Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Capa — O Deus de Israel e o Israel de Deus

Nesta matéria:

Qual é o futuro do Israel de Deus?

Timóteo Carriker

Há uma só passagem em toda a Bíblia que faz referência ao “Israel de Deus” e, dentro do seu contexto maior (Gl 6.11-16), refere-se àqueles que, pela cruz de Cristo, são novas criaturas, em outras palavras, genuinamente cristãos: “E, a todos quantos andarem de conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus” (Gl 6.16).

Há certa dúvida se a expressão “Israel de Deus” refere-se a todos os cristãos ou especificamente aos judeus cristãos. Mas não há dúvida que, sejam gentios e judeus cristãos ou apenas judeus cristãos, refere-se a pessoas cristãs. Essa, em síntese, é a perspectiva do Novo Testamento de modo geral, como veremos mais adiante. O Israel de Deus são os discípulos de Jesus entre os judeus e os não judeus. E, se essa for a perspectiva do Novo Testamento, podemos concluir que é a perspectiva “cristã”. Vejamos que não é a única perspectiva “bíblica”, pois é possível tirar outras conclusões a respeito de Israel a partir do Antigo Testamento, que ou descarta a perspectiva do Novo Testamento ou “pula” essa perspectiva para outra futura. Explico a seguir.
Logo no primeiro livro da Bíblia, Deus estabeleceu um povo separado para si e lhe fez promessas. As passagens são muitas ao longo do Antigo Testamento, mas começam em Gênesis 12.1-3:

“Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra” (veja também Gn 13.15,17; 17.8; 18.18; 48.3-4; Êx 32.13; Js 1.3-4; Dt 11.24-25; 34.4; 2Cr 20.7; Is 34.17; Jr 7.7; 25.5; Ez 37.25; Jl 3.20).

Nesta passagem e em outras, por mais importante que seja o aspecto geográfico da promessa (“sai da tua terra [...] e vai para a terra que te mostrarei”), esse aspecto é apenas o meio para alcançar um fim maior, um fim essencialmente “missionário” (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”). Para abençoar todas as famílias da terra, Israel precisa se constituir em povo, e, para se constituir como povo, é necessário um local, isto é, uma terra. Esta finalidade maior de abençoar os povos ocorre na repetição dessa promessa aos patriarcas e, mais tarde, na formalização desse pacto no monte Sinai. Aqui, a peculiaridade da eleição de Israel não deve ser entendida como um fim em si, mas, novamente, um meio para alcançar um fim maior por meio do seu papel de intercessor, de alcançar “todos os povos”.

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.5-6, veja a citação desta passagem em 1 Pedro 2.9).

Ou seja, as promessas de Deus para Israel1 sempre visavam, em última análise, este fim maior de ser “luz para os gentios” (Is 42.6; 49.6). E é exatamente esse alvo que é alcançado por meio de Jesus Cristo, e é essa a perspectiva consensual do Novo Testamento. O próprio Antigo Testamento prepara o leitor para essa perspectiva, especialmente no livro de Isaías, ao estreitar as promessas de Deus para Israel a um remanescente fiel (Is 7.6; 10.19-22; 11.11, 16; 17.3; 28.5; 37.4, 31-32). E é o Antigo Testamento, não o Novo, que anuncia o dia que Deus iria agir por meio de uma nova aliança, e não por meio da antiga.

“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jr 31.31-33).

As genealogias de Jesus, o seu batismo em Mateus (1.1-16; 3.13-17) e em Lucas (3.21-38) e a afirmação inequívoca de que no ministério de Jesus o governo de Deus havia finalmente chegado (Mt 12.22-32; Mc 3.20-30; Lc 11.14-23) são alguns dos muitos exemplos da convicção dos evangelistas de que as promessas de Deus feitas na antiga aliança encontraram o seu cumprimento em Jesus (tema incansável também da Epístola aos Hebreus). Os primeiros leitores desses Evangelhos entenderam muito bem que, na escolha dos doze discípulos e na insistência da igreja de completá-los depois da apostasia de Judas, o “Israel” estava sendo reconstituído. A afirmação de Jesus de reconstruir o templo em três dias (Mt 26.61; 27.40; Mc 14.58; 15.29; Jo 2.19-20), sem referência alguma a outra reconstrução futura, tem o mesmo efeito. Jesus, o alvo final da redução de Israel por meio de um remanescente cada vez menor, reconstituiu o povo de Deus e, por meio da incumbência missionária dada aos seus discípulos, começou o processo de ampliá-lo, sendo constituído de judeus e não judeus que creem nele (Rm 1.16-17; 2Co 5.17; Ef 2.11-22). E, como o alvo do chamado de Israel no Antigo Testamento foi abençoar todas as famílias da terra, este continua sendo o alvo do povo de Deus reconstituído por Jesus até o fim: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24.14, veja Mc 13.10; Lc 21.7-28).

