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Arte contemporânea: O que fizeram com a arte?

O que fizeram com a arte?

Liz Valente

 

Era uma galeria subdividida em salas; na primeira, um vídeo de uma mulher “nadando” no chão do espaço expositivo; na segunda, diversos cobertores de aparência velha e suja sobre um banco simples; na última, uma série de vasos com violetas mortas ligadas a bolsas de soro fisiológico. Já tinha ouvido dizer que o papel da arte é “provocar”, funcionou, saí de lá oficialmente inquieta, “quem são vocês, e o que fizeram com a arte”?

 

A arte contemporânea é muitas coisas, menos entediante. Ela não gosta de afirmativas generalizantes, nada que a comprometa ou dê qualquer tipo de restrição/orientação formal, prefere simplesmente ser “contemporânea”. No entanto, o que permite essa falta de compromisso formal (que se refere à forma plástica, linguagem estética) é a compensação teórica; ou seja, a justificativa teórica da expressão artística ganhou destaque em relação à própria obra artística. Aliás, o uso do termo “expressão artística” em lugar de “obra de arte” ocorre na literatura justamente para reforçar que é o abstrato (a expressão) e não o concreto (a obra em si) que tem maior atenção hoje. Acontece que o conceito de arte sempre foi importante, mas agora ele é indispensável. Os discursos são variados e podem até se contradizer, mas o compromisso de cada artista com seu discurso é importante, assim como a coerência interna entre o discurso e a expressão formal desenvolvida. É por isso que visitar galerias com obras contemporâneas exige estudo, e se gasta boa parte do tempo da visita lendo os memoriais descritivos das obras, e internamente fazendo as conexões que as obras exigem do visitante.

 

Para que haja uma resposta cristã à arte contemporânea é necessário o mesmo tipo de comprometimento teórico, caso contrário correrá sério risco de ser irrelevante. Que justificativas os cristãos dão para as suas obras de arte? A justificativa não é uma mera explicação da obra, também não é o seu fim, mas é um enredo do qual ela resulta. Para que a arte seja contemporânea e tenha liberdade formal ela não pode cumprir exigências de função, precisa simplesmente ser arte; e para que haja coerência teórica com a cosmovisão cristã, ela também não pode ter um fim em si mesma ou em qualquer outra coisa senão a glória de Deus.

 

Liz Valente é mestranda em arquitetura e urbanismo e investiga as inter-relações entre espaço e arte no Museu de Arte Contemporânea. Também é cantora, compositora e autora de quatro peças teatrais. Casada com Pedro Paulo e mãe do pequeno João.


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