Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Notícias — Painel

A Teologia da Prosperidade na berlinda

A Teologia da Prosperidade (TP) foi o tema mais discutido na consulta teológica e pastoral Um Chamado à Humildade, à Integridade e à Simplicidade, organizada pelo Movimento Lausanne e pela Aliança Evangélica -- com o apoio da Editora Ultimato e outros. Ela aconteceu de 3 a 5 de abril, na Estância Palavra da Vida, em Atibaia, SP. Cerca de cem líderes evangélicos se reuniram para discutir as implicações para a igreja brasileira de uma das teologias que ganharam mais evidência nas últimas décadas no Brasil e no mundo. A consulta, que também celebrou os 40 anos do Pacto de Lausanne, contou com preleções e mesas de debate com líderes nacionais e estrangeiros. Dias antes, de 30 de março a 3 de abril, o Movimento Lausanne realizou, no mesmo local, para um público restrito de 45 pessoas de dezessete países, a consulta global A Teologia da Prosperidade, a Pobreza e o Evangelho. Fizemos uma seleção do que vimos e ouvimos durante a consulta Um Chamado à Humildade, à Integridade e à Simplicidade, que você lê a seguir.

**
Boa para quem?

O teólogo nigeriano Femi Adeleye apontou algumas fraquezas da TP:

- Ausência de uma teologia do sofrimento. A TP afirma que você deve dar a Deus para que ele vá ao encontro de suas necessidades. Normalmente, não se fala sobre dor e sofrimento. A pergunta é: será que a TP é “boas novas para os pobres”? Alguns dizem que sim, pois ela tem funcionado. Mas tem funcionado para quem? Frequentemente, em meu contexto africano, são os pastores e líderes que mostram este resultado com a aquisição de roupas e carros, e não os pobres que, na verdade, são o alvo principal dessa teologia.

- Má interpretação do propósito em dar. No Antigo Testamento, por exemplo, fazer uma oferta é uma atitude de entrega, de gratidão. É um ato de adoração, e não um investimento para obter retorno. Na verdade, Deus abençoa seu povo, estejamos doando ou não. Não precisamos investir para recebermos o direito de respirar e outras bênçãos da vida.

- Má interpretação da missão de Jesus. Para os defensores da TP, Jesus veio para tornar seu povo rico, como um elemento da salvação. Entretanto, esta teologia geralmente não enfatiza os outros aspectos da salvação, como o arrependimento, confissão ou o perigo da ganância e da avareza.

Femi Adeleye, nigeriano, é teólogo e diretor de cooperação eclesiástica da Visão Mundial Internacional.

**
A Teologia da Prosperidade é muito útil para fazer a igreja crescer, mas tem pernas curtas


Paul Freston iniciou sua análise sugerindo que os participantes suspendessem temporariamente seus juízos normativos para alcançarem compreensão e empatia. Ele declarou que a TP no Sul Global atua na periferia do capitalismo e geralmente não se baseia na ética clássica do trabalho e do consumo modesto. Entretanto, ela pode infundir otimismo, confiança, novos padrões de solidariedade, sobriedade e diligência, além de ensinar novas habilidades, causando, assim, uma mudança psíquica em direção à independência e à iniciativa, necessárias para a sobrevivência numa economia informal.

A flexibilidade da TP é um dos segredos de seu sucesso. Ela explica por que a vida vai bem ou não, e pode ser entendida como um chamado para trabalhar muito ou uma autorização para viver endividado. Ela é, também, uma espécie de capital espiritual: “As pessoas investem nas suas relações com as entidades espirituais, a fim de melhorar a qualidade de suas vidas”. Conforme a antropóloga holandesa Ter Haar (citada por Paul), a TP é “inteiramente lógica a partir de uma perspectiva holística que não separa o material do espiritual”. Sobre os apelos monetários “escandalosos”, Paul argumenta que dar, na mentalidade popular, é poder e que as doações muitas vezes substituem gastos anteriores com remédios, álcool ou drogas. Ele afirma também que a doação à igreja e a racionalização do comportamento econômico vêm juntos, como um pacote de transformações, e que os ouvintes são capazes de filtrar os apelos.

