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Colunas — Ética

Refugiados muçulmanos e respostas cristãs

O mundo não viu tantos refugiados e deslocados internos desde os primeiros anos do pós-guerra. Qual é a resposta cristã?

 

Eles não param de chegar, inclusive (em escala muito pequena) no Brasil. O mundo não viu tantos refugiados e deslocados internos desde os primeiros anos do pós-guerra. A ONU os estima em cerca de 60 milhões, ou uma em cada 122 pessoas no mundo. A guerra civil da Síria responde por boa parte do aumento recente: mais de 12 milhões de pessoas, quase metade da população, teve de fugir dos seus lares, a maior catástrofe humanitária do nosso tempo. Destes 12 milhões, mais de 4 milhões saíram da Síria, tornando-se refugiados em outros países.

 

O problema

 

Por que o aumento de refugiados sírios agora? Em parte, pelos efeitos acumulados de quatro anos de guerra, pela destruição da economia e pela percepção crescente de que a paz ainda está distante. E em parte porque a luta tem se intensificado, a ameaça do Estado Islâmico tem aumentado e o perigo de ser alistado ou perseguido pelo regime de Assad tem crescido.

 

Mas por que tantos sírios procuram a Europa? Não haveria muito de oportunismo nisso (aproveitar a “desculpa” de uma guerra para migrar para o Primeiro Mundo, em vez de ficar em outro país da região)? Oportunistas não esperariam quatro anos. E a realidade é que a imensa maioria de refugiados sírios está nos países vizinhos – Jordânia, Líbano e Turquia. Um dos campos de refugiados na Jordânia já inchou tanto que virou a quarta maior cidade daquele país! Em comparação, os pouco mais de 200 mil sírios que chegaram na Europa em 2015 representam apenas 5% do total de sírios que fugiram do seu país. É evidente que a tranquilidade e as oportunidades econômicas da Europa exercem uma atração, mas há também fatores de repulsão. A maior parte dos refugiados nos três países mencionados vive em péssimas condições, sem muitas opções de trabalho. Mas não podemos criticar muito esses países: os refugiados constituem um quarto da população do Líbano! E a ONU, por falta de verbas, diminuiu a ajuda alimentar que vinha fornecendo aos deslocados dentro da Síria e suspendeu a ajuda aos refugiados no Líbano e na Jordânia. São esses fatores de repulsão, mais do que algum sonho dourado da Europa, que levam alguns (inclusive mulheres grávidas, velhos e crianças) a colocarem suas vidas em perigo nas águas do Mediterrâneo e nas trilhas dos Bálcãs.

 

E a reação europeia? É complicada pelo fato de que a crise síria se mesclou com uma crise no sistema europeu de governança de suas fronteiras e com a diversidade de políticas nacionais. Acrescentam-se a isso as falhas no sistema internacional resultante da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, de 1951 (fruto da grande onda de refugiados do pós-guerra): todos os países da União Europeia (UE) são signatários, o que os obriga a acolher refugiados genuínos que atravessam as suas fronteiras, mas não a ajudar aqueles que não conseguem chegar! Em consequência, o orçamento da UE para apoio a refugiados em 2014 foi várias vezes menor do que o orçamento para policiamento de fronteiras. Mas isso, longe de desestimular os refugiados, apenas resulta em mais mortes na tentativa de chegar: navios afundados no Mediterrâneo, um caminhão abandonado na Áustria com 71 refugiados asfixiados, corpos de crianças (não só o Aylan) estirados pelas praias da Grécia e da Turquia.

 

As reações cristãs

 

Os cristãos da Europa (e os cristãos não europeus, como os brasileiros, que acompanham a situação) têm reagido de várias formas. Subjacente a essa diversidade de reações está não somente o inusitado dos acontecimentos, mas também compreensões teológicas diferentes da fé cristã. O leque de reações abrange: excluir todos os refugiados porque constituem uma ameaça à “Europa cristã” e alguns podem ser terroristas; aceitar somente (ou preferencialmente) os refugiados cristãos; aceitar a todos porque mesmo os muçulmanos devem estar dispostos a se converterem; ou aceitar a todos, independentemente de credo e disposição, porque é responsabilidade perante a lei internacional e dever como cristãos.

 

Algumas igrejas e ONGs cristãs têm assumido um papel importante em socorrer os refugiados e em advogar pelo bom tratamento deles. O papa condenou a “globalização da indiferença” quando visitou a ilha italiana de Lampedusa, ponto de entrada para muitos. O arcebispo ortodoxo de Atenas convocou os seus compatriotas a receberem todos os recém-chegados com generosidade. Várias igrejas alemãs oferecem asilo a todos, deixando-os se hospedarem em propriedades eclesiásticas. Na Sérvia, um pastor reformado recebe os refugiados todo dia com comida e roupas.

 

As igrejas europeias têm se pronunciado especialmente sobre a perseguição às comunidades cristãs da Síria, e algumas ONGs cristãs se especializam em apoiar os refugiados cristãos. Outras, porém, fazem questão de dizer que seu apoio é para todos.

