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Colunas — Reflexão

Sobre a despersonalização da missão

Bráulia Ribeiro

 

Palavras que despersonalizam a missão nos desobrigam de ver e ser gente

 

A missionária Elizabeth Vêncio, depois de ensinar por muitos anos num instituto bíblico, resolveu usar seus dons de professora para ajudar um grupo de índios no interior do Amazonas. Trabalhou ali com os Jarawara por mais de vinte anos. Dividia seu tempo entre um fim de mundo no Amazonas e outro em Rondônia, onde, junto com uma amiga, construiu uma casinha simples de madeira.

 

Seu trabalho entre os Jarawara significou muito. Se tivéssemos capacidade de quantificar o valor da preservação de uma língua ameaçada de desaparecimento de um povo indígena saindo da idade da pedra lascada para ser capaz de conviver no mundo de hoje, graças à alfabetização e a um efetivo sistema de educação multiétnica que ela implantou, que incluía outras tribos do baixo Amazonas, nos surpreenderíamos com a riqueza que ela gerou.

 

Infelizmente, após completar 60 anos, descobriu que tinha câncer no ovário. Voltou a São Paulo para tratamento, esperando em breve retornar para seu querido buraco no coração da Amazônia. Nunca voltou. O câncer a consumiu em poucos meses deixando seus queridos Jarawara órfãos da mãe que lhes deu condição de enfrentar o futuro preservando o passado. Doeu-me a morte da companheira. Porém, aprendi outra coisa, ainda mais dolorosa, depois que ela caiu doente. Aprendi que não podemos contar com a igreja. Bete foi fiel a sua igreja mãe e denominação por toda a vida. Entretanto, quando adoeceu, recebeu uma nota da igreja mais ou menos assim:

 

“Missionária, não podemos mais lhe enviar seu sustento mensal. O dinheiro da igreja só pode ser aplicado na obra e, como você não está mais no campo, temos de dirigi-lo a outro missionário que seja produtivo no reino”. Bete só não terminou seus dias na mais profunda indigência graças à intervenção da família e de amigos próximos.

 

Sempre me incomodaram as expressões “obra, reino, campo, tarefa missionária, grande comissão”. São expressões executivas, administrativas, com cara de escritório e de papéis impressos, e que no meu coração romântico e apaixonado não expressavam a natureza de nosso chamado.

 

Guerra contra palavras pode parecer inútil para alguns, mas palavras são as ferramentas da cultura. É com elas que construímos nossas obrigações morais e emoções que nos movem a ações.

 

Se a nossa definição de serviço do evangelho for despersonalizada, uma sopa de letrinhas com um caldo de números, vamos construir instituições cruéis, impessoais, capazes de abandonar alguém como Bete no momento em que ela mais precisar.

 

Palavras que despersonalizam a missão nos desobrigam de ver e ser gente. Segundo essa perspectiva, missionários não são pessoas, são peças numa grande engenharia estatística. O “campo” que alcançamos também não é constituído de gente que somos chamados a amar, mas são uma mera variável na equação do sucesso da missão. A favor deste “x” despersonalizado somos capazes de abandonar famílias inteiras à sua própria sorte em terras estrangeiras, para maximizar o orçamento da “obra”.

 

Para ajudar missões, abandonamos missionários idosos depois de trinta, quarenta anos de serviço, já que eles não produzem mais para o “reino”. Economizamos no plano de saúde, ou ignoramos totalmente o fato de que missionário também é gente que tem dentes com cáries, sofrem acidentes e contraem doenças. Muitas igrejas preferem pagar caixões para repatriar corpos do que um plano de saúde decente. O que dizer de financiar cursos, ajudar seus filhos a irem para a faculdade, ou enviar algum dinheiro extra no Natal? Não, nada disto combina com a equação numérica que trata a grande comissão como uma tarefa despersonalizada.

 

Que tal redefinirmos a obra? Que tal se começarmos a dizer com orgulho: “A minha igreja financia pessoas que se dedicam a amar e a servir outras pessoas longe daqui. Estão lá porque Jesus ama também estas pessoas distantes que não pertencem a nossa igreja e denominação. E nós nos orgulhamos destes servos e lhes oferecemos um sustento digno, porque a sua missão é também a nossa”?

 

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família, e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?. Acompanhe seu blog pessoal.

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