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Especiais — Reportagem

O Mineiro com Cara de Matuto no acampamento de ciganos de Itapevi

Os últimos (os ciganos) serão os primeiros

 

A cigana Mary Welch, de 29 anos, deu à luz um ciganinho no dia 31 de março de 1860, numa tenda armada em Epping Forest, a menos de dez quilômetros de Londres. Era o seu quarto filho. O garoto recebeu o nome de Rodney Smith e não demorou muito a ficar órfão de mãe. A família se mantinha vendendo cestas e prendedores de roupa. De vez em quando, o pai, Cornelius, passava alguns dias na prisão por cometer algum delito. Numa dessas ocasiões, ele ouviu o evangelho por meio do capelão do presídio e se converteu de fato. O mesmo foi acontecendo com os seus familiares. O próprio Rodney já era um crente aos 16 anos. O que o levou à fé foi o testemunho do pai, as campanhas evangelísticas do cantor americano Ira Sankey (1840--1908) e uma visita que ele fez à casa de John Bunyan (autor de “O Peregrino”), morto em 1688. Rodney aprendeu sozinho a ler e a escrever. Um ano depois, começou a trabalhar como evangelista em Londres com o Exército de Salvação, sob a liderança do próprio William Booth (1829--1912), fundador da organização. Aos 19 anos casou-se com Annie Pennock, uma das pessoas convertidas por meio do seu trabalho.

 

Em resumo, Rodney é o famoso Gipsy Smith (o cigano Smith), o mais notável pregador do evangelho de etnia cigana. Um dos seus filhos, conhecido como Gipsy Smith Jr., seguiu as pegadas do pai e tornou-se um bem-sucedido evangelista nos Estados Unidos por longos quarenta anos. Rodney, que era também cantor, morreu em 1947, aos 87 anos.

 

Além de Gipsy Smith, sabe-se de outros pastores de origem cigana. Um deles seria o já citado John Bunyan. Outro é Ludvig Valentin Karlsen, que passou a infância em acampamentos ciganos na Noruega, onde nasceu em 1935. Seu ministério alcançou o povo cigano e o público em geral. Entre 1975 e 1983, quase quinhentos ciganos se converteram. Ele trabalhou com pobres e marginalizados e fundou em 1983 o Centro Norueguês Evangélico, uma instituição para a reabilitação de dependentes químicos, pela qual já passaram mais de 25 mil pessoas. Além de tudo, esse líder pentecostal editou um dicionário da língua romani, um dos dialetos ciganos. Esse pastor pentecostal morreu em 2004 aos 69 anos. O escritor Matéo Maximoff, cigano de origem russa que migrou para a França, escrevia tanto em francês como em romani, tornou-se pastor evangélico e completou a tradução do Novo Testamento para o romani. Ele é conhecido por ter trabalhado em favor da escolarização dos ciganos.

 

Como se pode ver, as missões cristãs precisam se lembrar dos ciganos e incluí-los em sua agenda missionária. Outros John Bunyan, Gipsy Smith e Ludvig Karlsen podem surgir aqui no Brasil, como Irã Miranda, 31, com o qual o Mineiro com Cara de Matuto se encontrou em Itapevi. Depois de pegar o violão e cantar algumas canções religiosas compostas por ele mesmo, Irã revelou: “Há dois anos eu estaria na bebedeira, pois conhecia Deus só por conhecer; hoje conheço o Deus da Palavra”.

 

A Santa Sara dos ciganos

A prefeitura de Itapevi, uma cidade a trinta quilômetros de São Paulo, cedeu um quarteirão inteiro para os ciganos. São cerca de doze famílias, todas com o mesmo sobrenome Miranda.

 

Exceto uma família, todos moram, de acordo com a tradição, em casas onde não há a menor divisão entre os cômodos (cozinha, copa, sala e quartos). Apenas o banheiro é separado. A maior parte das residências é uma mistura de casa (de alvenaria) com barraca (de lona), totalmente abertas para fora.

 

Enquanto os ciganos não usavam aquelas calças e camisas longas nem o costumeiro colete, as ciganas vestiam suas saias longas que iam dos ombros aos pés, folgadas, muito coloridas e esvoaçantes.

