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Colunas — Redescobrindo a Palavra de Deus

“Tomou as crianças nos braços... e as abençoou”

Valdir Steuernagel

 

Certo dia, aconteceu-me algo sintomático. Estávamos nos entretendo na sala com os três netos mais velhos, o que nunca é monótono quando eles estabelecem a agenda. A vovó Eda levantou-se e disse à Alice, de 4 anos, que fosse para o colo do vovô Di. Eu a puxei para perto de mim, mas isso só durou um instante, pois logo ela, sem a menor cerimônia, migrou para o colo do tio -- um colo acolhedor que ela conhece bem melhor, pois ele brinca com ela mais do que eu. É claro que eu queria que a Alice ficasse no “meu” colo, mas sei perfeitamente por que ela escolheu “o outro colo”, e com razão.

 

A narrativa em que Jesus abre espaço para as crianças, toma-as nos braços e as abençoa sempre surpreende. Parece que, para os pequenos, aproximar-se de Jesus era muito natural, pois sabiam que lá encontrariam um colo acolhedor. Porém, mais surpreendente é ver Jesus cercado de crianças e encarar os adultos dizendo que essas crianças são um sinal do reino de Deus e que, se nós, adultos, não nos tornarmos como elas, não teremos parte nesse reino. Hein? Sério? Então a questão não é apenas a Alice buscando o colo mais acolhedor do tio, mas as crianças, estas crianças anônimas, sendo acolhidas no colo de Jesus, enquanto os discípulos são confrontados com um desafio que se rumina sem nunca chegar ao fim. Nem ontem, nem hoje, como ainda é o meu caso.

 

 

 

 

Esta conhecida palavra de Jesus nunca deixa de ser um mistério e um enigma: “Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: ‘Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele’. Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou” (Mc 10.13-16).

 

 

 

 

Vamos olhar um pouco mais para este encontro entre a criança e Cristo? Um encontro fascinante que parece ser tão fácil que só a criança o vislumbra. A criança de ontem e a de hoje.

 

Nosso netinho Davi sofria de intolerância à lactose, o que sempre dificultava as coisas na hora da refeição e em especial nos aniversários de criança. Porém, um dia ele se declarou curado, e o fez com a simples explicação de que havia orado a Jesus e este o havia curado. E pronto! Simples assim.

 

É claro que eu sou tentado a dizer que a coisa não é tão simples assim e que há muitos fatores a considerar num quadro clínico como o dele. Para ele, no entanto, era “simples assim” e é isso que eu devo aprender. O fato é que eu não apenas reluto a aprender com o Davi, como também penso que ele é quem deve aprender de mim, com as minhas inúmeras divagações a afirmar que “a coisa não é bem assim”. Dessa forma eu mostro não apenas a minha incredulidade, mas também a consequente desconstrução da disponibilidade simples e natural dele para andar com Jesus. É que nós, adultos, achamos que sabemos tudo o que a criança precisa; e com a nossa presunção acabamos atrapalhando a relação delas com Jesus, bem como os discípulos fizeram. Assim as impedimos de receber a bênção vital que Jesus está pronto a dar a elas e a nós.

 

Faz anos que eu acompanho a Visão Mundial, que atende milhões de crianças no mundo todo; e tenho feito parte dessa tendência de achar que nós sabemos do que as crianças precisam e que elas só têm que se colocar em nossas mãos. Até provemos espaço para que possam descobrir e alimentar a espiritualidade, mas os adultos é que decidem tudo. Por vezes, atuamos com a “certeza” de que nós sabemos do que as crianças precisam e as enquadramos em nossa pedagogia de cima para baixo.

 

Pensando em algo mais caseiro, eu poderia referir-me à Comunidade do Redentor, onde ministro atualmente e onde nutrimos um projeto de trabalho com crianças numa área pobre da cidade. Este projeto, chamado Dorcas, é infinitamente menor que a Visão Mundial e é executado com menos sofisticação e capacidade profissional. Mas a tentação é a mesma: nós, membros de uma igreja de classe média, “sabemos” o que as crianças de periferia precisam... e lá vamos nós!

 

Há, de modo inegável, muita coisa que nós, adultos experientes, podemos fazer. Entretanto, o que nós pensamos saber e acabamos por fazer nunca deve impedir as crianças de se encontrarem com Jesus e dele receberem o colo e a bênção. Elas sabem que ele as espera e as recebe muito bem. Nesse aspecto, precisamos aprender com elas, pois carecemos do mesmo acolhimento.

 

 

O evangelista Mateus aprofunda ainda mais este desafio e mistério e mostra Jesus dizendo sem papas na língua: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no reino dos céus” (Mt 18.3-4).

 

 

 

 

 

Assim como as crianças, nós precisamos nos encontrar com Jesus. Elas nos ensinam o caminho. Porém, para podermos percorrê-lo, precisamos nos converter; e essa conversão que “nos torna como crianças” só é possível por meio da humildade. Uma humildade que não apenas reconhece que não sabe o que a criança precisa, mas também se dispõe a seguir atrás dela nessa busca faceira rumo ao colo de Jesus e sua bênção. A bênção que nos leva a vislumbrar a realidade do mistério do reino de Deus.

 

 

• Valdir Steuernagel é pastor na Comunidade do Redentor, em Curitiba, PR. Faz parte da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, da Aliança Cristã Evangélica Mundial e da Visão Mundial.

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