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Colunas — Da linha de frente

Carta de uma missionária a sua mãe

Bráulia Ribeiro

 

Mãe, agora é tarde, você não vai mais ler esta carta. Seus olhos já não leem. Estão vendo coisas mais lindas, mais lindas ainda que o sitiozinho nas montanhas onde você viveu seus últimos anos. Imagino a sua alma de artista inundada pela beleza do céu, da cidade que o Senhor preparou para você.

 

Seus ouvidos já estão ouvindo outras músicas que não as toadas caipiras da cidade de interior, as brigas dos vizinhos do bairro pobre, que você ouviu toda a sua vida. Queria que você me contasse sobre a surpresa que teve quando ouviu os anjos, sobre a ternura que sentiu quando escutou a voz do Senhor a chamar seu nome.

 

Você se lembra, mãe, de quando eu lhe disse pela primeira vez que Deus havia me chamado para missões e que eu não queria mais voltar para casa? Pedi permissão a você para eu ficar e fazer um curso a fim de depois sair numa equipe de evangelização para o Norte e o Nordeste? Você me olhou engraçado e me contou o sonho que havia tido na noite anterior. Lembro-me da sua alegria dizendo-me que viu o menino Jesus. Contou-me que ele lhe pedia uma coisa que você tinha nas mãos e você lhe entregava uma semente grande e bonita. Era eu, você disse. Então, notou que ele tinha algo para lhe dar. Era outra semente que você recebia diretamente dele. Não sabíamos no momento, mas a sua semente era o jardim de infância para os garotos da favela que você abriu logo depois no quintal de casa. Jardim do Cordeirinho, ou do Piolho Feliz, como gostava de brincar meu pai.

 

Foi ali, mãe, naquele morrinho de Contagem que meu destino e o seu se desenharam. Nós iríamos viver longe uma da outra, eu numa ponta do país e você noutra. Lembra-se, mãe, de que nos meus primeiros anos de missão apenas as suas ofertas me sustentavam? Ninguém acreditava em mim o suficiente para subsidiar o meu ministério. Porém, você fazia aquele dinheirinho suado chegar até mim nos lugares mais improváveis do Brasil.

 

É, mãe, a vida passa rápido. A gente nem se viu muito e se passaram décadas. Quando meu irmão me comunicou a sua partida, eu queria bater a cabeça na parede. Senti muita culpa, mãe. Você sabe, eu queria muito ter vivido mais perto. Meus filhos nasceram, eles não tiveram avó. Aprendi a cuidar deles só, não tive por perto seus conselhos, sua experiência, não vi você brincando com eles, observando-lhes o crescimento.

 

No momento da dor da sua partida, não me lembrei se foi por teimosia, se foi por mero idealismo humanista, se foi por amor pelas matas que escolhi morar na Amazônia, que viajei muito, que me distanciei de minhas raízes, que me afastei de você. Será que foi minha ilusão de sacrifício, será que foi necessário, será que poderia ter sido diferente?

 

Lembro-me de um dia em que eu saía do sítio com a família, me despedindo para mais uma viagem cruzando o Brasil para rever você novamente sabe-se lá quando. Comentei no portão que achava você distante emocionalmente. Você me disse: “Minha filha, não posso me apegar muito a meus netos. Não sei quando vou vê-los novamente”. Sorriu-me um sorriso estoico e nos entendemos ali, duas mulheres que sabiam o significado da missão. Você nunca me cobrou, nunca me pediu: “Fique”. A dor da nossa distância forçada vai estar sempre comigo. Seguir a Cristo nos obriga a sacrifícios. Consola-me, porém, saber que a minha missão foi também a sua. Os índios que amei, os povos que servi, as pessoas com quem compartilhei Cristo foram tocadas por você também. Obrigada, mãe. Em breve, nos veremos novamente.

“Homenagem a Daliana Aparecida (1928–2014)”

 

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona no Havaí com sua família, e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?. Acompanhe seu blog pessoal.

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