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Colunas — Ética

De esquerda ou de direita, sejamos irênicos e sensibilizados

Paul Freston e Raphael Freston

Na edição 346, publicamos o artigo De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos. O texto foi bastante comentado, e alguma resposta a essas réplicas parece justificada. Porém a tréplica é sempre arriscada; há a tentação de partir para a defesa pessoal e de perder o senso de proporção e o bom humor. Enfim, de perder a capacidade de ser “irênico”.

Algumas reações
Infelizmente, algumas reações comprovaram a necessidade do nosso artigo, no sentido de que “vestiram a carapuça” de uma direita ignorante e raivosa, insultando e até ridicularizando os autores. (A “esquerda” ignorante se manifestou apenas em alguns comentários feitos pessoalmente a um de nós; a esquerda raivosa ficou quieta.) Algumas reações escritas chocaram outros leitores mais ponderados, que lamentaram “as respostas intempestivas, por vezes ofensivas”, e o “debate agressivo e sem os frutos de mansidão e longanimidade”.

Outras reações evitaram os insultos, mas mostraram dificuldade para ler um texto com cuidado. Quiseram interagir com outro texto imaginado, por trás do texto real. Nesse “texto por trás do texto”, demonizamos a direita (segundo um leitor) e defendemos o regime cubano (segundo outro leitor).

Também fomos criticados pela falta de “equilíbrio”, que parece ser entendido como uma postura de centro. Nesse sentido, nosso texto não teve mesmo a intenção do “equilíbrio”, mas teve uma dupla função: de educar quanto à maneira de debater a política no meio cristão; e de defender (irenicamente) uma opção definida, a qual julgamos ter sido alvo de ataques realmente intempestivos e até ofensivos. O verdadeiro equilíbrio, a nosso ver, é a capacidade de examinar uma variedade de posições e optar sensatamente entre elas.

Fomos também criticados por alguns de esquerda porque o nosso texto não “bate” o suficiente nos irmãos de direita. Vemos aí que as virtudes e os vícios do caráter cristão não se concentram num único ponto do espectro político. Os publicanos e as prostitutas (leia-se: aqueles irmãos cujas opiniões políticas abominamos) nos precedem no reino de Deus.

Táticas a evitar (e a reconhecer em épocas eleitorais)
Nas reações, e também em alguns artigos publicados na mídia, percebemos algumas táticas argumentativas que devem ser evitadas. No caso das réplicas ao nosso artigo, são táticas usadas por pessoas de direita. Porém, as mesmas táticas espúrias são frequentemente usadas por pessoas de esquerda, com efeitos igualmente nocivos.

A primeira tática é o “coitadismo”: retratar-se como pequena minoria lutando bravamente contra a discriminação e mesmo contra a perseguição do outro lado. Ou comparar-se com as minorias em algum outro país onde existe de fato a perseguição.

A segunda tática é o “espantalho” (ou “o homem de palha”): cria-se um espantalho do outro lado como sempre o pior possível (no caso, a esquerda é sempre autoritária etc.). É a mesma tática dos neoateus que pintam o “verdadeiro cristão” como o fundamentalista, com o intuito de facilitar a ridicularização.

A terceira tática é a “deturpação”: ler os textos do outro lado como se eles dissessem o que os autores não afirmam. Há alguns anos, escrevi um texto sobre o grande intelectual cristão do início da Idade Média, Beda, de quem se diz que nunca distorcia as ações ou as palavras das pessoas cujas convicções ele não compartilhava. Ele era generoso em reconhecer méritos, piedoso em reverenciar a santidade, mas sábio em perceber defeitos. Que Deus nos ajude a agir sempre assim.

A quarta tática são as “generalizações históricas indevidas”: por exemplo, “a esquerda é sempre assim”, ou “sempre acaba assado”. Essa tática faz das contingências históricas uma lógica implacável; mas nos sentimos injustiçados quando a mesma tática é usada contra nós.

A quinta tática é a dos “alhos com bugalhos”: compara-se a prática falha da esquerda com a teoria bonita da direita. Curiosamente, essa é uma tática que a esquerda já usou muito, e da qual a direita sempre (e com razão) reclamou.

Finalmente, temos a tática de “atingir a pessoa”: é a falta do zagueiro que não vai conseguir roubar a bola e propositadamente derruba o adversário. É atacar a pessoa e não os argumentos dela. Ou, mais sutilmente, é tentar diminuir a pessoa com ironias (“o nobre professor”).

Relativizemos as nossas opiniões políticas!
Como cristãos, todos nós (e isso vale em todos os pontos do espectro ideológico) precisamos relativizar as nossas opiniões políticas, não porque a política não seja importante, mas porque não podemos (biblicamente) ser tão dogmáticos quanto gostaríamos de ser a respeito das questões políticas. Isso, por duas razões básicas. Primeiro, por causa da enorme extensão da “ponte hermenêutica” entre o mundo bíblico e o nosso. Podemos tirar “princípios políticos”, mas não uma “receita política” da Bíblia. O Novo Testamento foi escrito para a comunidade cristã primitiva, que era um pequeno grupo transnacional, sem controle de um território, sem acesso ao poder político e sem possibilidade de criar legislação pública. E o Antigo Testamento, escrito para uma comunidade nacional que de fato possuía essas características, tem de ser lido à luz da revelação cabal de Deus em Cristo. Por isso, a política cristã é sempre “menos segura de si”, do que (por exemplo) a maioria das abordagens islâmicas. Em segundo lugar, por causa da complexidade dos fenômenos políticos e da natureza da política como a “arte do possível”, fazendo com que pessoas que tiram os mesmos princípios políticos da Bíblia possam, mesmo assim, divergir radicalmente a respeito do que é possível e aconselhável fazer hoje no Brasil.

