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Especiais — Entrevista

“Vi muito sofrimento em Angola”

Antonia Leonora van der Meer

Há cinquenta anos havia uma branquela de 17 anos na Cooperativa Central de Laticínios do Paraná, em Carambeí, município de Castro, no Paraná. Ela era auxiliar de escritório e filha do diretor da empresa. Na época, ninguém imaginava que aquela mocinha de aparência estrangeira seria uma defensora da dignidade daquele que cumpre o “ide e fazei discípulos” de Jesus. O missionário não é nem maluco, nem mártir, nem mendigo, mas “um ser humano seriamente comprometido com o reino de Deus, disposto a abrir mão de muitos confortos, segurança e relacionamentos para obedecer ao seu chamado de amar e servir um povo diferente” (Ultimato, março/abril de 2001). Antonia Leonora van der Meer, ou simplesmente Tonica, 68, é exemplo de uma vocação enxuta nascida não só no coração nem só na mente, mas no coração e na mente, com a alma nas nuvens e os pés no chão. Ela tem dado uma contribuição enorme na área de missões, não só por ser uma missionária e professora de missões bem-sucedida, mas também por ser uma “intercessora global” e por seus muitos artigos em revistas no Brasil e no exterior e por seus livros, entre os quais “Ética Bíblica no Contexto Africano” (1995), Eu, Um Missionário? (2006) e Missionários Feridos – como cuidar dos que servem (2009).

Você fala e escreve fluentemente português, espanhol, inglês e holandês e quase fluentemente francês e alemão, além de conhecer as línguas originais da Bíblia e o latim. Sua facilidade em aprender línguas é um dom natural ou o resultado de muito esforço?
Tonica: É uma mistura. Quando tinha 4 anos, falei para a minha mãe que queria ser uma professora muito sábia e aprender línguas... Crescer falando duas línguas deve ter ajudado, mas também foi fruto de um esforço disciplinado.

Aos 26 anos você já trabalhava na embaixada da Holanda em Brasília. Três anos depois, em 1975, você começou a se envolver com ministérios evangélicos, como o Instituto Linguístico de Verão e a Aliança Bíblica Universitária (ABU). Foi nessa ocasião que você percebeu que Deus a chamava para ser missionária?
Eu já fui a Brasília trabalhar na embaixada por sentir que Deus me chamava para ajudar a começar o trabalho da ABU no Planalto Central. Então o chamado começou antes, como fazedora de tendas, trabalhando na embaixada, servindo a ABU, dando testemunho de minha fé ali e trabalhando com crianças da vizinhança.

Você passou mais tempo preparando missionários transculturais no Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa (dezessete anos), do que em Angola (onze anos). Como os dois períodos se relacionam com sua vivência missionária? Quais os desafios de cada um deles?
Angola foi fruto de um processo de conscientização de chamado transcultural, foi uma direção clara de Deus e foi uma experiência rica de aprendizado, de poder conhecer e apreciar a cultura do país. Também foi um confronto com muito sofrimento, e me envolvi com o cuidado das vítimas de guerra nos hospitais. O trabalho com estudantes foi um novo desafio por ser um contexto totalmente diferente. Enquanto servia em Angola percebi que havia muito sofrimento entre os missionários devido ao ambiente, porém, mais ainda, devido à falta de um preparo adequado para esse ministério transcultural e de um apoio pastoral sensível e sábio. Em dez anos só recebemos uma única visita pastoral que nos abençoou: a de Elben Lenz César.

Assim, quando voltei ao Brasil, eu tinha dois objetivos: ajudar a preparar missionários brasileiros e ajudar no cuidado dos missionários. O CEM abriu as portas para ambos os ministérios. Não me tornei menos missionária, mas me envolvi com missões de forma mais abrangente por meio da capacitação de nossos alunos. Identifiquei-me com a filosofia e a maneira de trabalhar do CEM, com a visão de preparar fazedores de tendas e o compromisso com a missão integral. Servi com alegria e minha maior satisfação hoje são as boas notícias do ministério de nossos ex-alunos.

Quais experiências mais desagradáveis você teve em Angola durante a guerra civil, a qual abalou o país?
Ver o sofrimento das vítimas de guerra foi horrível e muito desagradável. Vi e ouvi muitas histórias trágicas de crianças, jovens, mulheres, ex-combatentes.