 

O Mineiro com Cara de Matuto passou o penúltimo domingo de março no Acampamento Cigano de Itapevi. Hospedou-se na casa do cigano Paulo Miranda, de 27 anos, casado e pai de uma menininha. É a única família que mora numa casa de alvenaria e que tem aposentos para dois quartos. Ali ele conheceu os ciganos Valdir Almeida e Rafael Praiano, que vieram para se encontrar com ele de Santa Fé do Sul, no interior do Estado, e o não cigano Jessé Almeida, que veio de Niterói, RJ, além de vários outros ciganos residentes no local.

 

Foi um domingo agradável, de muitos contatos, muitas conversas, muito feijão, arroz e carne, e muito culto. O templo, recém-inaugurado, fica ao lado da casa de Paulo. O culto durou mais de duas horas. Houve cânticos (com o acompanhamento de dois violões e bateria), entrega de ofertas e dízimos, orações pelos doentes, sermão e duas ou três outras palavras. Quase todos os ciganos tinham dentes de ouro (o costume surgiu como forma de guardar as riquezas e evitar que elas se perdessem em caso de mudança de um lugar para outro).

 

Até dois ou três anos atrás, o quarteirão dos ciganos de Itapevi comemorava a festa de Santa Sara, a padroeira do povo cigano, das mulheres que querem engravidar e ter um bom parto, dos exilados e dos desesperados, principalmente entre os ciganos franceses. A celebração esfriou porque Sônia, bem como seu marido, Ernesto Miranda, mais conhecido como Geneci, se converteram ao evangelho. Era Sônia quem comandava as festas daquela santa sempre nos dias 23 e 24 de maio. De acordo com a tradição religiosa, Sara era a servente de uma das três Marias que acompanharam Jesus Cristo da Galileia até Jerusalém, da cruz até o túmulo novo de José de Arimateia. A mesma tradição diz que Sara, as Marias, Lázaro e suas duas irmãs e um tal de Maximino fugiram da perseguição que ocorreu em Jerusalém num barco sem remos e sem velas, lá pelo ano 48 depois de Cristo, e foram parar no sul da França, numa cidade hoje chamada de Saintes-Maries-de-la-Mer (Santas Marias do Mar). Sua relação com as mulheres que desejam engravidar e ter um bom parto deve-se ao fato de ela ter cuidado de Maria quando ela deu à luz a Jesus em Belém da Judeia. Sara tornou-se Santa Sara há pouco mais de trezentos anos, quando foi canonizada (1712).

 

Não é de estranhar que no Brasil o Dia Nacional do Cigano seja comemorado no dia 24 de maio, desde 2007.

 

O anticiganismo

O que há de comum entre o patriarca Abraão e o povo cigano? É o nomadismo de ambos. Depois de deixar Ur, na Babilônia, e Harã, na Mesopotâmia, Abraão, com a esposa e o sobrinho, foi parar em Siquém e, depois, em Betel, onde armou acampamento. A partir daí, “ele foi andando de um lugar para o outro, sempre na direção sul da terra de Canaã” (Gn 12.9). “Uma das características sempre atribuídas aos ciganos” -- diz o professor Frans Moonen, um holandês naturalizado brasileiro -- “tem sido o seu nomadismo, sua vida errante”. Mas generalizar, como se fazia na Inglaterra, que os ciganos são “pessoas com um modo de vida nômade, qualquer que seja sua raça ou origem, incluindo artistas viajantes ou pessoas que trabalham em circos viajantes”, não corresponde à verdade. Apenas uma minoria cigana é nômade hoje -- conclui Moonen.

 

O Mineiro ficou surpreso quando o cigano calon Geneci, líder dos ciganos de Itapevi, mencionou a sua vida nômade de algumas décadas atrás, passando uma semana ou pouco mais em cidades mineiras, inclusive em Ubá, onde nasceu um de seus filhos e a primeira filha do Mineiro. Naquele tempo, os ciganos não viajavam de carro nem caminhão, mas se serviam de centenas de burros, que os carregavam e transportavam seus pertences e suas barracas.

 

Por terem sido mais nômades antes do que agora, a maioria esmagadora dos ciganos não sabe ler nem escrever. Outra razão é que o acesso à escola era dificultado pelo preconceito contra o cigano, mais acentuado no passado do que no presente. Naquele tempo, as mães temiam que os ciganos furtassem seus filhos e os fazendeiros temiam que eles furtassem seus cavalos. Durante muito tempo, cigano foi sinônimo de ladrão.