 

Na outra ponta do espectro, há alguns políticos da direita nacionalista dos antigos países do bloco comunista. Parece que o isolamento e estreitamento intelectual que o comunismo impôs ainda transparece nas suas atitudes, agora num registro nativista. Os primeiros-ministros da Hungria e da Eslováquia veem os refugiados como séria ameaça à cultura cristã da Europa e aceitam receber, quando muito, apenas alguns poucos refugiados cristãos. Mas parece que o temor de que os refugiados não sejam “assimiláveis” e, ainda pior, que vão exigir a implementação da lei islâmica e ameaçar as liberdades democráticas do continente ultrapassa o antigo bloco soviético. E, no topo da hierarquia de temores, está o receio de que, no meio dos refugiados, esteja um certo número de radicais já dispostos a atentarem contra alvos europeus no futuro.

 

A identidade cristã

 

O que dizer de tudo isso? Deixando de lado as manipulações oportunistas da fé cristã por políticos populistas, existem temores genuínos ligados à perda de identidade cultural e religiosa. Os riscos de fato existem. Mas, muitas vezes, fazer a coisa certa envolve riscos e deixar de fazer a coisa certa não nos garante proteção contra esses mesmos riscos ou outros igualmente temíveis. Existe, de fato, a possibilidade de perder (ou diluir) uma identidade cultural por meio da entrada maciça de pessoas de uma cultura muito diferente. Mas confundir isso com a “identidade cristã” é problemático. Será que, ao excluir os refugiados muçulmanos para salvaguardar a “identidade cristã”, os países do leste europeu não estão perdendo justamente a verdadeira identidade cristã ao deixarem de agir como cristãos? Há várias maneiras de perder a identidade cristã! Como alguém perguntou certa vez, para que serve o sal se perdeu a capacidade de salgar?

 

Além do mais, a suposta ameaça à fé cristã pressupõe um cristianismo absurdamente frágil. Afinal, a quase totalidade dos países de maioria muçulmana teve a experiência de estar subjugada às potências coloniais europeias e cristãs. Mesmo assim, esses países não perderam a sua identidade muçulmana. Por que, então, os refugiados muçulmanos seriam capazes de ameaçar o cristianismo?

 

Há ainda outra dimensão. A vasta maioria dos refugiados está em países de maioria muçulmana, representando às vezes um acréscimo imenso às suas populações. Não deveríamos esperar mais dos países que se consideram cristãos? E, se acharmos que esses países muçulmanos têm um dever maior de aceitar os refugiados porque são da mesma religião, será que não nos assemelhamos ao doutor da lei cuja pergunta provocou, em resposta, a parábola do bom samaritano? Os seguidores de Jesus não jogam num time chamado “cristão”; jogam no time chamado “humanidade”.

 

Com certeza, cristãos brasileiros que vivem ou já viveram como imigrantes em outros países não vão querer pregar a não aceitação de refugiados. Pois vão entender que ser da mesma religião não garante aceitação por parte de uma população nativa hostil. Na Eslováquia, uma ordem católica ofereceu seu mosteiro para abrigar famílias cristãs da Síria. Assim que os habitantes da cidadezinha souberam, fizeram um abaixo-assinado em protesto e o plano foi abandonado. Um repórter perguntou a uma senhora da cidade por que ela era contra o plano, já que os beneficiados seriam cristãos. A senhora respondeu: “Eles são diferentes de nós”.

 

A ética bíblica

 

As seguintes palavras estão gravadas na Estátua da Liberdade: “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, as suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade, o miserável refugo das suas costas apinhadas. Mandai-me os sem-abrigo, os arremessados pelas tempestades”.

 

A autora desse famoso poema, Emma Lazarus, era judia americana. Talvez por isso captou o cerne ético das escrituras hebraicas, pois os hebreus também tinham sido refugiados, e seu Deus, na lei e nos profetas, constantemente os lembrava disso. A páscoa judaica é a comemoração da fuga de um bando de refugiados. E a única vez em que Deus se encarnou na terra viveu um tempo de sua vida como refugiado (desta vez, não do, mas no Egito!).

 

A lei, os profetas, a história de Jesus, a parábola do bom samaritano, enfim, todo o impulso ético bíblico que ensinou o mundo a priorizar a compaixão universal e a justiça não discriminatória é desconsiderado por algumas reações de cristãos europeus e mesmo brasileiros, diante do que consideram uma “onda” de refugiados muçulmanos. Algumas reações chegam a insultar um quinto da humanidade pelo mero fato de serem, nominalmente pelo menos, “muçulmanos”. Discriminam entre vítimas de guerra conforme a sua identidade religiosa.

 

Como recomendações para a igreja, tais opiniões são totalmente anticristãs na sua dimensão discriminatória e não combinam com o evangelho. E, ao recomendarem uma política de Estado baseada na discriminação religiosa e na atribuição maciça de características (“extremista”, “terrorista”) sem evidência de culpa individual, geram mais riscos do que soluções.

 

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

 

• Raphael Freston é mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo e é membro da diretoria nacional da ABUB.

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