vamos crer em Deus para um derramar do Espírito Santo na cidade de São Thomé das Letras”. Ele está convicto de que “a intercessão quebra barreiras, remove muralhas, atravessa fronteiras e chega onde há grande necessidade e poucos recursos humanos”. Filho de Três Corações, a mais próxima cidade de São Thomé, Daniel troca a palavra “Sião” por outra ao citar Isaías 62.1: “Por amor de São Thomé das Letras, não me calarei, não me aquietarei, até que saia a sua justiça como um resplendor e a sua salvação, como uma tocha acesa”.

O pequeno livro de Daniel foi publicado pela Igreja Presbiteriana de Três Corações, em 2005. Ainda não há uma igreja presbiteriana em São Thomé, mas todos os anos o pastor Vinicius organiza uma caravana de presbiterianos da Vila Rosália, em Limeira, SP, para realizar um trabalho de impacto evangelístico na cidade, no mês do aniversário de São Thomé (agosto).

Harmonia

O Mineiro visitou por último a misteriosa Fundação Harmonia, uma propriedade de sete hectares muito bem cuidada na zona rural. Sua origem data de 1988, quando um grupo de jovens da cidade de Araras, SP, se despertou para a amplitude do ser humano e buscou “uma forma de convivência individual e social pautada no autoconhecimento, expansão consciencial, cidadania planetária e cósmica”.

No portão de entrada, há a figura de um cavalo alado e de um leão apoiado no “paz e amor”. Lá dentro, a mistura é enorme. Há estátuas de Buda, Brama, Confúcio, Hércules, Apolo, Atlas, Afrodite, Iemanjá, Aristóteles e muitos outros, os quais o Mineiro teve dificuldade de identificar. Havia também um lugar para Jesus Cristo (antes não houvesse) e para o brasileiro Saci-Pererê, de uma perna só e com o cachimbo na boca. Havia ainda a imagem do homem invertido (não quanto ao sexo), de cabeça para baixo e pernas para cima, representando a pessoa de costas para as divindades e voltado só para as coisas terrenas.

A escultura maior era de uma mulher de barriga para baixo sustentada por seus próprios braços e pernas, a uma larga distância umas das outras. Era Nut, a deusa egípcia do céu, irmã de Geb, o sol.

Entre as muitas representações de animais, havia uma comprida jardineira em forma de serpente, cheia de curvas. Na primeira ponta, estava a cabeça da serpente. Talvez seja isto que a organização chama de harmonia: todos os deuses no mesmo espaço, todas as crenças no mesmo caldeirão. Em certo lugar estava escrito: “Todos os seres vivos nascem no Brama [o ser eterno e universal do bramanismo], vivem no Brama e ao morrer retornam ao Brama”. O Mineiro desconfiou que estivesse na Índia, e não no Brasil. Ele ficou abatido com tudo que viu e o pouco que ouviu da gentil cicerone, que se identificou com o nome Sinai. Ela disse que está subindo em direção ao alto, mas há muito chão ainda para percorrer (ela nada sabe sobre a graça, a salvação pela fé, e não por obras).

Ao voltar para casa, o Mineiro leu a paráfrase de Mateus 5.14-15 no devocionário Um Ano com Jesus, de Eugene Peterson: “Vocês estão aqui para ser luz, para trazer as cores de Deus ao mundo. Deus não é um segredo a ser guardado. Vamos torná-lo público, tão público quanto uma cidade num plano elevado [como São Thomé das Letras] [...] Os discípulos cristãos não são apenas uma influência nos bastidores, mas também uma iluminação pública” (p. 55).

Mais na frente, ele leu a oração: “[Ó Deus,] limpa a ferrugem e a sujeira de teu nome até que as palavras ‘Jesus’ e ‘Cristo’ declarem a verdade clara sobre ti, Pai. Amém” (p. 74).

Os cristãos precisam limpar o nome de Deus que nós mesmos sujamos. Mais ainda, precisam mandar missionários especiais para São Thomé das Letras. Não pode ser qualquer um: os são-tomeenses, os alternativos, os hippies, os artesãos, os malucos da BR, o pessoal da Harmonia e os turistas merecem missionários muito bem preparados, seguros, educados e cheios de entusiasmo. Homens e mulheres que vivam o que pregam e que preguem o que vivem, bem próximos de Deus, numa comunhão contínua e crescente! Aleluia!

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Harmonia messiânica na plenitude da salvação

A Bíblia fala que haverá perfeita harmonia entre as diferentes espécies de animais e entre eles e os seres humanos. Lobos e ovelhas, leopardos e cabritos, bezerros e leões, pastarão juntos e descansarão no mesmo lugar. E criancinhas brincarão perto de não serão picadas, mesmo que enfiem a mão nas suas covas. “Pois a terra ficará cheia do conhecimento da glória do Senhor assim como as águas cobrem o mar” (Is 11.1-9).

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