Por fim, Paul conclui dizendo que para o ouvinte, muitas vezes, prosperidade significa apenas segurança ou dignidade e que, com menos exigências, a TP é uma forma de tornar o evangelicalismo uma religião de massas. Além disso, ela possibilita que o cristão rompa com a textura social. A TP está mudando, seja por fatores internos ou externos, afinal, ela é muito funcional para fazer uma igreja crescer, mas não para mantê-la ao longo dos anos. Por isso, precisará incorporar outros elementos para manter-se como comunidade estável.

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é sociólogo.

**
O que ela ataca?

Para o teólogo Daniel Salinas, a TP no contexto latino-americano ataca principalmente a cristologia, a eclesiologia e a doutrina bíblica.

- Em relação à cristologia -- a TP tira Jesus do lugar de senhor soberano para torná-lo um prestador de serviços, um Cristo sem poder, e transfere aos homens a autoridade e o senhorio sobre as coisas e situações. A partir disso, os cristãos devem fazer escolhas e ditá-las a Deus para que ele lhes conceda o que desejam conforme o desígnio humano, e não o divino.

- Em relação à eclesiologia -- a TP propõe um novo modelo de igreja, cuja referência é a economia de mercado. Pastores e ovelhas se relacionam como empresários e consumidores religiosos que têm como produto principal o lucro das ofertas (na maior parte das vezes monetárias) devolvidas por Deus através das bênçãos materiais e espirituais.

- Em relação à doutrina bíblica -- para os pregadores da prosperidade a palavra do homem é mais importante que a Palavra de Deus. A leitura, a meditação e os estudos bíblicos têm lugar reduzido nos cultos, além do risco permanente de distorção do conteúdo real das Escrituras.

A superação dos problemas trazidos pela TP começa na elaboração de uma teologia latino-americana que parta do exemplo bíblico de comunidade cristã como instrumento de Deus para manifestar seu reino. Tal teologia deve produzir uma mensagem encarnada na realidade social, sensível às necessidades humanas e processos históricos, fiel à revelação bíblica, cheia de compaixão e poder do Espírito Santo e centrada na cruz de Cristo.

Daniel Salinas é doutor em teologia histórica pela Trinity Evangelical Divinity School e trabalha como missionário da Latin American Mission, com a IFES.

**
Fé ou bênção? Um equívoco

O teólogo indiano Vinay Samuel explicou que a pluralidade religiosa na Índia é um obstáculo à fé e à dependência do Deus soberano. Muitos cristãos creem na existência do Deus que habita o céu cujas perfeição e santidade podem ser contempladas, mas consideram-no distante e pouco acessível. Em contrapartida, os outros milhares de deuses são os que exercem autoridade sobre situações mais práticas, sendo acionados inclusive por cristãos.

Para entender as boas novas os indianos experimentam uma fé a partir do que consideram respostas dadas por Deus. Se seus problemas são resolvidos e suas orações são respondidas, então a pregação é boa. Caso contrário, eles procuram sem constrangimento outras igrejas, pastores e deuses.

A TP entra neste contexto como promotora da correlação entre fé e bênçãos. Para muitos cristãos indianos, tanto fé como bênção não estão vinculadas à providência, vontade e generosidade de Deus; elas dependem do esforço pessoal e da fé de que Deus concederá os bens materiais e espirituais que gostariam de ter -- mesmo que isso não se aproxime da semelhança de Cristo. O desafio para a igreja do Senhor Jesus no mesmo contexto é colaborar para o exercício de uma fé madura e profunda, que favoreça genuína transformação na vida dos cristãos indianos.

• Vinay K. Samuel
é pastor anglicano, teólogo e missiólogo. Ele fundou e atuou como diretor executivo do Oxford Centre for Mission Studies.

**
Painéis

O primeiro painel, “Presença, influência e implicações da Teologia da Prosperidade no meio evangélico brasileiro”, abordou a TP sob diferentes perspectivas. O historiador Lyndon Araújo a compreendeu na sua historicidade, a partir de um discurso ideológico mais do que de um teológico. O sociólogo Alexandre Brasil mapeou o campo teológico atual e suas interseções, apontando caminhos pastorais para os evangélicos diante dos desafios e impasses da TP. O pastor Luiz Sayão analisou as mudanças do mundo evangélico na pós-modernidade, incorporando contribuições positivas do movimento neopentecostal.