O reinício da guerra foi traumático e ainda mais violento após um ano de paz, no final de outubro de 1992. Havia muitas bombas, o apartamento onde vivia foi alvejado com tiros de 15 centímetros de diâmetro que atravessaram três paredes de tijolos. Mas o pior foi ver pessoas alvejadas caírem nas ruas sem ninguém poder socorrer, e no quinto dia o caminhão que recolhia os corpos para serem despejados em túmulos de massa incluía mortos e vivos na carga. Outras experiências desagradáveis eram as viagens às províncias, importantes para o ministério, mas quase impossíveis de alcançar. Havia poucos voos, muita gente precisando viajar, corrupção no “check-in”, assim quem pagava bem conseguia partir. Normalmente esperava-se de quatro a cinco dias num aeroporto (tipo galpão), sem banheiro, sem água para beber etc. para conseguir um voo. Pela falta de comunicação, muitas vezes não se podia avisar a chegada, então outra luta era sair do aeroporto para o lugar onde eu devia me hospedar (não havia ônibus nem táxi).

A missão integral tem algo a ver com a Teologia da Libertação?

Tem algo a ver porque ambas nasceram em resposta a uma grande preocupação pela injustiça e pelo sofrimento dos pobres na América Latina. A Teologia da Libertação tem seu viés teológico mais comprometido com os valores marxistas. A missão integral é evangélica e também tem um compromisso com a busca de justiça e valorização dos pobres na América Latina e em todo o mundo, além de um compromisso da igreja com o bem-estar e renovação da esperança e dignidade dos pobres, baseado num estudo sério das Escrituras.

De 1980 a 1982 você trabalhou como faxineira da Commonwealth House e como balconista da Coffee Shop da Igreja St Aldates, em Oxford, na Inglaterra. Por quê?
Eu fui estudar no All Nations Christian College, porque ainda não havia oportunidades para treinamento missionário transcultural no Brasil. Não consegui bolsa, e foi essa igreja que prometeu me ajudar, oferecendo moradia e esses dois empregos nos meses em que não tinha aulas. Foi um bom aprendizado, servi com humildade, vendo que estava fazendo isso para o Senhor e não simplesmente para sobreviver.

Com tantas escolas oferecendo doutorado em missiologia nos Estados Unidos, por que escolheu a Asia Graduate School of Theology em Manila, nas Filipinas?
Fiz uma pesquisa de várias escolas americanas. Havia cursos excelentes, mas muito caros. Meu coração missionário não permitiu buscar apoio tão caro para obter mais um título. Pensei: “Que invistam esse dinheiro em mandar dez missionários ao campo”. Então soube do curso nas Filipinas, que me interessou por vários motivos:

O preço era 3% do que seria nos Estados Unidos e ali havia milhares fazendo suas teses, que já não exerciam muita influência. Nas Filipinas, um país pobre, mas com coração missionário, eu poderia aprender com os filipinos e compartilhar a perspectiva brasileira. Os missionários daquele país são centenas de milhares de empregados que servem e dão testemunho nos países mais fechados. Eu poderia continuar servindo no CEM e fazer uma viagem anual às Filipinas. Foi uma luta, exigiu muita disciplina, mas valeu a pena. Aprendi muito.

Você não se casou pela falta de oportunidade ou porque optou pelo celibato?
Eu optei pela prioridade ao chamado e pedi a Deus que não permitisse que um homem me afastasse desse caminho. Não foi sempre um caminho fácil, sou uma pessoa normal, tive meus envolvimentos e minhas lutas, mas acabei entendendo que não era o melhor de Deus para mim, e eu podia ser feliz e realizada como pessoa e mulher, servindo solteira.

Você é uma das editoras do livro Sorrow and Blood, publicado pela Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial, e coordenadora da versão brasileira (Sangue, Sofrimento e Fé), dois anos depois. Essa sua preocupação com a igreja que sofre foi motivada por qual fator?
Tudo isso tem a ver com minha experiência em Angola, que foi abrindo minha mente e meu coração para o sofrimento da igreja em outros países. Comecei a orar e a participar de grupos de oração, a receber mais informação e assim meu compromisso foi crescendo, e fui convidada a produzir artigos e a participar desses livros e de outros, como as notas sobre Jó na Bíblia Missionária de Estudo.

Leia mais:
Missionário: maluco, mártir, mendigo ou o quê?

 

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