Aliás, essa passagem já aponta para o futuro do Israel de Deus, assunto último desta reflexão. Pois fim (telos) deve ser entendido como alvo “último”, e não alguma etapa penúltima ou antepenúltima. Fim é final! É a mesma perspectiva de Paulo, que compreende esta como a época em que Jesus está “sujeitando todas as coisas debaixo dos seus pés”, isto é, ampliando o seu governo, e isto antes do “fim”, que, por sinal, também é um fim final (1Co 15.23-28), e não um prelúdio para um suposto restabelecimento de Israel como etnia e como nação.

A esta altura, várias dúvidas devem aparecer para o leitor. Por exemplo, quer dizer que Israel como nação ou etnia não será reconstituído? Não voltará à sua terra? Se for assim, como entender o ressurgimento, de fato, da nação de Israel? Há duas dimensões em relação a essas indagações: uma dimensão bíblico-cristã e uma contemporânea. Nesta reflexão estamos tratando da primeira dimensão. Entretanto, a segunda ainda persiste. Ou seja, mesmo que concluamos que as promessas de Deus para Israel no Antigo Testamento se cumprem no evangelho de Jesus Cristo para judeus e não judeus (Rm 1.16), ainda é possível afirmar que, de alguma forma, a mão de Deus estava agindo no estabelecimento do atual Estado de Israel?2 Claro que isso é possível, mas da mesma forma que Deus age em qualquer outra circunstância ao longo da história, e não como cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Do contrário, a revelação de Deus no Novo Testamento seria desprezada. E, de todo modo, o Estado de Israel, sendo constituído ou não como consequência das promessas de Deus no Antigo Testamento, nem por isso tem carta branca para cometer injustiças, da mesma forma que Israel no Antigo Testamento nunca teve e da mesma forma que a Igreja – judeus e não judeus em Cristo – não tem. Mas o que o Novo Testamento diz a respeito do retorno dos judeus à Terra Prometida? E o que diz a respeito do futuro dos judeus?

Curiosamente, o Novo Testamento nada diz explicitamente a respeito do retorno dos judeus à Terra Prometida, até mesmo no longo discurso de Paulo sobre o “futuro” de Israel (Romanos 9–11). Há vários motivos possíveis para esse silêncio. O primeiro e mais óbvio é que os judeus já estavam na Palestina quando o Novo Testamento foi escrito. Entretanto, essa observação leva a duas deduções. Por um lado, pode-se concluir que dificilmente é possível falar sobre um retorno se não houver primeiro um êxodo. Por outro lado, pode-se concluir que, os judeus já estando na Palestina, o pressuposto do Novo Testamento é que as promessas de retorno do Antigo Testamento já se cumpriram. Nenhuma dessas duas deduções são conclusivas em si, pois é difícil tirar conclusões a partir do silêncio. Mas temos algumas pistas.

Por exemplo, veja como Paulo refere-se a uma das promessas a respeito da Terra Prometida:

“Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra” (Ef 6.1-3, grifo meu, cf. Êx 20.12; Dt 5.16).

A frase em Efésios “sobre (grego: epi) a terra” é genérica, ao passo que a passagem citada em Êxodo é específica: “Na (hebraico:‘al) terra que o Senhor, teu Deus, te dá”. Isto sugere que a promessa de uma terra específica (Palestina) já fora reinterpretada para se referir genericamente ao mundo inteiro ou a toda a terra, como no caso das múltiplas referências à incumbência missionária (Mt 28.18-20; Mc 16.15-18; Lc 24.48-49; Jo 20.21; At 1.8; Rm 10.17-18). Unindo essa observação àquela acerca do cumprimento em Jesus e nos seus “descendentes” das promessas feitas por Deus no Antigo Testamento, o silêncio do Novo Testamento começa a fazer mais sentido.

Falta uma passagem importante a se considerar: “E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados” (Rm 11.26-27, cf. Is 59.20-21; Jr 31.33-34).

