Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — História

Nunca antes neste país

Alderi Souza de Matos

 

 

Nunca antes na história nacional foram expostas tão abertamente as vísceras apodrecidas da desonestidade estatal, política e empresarial

  

Uma das características dos brasileiros é a constante preocupação em entender o seu país. Talvez em nenhum outro lugar do mundo se publiquem tantos livros que analisam e interpretam a história e a cultura nacional. Em especial, muitos se sentem desconcertados com as dificuldades que têm afligido a sociedade brasileira ao longo do tempo e se perguntam: O que houve de errado em nossa formação nacional? Por que não conseguimos superar males antigos e persistentes? Parece que estamos condenados a ocupar eternamente uma posição intermediária no cenário internacional: nem tão atrasados como muitas nações do terceiro mundo nem tão avançados como tantos países da Europa, Ásia e América do Norte.

 

Certamente, nossos males são fruto de um processo histórico e resultam das clamorosas deficiências da nossa formação ética, política e cultural. Um dos fatores mais negativos dessa triste herança é a realidade da corrupção. Entre suas causas está o individualismo tão arraigado desde o período colonial, que levou a uma progressiva erosão do interesse pela coletividade. Como afirma o jurista Calil Simão, “A corrupção social ou estatal é caracterizada pela incapacidade moral dos cidadãos de assumir compromissos voltados ao bem comum [...] os cidadãos mostram-se incapazes de fazer coisas que não lhes tragam uma gratificação pessoal”.

 

Particularmente grave é a corrupção no âmbito da administração pública, que desvia somas gigantescas dos orçamentos estatais e afeta diretamente o bem-estar dos cidadãos, principalmente os mais carentes. A esse terrível mal também se dá o pomposo nome de patrimonialismo, ou seja, a diluição dos limites entre o patrimônio público e o privado. Referindo-se aos corruptos da sua época, já dizia no século 17 o famoso padre Antônio Vieira: “Os outros ladrões roubam um homem; estes roubam cidades e reinos”. Essa distorção maléfica e perniciosa tem estado presente na vida do país desde os seus primórdios, desde a implantação do governo geral na Bahia em meados do século 16.

Diante dessa realidade aparentemente imutável, cuja tônica foi sempre a impunidade, a sociedade brasileira está atônita com a Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014, a maior investigação sobre corrupção realizada até hoje no Brasil. Nunca antes na história nacional foram expostas tão abertamente as vísceras apodrecidas da desonestidade estatal, política e empresarial. Essa operação reúne as ações coordenadas de três importantes órgãos públicos: a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal do Paraná, cuja vara criminal tem como titular o célebre juiz Sérgio Moro. Os números são impressionantes: cerca de 150 inquéritos policiais, quarenta ações penais, quase quinhentas pessoas e empresas sob investigação, 120 prisões em caráter preventivo. Os recursos desviados sobem a bilhões de reais, que poderiam estar sendo usados na saúde, na educação, na segurança pública, na infraestrutura.

 

O que os cristãos têm a ver com tudo isso? Muito a ver, pois, em primeiro lugar, eles são cidadãos e devem se interessar pelos rumos de sua sociedade. Além disso, as Escrituras têm muita coisa a dizer sobre o assunto, a começar pelo fato de que dois conjuntos de valores sempre devem andar juntos: de um lado, a justiça, a misericórdia, a solidariedade e o altruísmo; do outro lado, a verdade, a integridade, a transparência e a honestidade. A literatura sapiencial e os profetas do Antigo Testamento exaltam os governantes que não somente são solidários com os pobres, mas também agem com probidade e lisura (ver Sl 72.4, 12-14; Sl 101.1, 3, 7).

 

As investigações e os procedimentos judiciais inéditos em curso estão revelando com maior clareza e profundidade a malversação de recursos públicos existente em amplos setores da vida nacional: grandes empreiteiras pagam propinas a políticos e a funcionários graduados de estatais em troca de contratos e privilégios, sendo o dinheiro sujo utilizado tanto para aumentar os patrimônios pessoais desses indivíduos quanto para financiar partidos políticos e campanhas eleitorais. Tudo em prejuízo da boa administração, das boas práticas de gestão, da eficiência na solução dos problemas do país.

 

Adicionalmente, as realidades atuais do cenário brasileiro mostram a falácia de se tentar fazer justiça social sem uma adequada sustentação econômica e sem transparência e lisura no trato da coisa pública. Precisamos de governantes que sejam, sim, atentos aos clamores da sociedade, principalmente dos excluídos, dos marginalizados, promovendo a justa distribuição das riquezas e oferecendo os serviços necessários para uma vida digna. Porém, isso nunca pode ser feito ao mesmo tempo em que são toleradas ou estimuladas algumas das práticas mais condenáveis da história nacional.

 

Os processos judiciais resultantes da Operação Lava Jato enchem de esperança os brasileiros que aspiram por um país mais íntegro, sejam eles cristãos ou não. Porém, ainda é uma incógnita qual será o desfecho de tais procedimentos. Devemos acompanhar atentamente como irão se comportar os magistrados das instâncias superiores e verificar se as penas aplicadas irão realmente corresponder à gravidade dos delitos. Como cidadãos, precisamos pressionar os legisladores a aprovarem leis anticorrupção mais rigorosas e eficazes. Finalmente, com o nosso voto, devemos afastar da vida pública políticos e partidos que não têm demonstrado compromisso com a verdade, a integridade e a lei, que agem segundo a máxima de que os fins justificam os meios.

 

• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor deErasmo Braga”, o “Protestantismo e a Sociedade Brasileira”,A Caminhada Cristã na História” e “Fundamentos da Teologia Histórica”. Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://www.mackenzie.com.br/historia_igreja.html.

 

LEIA MAIS

Corrupção: do Éden ao jeitinho brasileiro

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.