Essa pecaminosa e vergonhosa discriminação contra os ciganos vem de longe. [veja “A discriminação contra os ciganos vem de longe” no final deste texto]

 

O mais grave, porém, é que o preconceito contra os ciganos atinge também a igreja cristã, tanto ontem como hoje, tanto no mundo como no Brasil. A pequena igreja cigana de Itapevi existe porque a denominação pentecostal onde Geneci e família aceitaram o evangelho exigiu que eles se identificassem com os crentes não ciganos em questão de roupas e de outros detalhes de menor importância.

 

O cigano Oscar Batista Apolinário, de Itapevi, contou uma experiência desastrosa acontecida com ele há 45 anos. Ao entrar numa igreja evangélica em Curitiba com a vestimenta própria de seu povo, o pastor avisou de púlpito: “O Diabo está entrando”. Ao perceber que o pastor se referia a ele, Oscar nem acabou de entrar. Só há pouco, veio a se converter. Um dos seus filhos, Rafael Apolinário, hoje é obreiro da Missão Amigos dos Ciganos.

 

O enterro da fé

Há catorze anos houve uma cerimônia inusitada no cemitério de Santa Fé do Sul, SP. Certo cigano de 33 anos, muito amargurado e revoltado, atirou um punhado de terra sobre o corpo morto de seu filho nascido três dias antes. Com a outra mão atirou outro punhado de terra para simbolicamente sepultar para sempre sua santa padroeira, a quem ele havia dedicado a criança quando ainda no ventre da mãe e a quem havia pedido, primeiro, que ela não morresse e, depois, que ela ressuscitasse. Desse dia em diante, Valdir deixou de acreditar em religião e tornou-se um cigano incrédulo. Passou três anos chorando sem consolo nem fé.

 

Porém, mais tarde, Dalvana, sua filha mais velha, hoje com 27 anos, converteu-se a Jesus na Assembleia de Deus de Santa Fé do Sul. Valdir ficou bravo com a menina e não permitiu que ela frequentasse a igreja. Algum tempo depois, um novo pastor assumiu o pastorado da igreja e pegou o nome de todos os crentes afastados com o propósito de trazê-los de volta ao rebanho. Então a esposa do pastor foi visitar Dalvana, mas ela não estava. Quem a recebeu foi a esposa de Valdir. Este, por sua vez, se retirou da sala, mas, escondido, ouviu toda a conversa e se comoveu quando a visitante contou que Deus os amava e que ele mesmo havia perdido seu único Filho na cruz por amor de todos. Em nenhum momento, a esposa do pastor pregou sobre a Assembleia de Deus ou sobre religião. Ela mencionou apenas o nome e a pessoa de Jesus. Duas semanas depois, Valdir e sua esposa, Jeanete, também cigana, começaram a frequentar a igreja. A conversão deu-se poucos dias depois, por ocasião de um retiro, onde, lembra o ex-incrédulo: “Fiquei quatro dias com Jesus”. O batismo aconteceu há dez anos, em março de 2005.

 

Ordenado pastor assembleiano em janeiro de 2010, Valdir de Almeida Apolinário, 46, hoje é o atual presidente da Missão Amigos dos Ciganos, fundada em 2002 por um grupo de jovens evangélicos de Curitiba. O Mineiro teve o privilégio de ouvir a história de conversão de Valdir por ele mesmo quando se encontraram no acampamento de Itapevi. Foi ele quem pregou naquele domingo na igreja dos ciganos.

 

O Mineiro se sentiu na obrigação de ceder para o casal Valdir e Jeanete o quarto reservado para ele na casa do cigano Paulo e foi dormir na sala, onde dormiram também dois obreiros da missão: o cigano Rafael, vulgo Praiano, de 39, e o não cigano Jessé Almeida, de 30.

 

Em 2011, Valdir e o pastor Igor Shimura participaram de uma celebração do Dia do Cigano na Moldávia e ouviram um missionário entre eles declarar para cerca de 3 mil pessoas: “O povo judeu foi o primeiro a ser chamado e o povo cigano foi o último, mas, de acordo com Jesus, os últimos serão os primeiros...”.

