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Seções — Arte e Cultura

A autobiografia de um escravo que viveu no Brasil

Somos uma narrativa. Somos uma história que contamos e que outros contam a respeito de nós mesmos. Por meio da palavra falada, escrita ou mesmo imaginada, construímos cenários e nos colocamos neles junto com outros personagens para vivenciar cenas de alegria e tristeza, aventura e espera, conflito e reconciliação. Somos narradores, heróis, vilões e ouvintes de nossa própria aventura: viver.

 

A autobiografia de Mahommah Gardo Baquaqua é a única narrativa de um escravo que viveu no Brasil. Nela, Baquaqua relata sua trajetória de vida, desde sua origem na África Central (Zooggoo), formação islâmica, captura, a travessia pelo Atlântico em 1845, os dois anos em Olinda como escravo de um padeiro, seus problemas com o álcool, sua venda para um mercador do Rio de Janeiro, seu trabalho como marinheiro num navio mercante, a ida para Nova York, a fuga, o reenvio para o Haiti, onde se converte ao cristianismo por influência de um missionário norte-americano. Depois disso, Baquaqua volta para os Estados Unidos, onde começa seus estudos e preparação teológica para realizar seu sonho: voltar à África como missionário.

 

Em seu relato, Baquaqua pinta um quadro vívido da diversidade cultural, política, social dos povos africanos. A beleza da geografia, a riqueza da terra, os vários costumes, línguas e crenças, a beleza da arte que o povo de lá produz. Quanto aos costumes, por exemplo, ressalta o respeito aos mais velhos, a amabilidade entre as pessoas, o valor sagrado da hospitalidade. Ao descrever sua origem, Baquaqua não esconde sua altivez e honra, nem o amor pelo seu povo e pela liberdade.

 

Um dos momentos mais dramáticos da narrativa é o relato da travessia do oceano Atlântico dentro de um navio negreiro. Ele assim o descreve: “Seus horrores, ah! quem pode descrever? […] Oh! amigos da humanidade, tenham piedade do pobre africano, enlaçado e vendido como escravo, longe dos seus amigos e do lar, dentro de um navio negreiro, à espera de horrores e misérias até maiores numa terra distante”. E Baquaqua continua: “Fomos arremessados para dentro do navio em completa nudez, homens apinhados de um lado e mulheres do outro. O porão era tão baixo que nem conseguíamos ficar de pé, tínhamos de agachar no assoalho e permanecer sentados, e nos desesperávamos de tanto sofrimento e fadiga”.

 

E ele arremata: “Oh! A repugnância e a imundície daquele lugar terrível jamais se apagarão da minha memória; não, enquanto a memória se mantiver neste cérebro distraído, eu me lembrarei daquilo. Meu coração, até hoje, se entristece ao pensar nisso”.

 

O fio condutor da narrativa de Baquaqua é sua experiência de conversão ao cristianismo, que se dá durante seu período de liberdade no Haiti e o desejo de se preparar para a obra missionária na África. Infelizmente, logo depois da publicação da sua autobiografia (1854), desapareceram os vestígios da sua trajetória. Não sabemos se a viagem missionária para a África realmente se deu ou se por alguma razão ele abandonou o projeto missionário.

 

O texto de Baquaqua tem a colaboração do abolicionista norte-americano Samuel Moore. A versão completa em português da biografia de Baquaqua será lançada ainda este ano pela editora Civilização Brasileira, com tradução de Bruno Véras.

 

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal:

ultimato.com.br/sites/gladircabral



Leia, veja e ouça na internet
Leia um poema de Mahommah Gardo Baquaqua, escrito em 1854
Veja o documentário “Baquaca Comum & Extraordinário”
Ouça “Casa Grande”, de Gladir Cabral

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