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Colunas — Ponto Final

Que haja luz em tua casa

Rubem Amorese


É impossível a um cristão deixar de pensar no Egito, nesses tempos de Páscoa. As ligações entre a nossa festa, a de Jesus e a do primeiro evento encerram um tesouro simbólico inesgotável. Jesus tinha isso em mente quando a celebrou com seus discípulos. Para ele, ela consumava, em seu corpo, significados apenas indicados na celebração original.

 

Assim, aprendemos, desde cedo, que esse simbolismo fala de escravidão e de libertação; de trevas e de luz. A servidão no Egito, hoje, materializa-se no jugo do pecado; e a celebração da Páscoa transforma-se em memorial de libertação pelo poder de Deus.

Eu gostaria de considerar as duas últimas pragas, supondo que na narrativa bíblica haja uma ligação semântica entre as trevas e a morte dos primogênitos. Elas são o momento mais agudo da luta contra o “Egito”.

 

Conforme o relato, as trevas que caíram sobre o Egito eram tão densas que podiam ser apalpadas. Assim, “não viram uns aos outros, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias” (Êx 10.23). Entretanto, havia luz nas casas dos filhos de Israel.

 

Com efeito, “Egito” se liga simbolicamente a escravidão e a trevas espessas, condição semelhante àquela em que o mundo se encontra hoje. Entretanto, nas habitações de nossos corações pode haver luz. Porque, como aconteceu no passado, naquele Cordeiro estava a vida, e a vida era a luz dos homens. Ouçamos as palavras de João: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5).

 

Talvez a última praga esteja simbolicamente conectada com a anterior. Estando o Egito em trevas, Deus passaria para ceifar as vidas dos primogênitos. De ricos e pobres, livres e escravos, humanos e animais. Porém, naquela casa onde um cordeiro tivesse sido morto e seu sangue espargido nas ombreiras e na verga da porta, nessa o Senhor não tocaria (Êx 12.7). E os filhos de Israel, naquela noite de horror, recolhidos e silenciosos, comeriam a carne do cordeiro, assada, com pães asmos e ervas amargas.

 

Quando o anjo da morte chegasse a uma casa israelita, encontraria a marca de sangue, como que a dizer que ali uma morte já teria ocorrido. Ali, o cordeiro pascal já teria sido imolado. A luz acesa, por sua vez, diria que naquela casa as trevas não teriam prevalecido.

 

Contemplo, em minha imaginação, essa cena dupla: em meio a densas trevas, o anjo da morte fere o Egito, não deixando primogenitura às famílias. Porém, o sangue na porta lhe diz que ali um filho já morreu. Um filho unigênito. E a conexão estabelecida antes da fundação do mundo, então, faz-se eficaz para salvar. Tanto lá e então, quanto aqui e agora.

 

Naquela noite, houve grande clamor no Egito. E, imagino, nas regiões celestiais: chorou o faraó -- e seus súditos -- a morte de seus filhos, e chorou o Senhor -- e seus anjos -- a morte do seu.

 

O pranto do faraó não teria consolo, pois para nada se aproveitaria aquela dor; aquela morte produziria nenhuma luz. Já o pranto de Deus viria acompanhado de luz e vida, em muitos sentidos. Vida e luz eternas resplandecendo nos corações em que se encontrassem o pão partido e o sangue derramado.

 

Talvez, por isso, um sugestivo cumprimento, nessa Páscoa, a resgatar esse patrimônio simbólico, pudesse ser: “Que haja luz em tua casa”.

 

Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e também consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final. Acompanhe seu blog pessoal.

 

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