 

Talvez tenha sido por isso que Valdir pregou na igrejinha dos ciganos de Itapevi sobre a mulher siro-fenícia (Mt 15.21-28). Graças à sua fé, à sua humildade e à sua insistência, a mulher não judia conseguiu o que ela muito desejava (a cura da filha que era cruelmente maltratada por um demônio). Os discípulos de Jesus daquela época não mostraram a mínima solidariedade com a pobre mulher, sugerindo que o Senhor a despedisse de mãos vazias. Já que Jesus era e é o Deus “de quem todos recebem ajuda” (2Co 1.3), espera-se que os discípulos de hoje tenham tanto amor pelos ciganos como por qualquer outro grupo não alcançado pelo evangelho. A igreja evangélica brasileira precisa evangelizar com urgência e muito ardor esse grupo até então não evangelizado.

A boa notícia é que a Missão Amigos dos Ciganos começou há pouco tempo o Projeto Bíblia Calon, em parceria com a Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), a Sociedade Bíblica do Brasil, a Seed Company, o Instituto Antropos e algumas igrejas e amigos. O alvo é traduzir as Escrituras para a língua calon. Já estão prontos o livro de Rute e o Evangelho de Lucas. No Dia Nacional do Cigano em 2014,  foi lançado o filme “Jesus”, dublado para a língua cigana pelos próprios ciganos brasileiros, em Sousa, na Paraíba, onde vive uma das maiores comunidades ciganas do país. (O filme já foi traduzido para 1.190 línguas ao redor do mundo.)

 

Segundo a Rede Nacional de Apoio Integral aos Ciganos (RENACI), atualmente o Brasil tem dezoito missionários evangélicos em tempo integral e treze em tempo parcial no meio cigano, cuja população é estimada entre 800 mil e 1 milhão de pessoas.

É preciso que se saiba que a evangelização de ciganos é muito trabalhosa porque, no Brasil, como explica o pastor Igor Shimura, “a fé cigana do dia a dia é híbrida, sincrética, nominalmente católica, e mistura deuses, santos, espíritos e semideuses. O nome disso é “duvelismo”, uma espécie de monismo, em que o deus cigano, Duvê, sendo um só, manifesta-se de inúmeras formas: Jesus Cristo, Santa Sara, Nossa Senhora Aparecida, Padre Cícero (todos os rostos de um mesmo deus). Para o cigano, de forma geral, o que importa é que todas essas e outras divindades, no fim das contas, emanam de um só Deus, o Duvê”.

 

***


A discriminação contra os ciganos vem de longe


Em sua “História dos Ciganos no Brasil”, o professor de história Rodrigo Corrêa Teixeira cita a definição de “cigano” que consta no dicionário do padre Raphael Bluteau, publicado em Portugal em 1712: “Nome que o vulgo dá a uns homens vagabundos e embusteiros, que se fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo, sem assento nem domicílio permanente, como descendentes dos que não quiseram agasalhar o Divino Infante quando a Virgem Santíssima e São José peregrinavam com ele pelo Egito”. Duzentos anos depois, o mesmo dicionário, reeditado pelo brasileiro Antonio de Morais Silva, em 1922, mantém o registro de que os ciganos são uma “raça de gente vagabunda que vive de trocas e baldrocas ou de dançar e cantar, e que vive juntos”. O “Dicionário Prático Ilustrado”, de 1966, define “ciganice” como “traficância, lisonja ardilosa e trapaça em compras e vendas”. É o caso de se perguntar se essa “ciganice” não é própria também de brasileiros não ciganos. Quem quebra mais o oitavo mandamento (“não roube”): os ciganos ou essa multidão que frauda a Petrobrás?

No prefácio de seu livro “Anticiganismo: Os ciganos na Europa e no Brasil” (Recife, 2011), Frans Moonen aponta as políticas anticiganas que a população não cigana tem adotado. Entre elas estão a “escravidão” (do século 14 à segunda metade do século 19), a “prisão”, a “deportação”, o “isolamento”, o “etnocídio” e o “genocídio” (entre 250 e 500 mil ciganos foram vítimas do holocausto nazista).

O anticiganismo é um problema parecido com o antissemitismo e com o atual anticristianismo, que tem produzido mais mártires no presente do que no passado, especialmente no Oriente Médio.

 

 

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Ciganos: uma etnia invisível

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