Jesus nos adverte para termos “cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus” (Mt 16.6). Embora diferentes entre si, estes grupos absolutizavam o que deveria ser relativizado à luz de Cristo. Hoje, um exemplo de “fermento dos fariseus e saduceus” é o de colocar a fé cristã a serviço de uma determinada posição política. Há muitos casos, em muitos pontos do espectro. Para o caso brasileiro atual, no entanto, o exemplo mais relevante é o da direita evangélica americana. A fortíssima associação da identidade evangélica com a direita nesses últimos trinta anos está levando agora a um esvaziamento, um cansaço dos evangélicos mais jovens em relação à agenda política estreita e à falta de sensibilidade social. Essa politização da identidade é desastrosa para a fé evangélica, em vários sentidos. Primeiro, porque desestimula a conversão, já que implica uma conversão política à direita também. Em segundo lugar, porque racha a comunidade evangélica existente, cobrando um “pedágio” político para ser bem visto na comunidade. Em terceiro lugar, porque é idólatra, absolutizando as nossas opiniões relativas e colocando-as no mesmo patamar das doutrinas centrais da fé.

A desigualdade: aumentando ou diminuindo?
Como já dissemos, nosso propósito nestes artigos nunca foi de um “equilíbrio” insosso. Sabemos muito bem que o público leitor para um artigo desses é limitado, justamente por causa da “desigualdade” (de renda, de riqueza, de oportunidades educacionais e culturais) ainda reinante no Brasil. Porém o fato é que a desigualdade tem diminuído no Brasil, e em boa parte da América Latina, enquanto que, no mundo em geral, tem aumentado assustadoramente.

Uma pesquisa recém-divulgada1 pela famosa ONG Oxfam (fundada por um pastor anglicano) fala da “maré crescente de desigualdade”. Apenas 85 pessoas detêm riqueza equivalente à de metade da população mundial. A situação tende a piorar: 70% das pessoas vivem em países onde a desigualdade econômica aumentou nos últimos trinta anos.

A Oxfam é realista: reconhece que algum grau de desigualdade propicia o crescimento. Contudo, adverte que os níveis extremos de concentração de riqueza “ameaçam excluir centenas de milhões de pessoas da devida recompensa dos seus talentos e do seu trabalho”. Além disso, a extrema desigualdade prejudica a democracia, dando influência desmedida aos ricos na formulação de políticas públicas. Aliás, pesquisas em seis países, inclusive no Brasil, mostram que a maioria da população acredita que “as leis são distorcidas em favor dos ricos”.

Mas a Oxfam não seria fonte suspeita, por ser “de esquerda” e “socialista”? Recorramos, então, a “The Economist”.2 A revista afirma que, segundo a grande maioria dos economistas, as sociedades não podem ter perfeita igualdade e perfeita eficiência. Mesmo assim, o recente aumento na desigualdade está levando à percepção contrária: que a extrema desigualdade também pode prejudicar o crescimento. Estamos voltando a níveis vitorianos de desigualdade, a uma realidade mundial que lembra as condições da Revolução Industrial do século 19. Os meados do século 20 viram uma significativa diminuição da desigualdade, mas esse período, segundo a revista, agora parece apenas como um “interregno igualitário”, uma exceção à regra de concentrações cada vez maiores de renda e de riqueza.

A América Latina, por outro lado, tem caminhado na direção oposta; a desigualdade diminuiu significativamente entre 2000 e 2010. Depois de 2010, no entanto, estancou. Continua como a região mais desigual do mundo, junto com a África subsaariana, e muito pior do que as economias emergentes da Ásia. “The Economist” cita uma pesquisa feita por economistas do FMI, que conclui que, se a América Latina conseguisse reduzir pela metade a diferença (em nível de desigualdade) com relação à Ásia, seus surtos de crescimento durariam o dobro do tempo. Duas coisas são prioritárias para se conseguir isso: melhorar a qualidade da educação pública; e “apertar mais os ricos”, mas “de forma inteligente”, para não desestimular os investimentos.

Podemos concluir que a alternativa é a perpetuação, ao longo das gerações, de níveis economicamente prejudiciais e social e moralmente inaceitáveis de desigualdade. A situação lembra o veredito de São João Crisóstomo, do século quarto: “Quanto maiores os favores recebidos, maior a culpa se a pessoa é insensível. É por isso que vemos os ricos se tornando piores [...] Eles não foram sensibilizados, mesmo pela sua prosperidade”. Inclusive, talvez (adaptando à nossa realidade democrática), na maneira de pensar a política e de votar.

Notas
1. Para o relatório da Oxfam.
2. Edições de 4 jan. 2014 e 1º mar. 2014.

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

Raphael Freston estuda ciências sociais na Universidade de São Paulo e é membro da diretoria nacional da ABUB.

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