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Colunas — Reflexão

O evangelho anátema

Ed René Kivitz

Ao comentar o fato de que o Diabo usou as Escrituras quando da tentação de Jesus, o Padre Antonio Vieira afirmou que “a palavra de Deus usada com sentido diverso daquele pretendido por Deus ao proferi-la é palavra do Diabo”. Isso é coerente com a dura recomendação do apóstolo Paulo: “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja anátema -- amaldiçoado! Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja anátema -- amaldiçoado!” (Gl 1.8-9).

A maneira como a subcultura religiosa cristã, inclusive evangélica, interpreta e se apropria de textos bíblicos selecionados resulta num “outro evangelho”. Os textos bíblicos (mal interpretados) são transformados em clichês, e o conjunto dos clichês implica uma lógica absolutamente distinta da mensagem, vida e obra de Jesus.

Tome por exemplo a maneira como geralmente se interpreta a afirmação do apóstolo Paulo “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). O texto é exaustivamente usado para confortar pessoas vitimadas por uma tragédia ou infortúnio: “Não se preocupe, isso aconteceu porque Deus tem algo melhor para você”; “Deus fecha uma janela e abre uma porta”; “Deus sabe o que faz, ele está preparando algo grande para a sua vida”. Imagine o coração da mãe que ao sepultar o filho ouve como palavra de conforto a sugestão de que Deus levou seu filho porque deseja dar-lhe algo mais valioso, e que, ao fim, diante do bem maior, ela agradecerá pela morte do filho.

Bastaria ler o texto em seu contexto. O texto completo diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus e que foram chamados segundo o seu propósito”, a saber, “serem formados à imagem de seu filho Jesus, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. O bem para o qual concorrem todas as coisas é a formação da imagem de Jesus naqueles que amam a Deus. Isso não significa que você teve seu carro roubado porque Deus quer dar-lhe um carro melhor, ou que o roubo do seu carro acabou sendo bom para você, pois o seguro paga mais do que você conseguiria vendendo o carro (risos). Também não quer dizer que sua demissão se explica pelo fato de Deus estar preparando um emprego muito melhor para você. Romanos 8.28-30 significa -- como diz a nota de rodapé da tradução da Nova Versão Internacional -- que “em todas as coisas Deus coopera com aqueles que o amam, para trazer à existência o que é bom”, sendo que o que é bom é a imagem de Jesus Cristo.

Outro exemplo do “evangelho anátema” está baseado na afirmação de Jesus “se vocês tiverem fé e não duvidarem poderão dizer a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e assim será feito. E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão”. Desse episódio resulta o clichê “a fé remove montanhas”.

Evidentemente, Jesus não está ensinando como podemos nos valer da oração e da fé para promover nosso próprio conforto e satisfação pessoal. A montanha à qual Jesus se refere não representa um obstáculo qualquer na vida dos seus discípulos. Você não pode usar esse texto como motivação e garantia de superação de obstáculos. Jesus está se referindo ao monte Sião e, consequentemente, profetizando contra Jerusalém.

Jesus cita os profetas Jeremias e Joel: “Sião é como uma figueira estéril”. O contexto de Mateus 21.18-22 informa que o monte que abriga o templo é agora covil de ladrões e bandidos. E por isso sofrerá juízo. Jesus sabe perfeitamente que a mesma multidão que gritava “Hosana ao Filho de Davi” escolherá Barrabás, e gritará a respeito dele, Jesus, “Crucifica-o”. O Messias será rejeitado em Jerusalém. O povo de Jerusalém não o receberá pela fé. E o monte Sião deixará de ser o lugar central da relação entre Deus e o seu povo. O monte Sião será deslocado, a montanha mudará de lugar quando surgir um povo que tem fé. O apóstolo Paulo, em Gálatas 3.7, resume o ensino de Jesus dizendo que “os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão”.

Jesus, portanto, não está ensinando que a fé é um recurso para que os seus seguidores superem obstáculos, vençam desafios ou realizem todos os seus desejos. “Tudo o que pedirem em oração, se crerem, receberão” não é, de forma alguma, um cheque em branco que Jesus oferece aos seus discípulos. Jesus está afirmando que seus discípulos são o povo da fé, que tira Sião do lugar, e coloca no centro da história um outro monte -- o monte Calvário.

Uma casa se faz com tijolos, mas um amontoado de tijolos não é uma casa. Assim também um discurso evangélico se faz com textos bíblicos, mas um amontoado de textos bíblicos não é necessariamente o evangelho de Jesus Cristo. Não raras vezes é um “evangelho anátema”.

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

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