Por “Israel” não se entende os judeus? E não diz que “será salvo”? Sim às duas perguntas, mas com as devidas observações. Primeiro, apesar de os reformadores entenderem que “todo o Israel” refere-se à igreja como um “novo Israel” (uma frase que nenhum autor do Novo Testamento usa), hoje os estudiosos concordam que a leitura de Romanos 11 praticamente exige que a referência aos gentios seja a de gentios mesmo, e a referência a Israel seja a de judeus. Portanto, sim, “Israel” aqui refere-se a judeus, porém, só podem ser judeus que estão em Cristo. A leitura de Romanos 9 e 10.4 exigem essa observação.

O uso dos verbos será e virá é de fato uma referência ao futuro? Claro que sim. Mas se trata do futuro de quem? De Paulo ou de Isaías e Jeremias, que ele está citando? Pode parecer que seja do futuro de Paulo (e, por isso, o nosso futuro). Entretanto, o próprio Paulo costuma citar profecias do Antigo Testamento formuladas no tempo futuro para se referir ao presente. Aliás, ele fez isso diversas vezes no final dos três últimos versículos do capítulo anterior (Rm 10.19-21; veja também Rm 9.25-33). Isto deve ser o suficiente para indicar que Paulo está citando uma profecia formulada no tempo futuro para se referir ao seu presente e à salvação, por meio de Jesus, de muitos judeus. Mas, para fechar essa questão, Paulo ainda cita Jeremias 31.33-34, que só pode ser uma referência à época inaugurada por Cristo.

Logo, qual é o “futuro” de Israel? É um futuro muito mais belo e promissor que as interpretações sobre a restauração da Lei e do Templo (veja Rm 10.4). O seu futuro é o mesmo futuro de todos aqueles que são discípulos de Jesus. É a transformação em novas criaturas. E é a possibilidade de cumprir finalmente a razão do seu chamado: abençoar todas as famílias da terra por meio de Jesus (Ef 1.3-14).

Incrível? Pode parecer, mas comecei a entender isso melhor, na prática, quando, no final dos anos 80, eu era assistente do professor Arthur Glasser, no Seminário Fuller, nos Estados Unidos, que havia iniciado um programa de mestrado em teologia para judeus cristãos – ou, como preferem ser chamados, judeus messiânicos. Eram pessoas muito capacitadas e dedicadas, e, como assistente do professor, eu tive a tarefa de ler os seus ensaios e lhes atribuir notas de avaliação. Durante dois anos tive o privilégio de aprender com suas pesquisas, que revelavam muitos movimentos de conversão a Jesus por judeus durante toda a história da igreja. Comecei a perceber o quanto o apóstolo Paulo tinha razão a respeito do cumprimento das promessas de Deus tanto para judeus quanto para não judeus por meio da transformação deles em discípulos de Jesus, o Messias, e do cumprimento das promessas de Deus de abençoar os descendentes de Abraão, inclusive abençoando todas as famílias da terra. Seria trágico da parte da igreja privar os judeus que não conhecem Jesus desta bênção, em nome de uma teologia que efetivamente negue este cumprimento.

Notas
1. Há 68 ocorrências da palavra grega “israēl” no Novo Testamento, sendo doze em Mateus, duas em Marcos, doze em Lucas, quatro em João, quinze em Atos, dezessete nas cartas de Paulo (onze somente em Romanos 9-11, duas em 2 Coríntios e uma em cada uma das seguintes cartas: 1 Coríntios, Gálatas, Efésios, e Filipenses), três em Hebreus e três em Apocalipse.

2. Vale ressaltar que 43% dos judeus do mundo vivem em Israel (40% vive nos Estados Unidos), e que o israelense é tanto judeu (75%) quanto árabe (21%) e outros (4%). Os árabes e os grupos étnicos ou são de religião muçulmana ou cristã.

Timóteo Carriker é missiólogo e professor em diversas escolas de teologia e missões. É autor de, entre outros, Trabalho, Descanso e Dinheiro e A Visão Missionária na Bíblia. Acompanhe seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/timcarriker

LEIA MAIS
De Quem é a Terra Santa? - O contínuo conflito entre Israel e a Palestina

De quem é a "terra santa"?
Os dilemas históricos e teológicos do sangrento conflito entre Israel e Palestina, Marcos Amado

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.