O segundo painel, “A realidade brasileira: os pobres, a injustiça e a Teologia da Prosperidade”, abordou as práticas e leituras da missão e do serviço na realidade brasileira de pobreza, como contraponto ao discurso da TP. O economista Eduardo Nunes discorreu sobre as ações da Visão Mundial. O pastor Ariovaldo Ramos abordou criticamente a TP. O pesquisador Clemir Fernandes apresentou a seguinte reflexão a partir de experiências de serviço aos empobrecidos:

“A distância entre ricos e empobrecidos é um dos tristes exemplos de divisão em nosso mundo, que produz feridas e mortes, como apontado no Compromisso da Cidade do Cabo (Lausanne 3, 2010). Já em Lausanne 1, Samuel Escobar chamou atenção para essa divisão, enfocando a realidade de pobreza da América Latina em comparação aos países ricos, exemplificados pela América do Norte. Tal divisão foi também apontada por Ronald Sider em seu livro “Cristãos Ricos em Tempos de Fome”, publicado no Brasil há vinte anos. Para enfrentar este e outros desafios que provocam divisão, somos chamados ao caminho da simplicidade -- como João Batista, cuja simplicidade revelou sua autenticidade como profeta de Deus, atraindo multidões ao arrependimento --, da integridade -- como José do Egito, cuja correção e integridade produziu bem estar e unidade -- e da humildade -- como Jesus, que sendo rico e dono de todo poder, se fez pobre e humilde, dedicando sua vida para o benefício, sobretudo da salvação, de todos.”

**
Como responderemos à Teologia da Prosperidade?


A consulta internacional produziu a Declaração de Atibaia (“Recomendações da Consulta Global Lausanne sobre TP, Pobreza e Evangelho”) e a consulta nacional preparou um primeiro rascunho de sua declaração. Abaixo alguns destaques, incluindo sugestões de participantes da consulta nacional, ainda não incorporadas ao documento final:

- Reconhecemos a complexidade do assunto e a necessidade de maior compreensão dos contextos religioso, histórico, sociológico, cultural, econômico, psicológico e teológico em que a TP se inseriu.

- Reafirmamos que a TP faz uma leitura parcial, ideologizada e até mesmo antagônica à centralidade da mensagem bíblica. É necessário continuar apontando os erros da TP, por amor ao Evangelho. As lideranças deste movimento devem ser alvos de maior rigor com relação à sua ética, hermenêutica e meios utilizados. Contudo, também devemos nos esforçar para iniciar diálogos e construir pontes com os adeptos da TP.

- De um lado, reconhecemos que não fomos capazes de articular devidamente a mensagem bíblica com a realidade e a necessidade dos pobres, e que os nossos modelos de igrejas nem sempre favorecem a acolhida deles; por outro, reafirmamos que não precisamos torcer ou adulterar a mensagem do evangelho do reino para alcança-los em seus contextos de carência. Temos sólidos e suficientes recursos bíblicos para isso e para propor uma teologia do shalom.

- Temos sido rápidos para enxergar e criticar os excessos da TP, mas deixado de reconhecer e denunciar, em nossas próprias igrejas, as ênfases de um evangelho de bem-estar ou de autoajuda que substituiu a supremacia de Cristo.

- É preciso confessar, como igreja, que temos nos conformado a este mundo, cedendo ao personalismo, ao individualismo e à cobiça, e buscar uma vida de integridade e simplicidade. Por amor a Deus, devemos seguir o exemplo de Cristo, que sendo rei se fez servo.

- Como cristãos somos chamados a amar com ternura, a servir aos outros, a praticar atos de serviço e de justiça e a construir relacionamentos. Todos somos partes integrantes do testemunho do Evangelho.

[Box 1]
Falecimento do pastor Paulo França

O início da consulta coincidiu com o sepultamento de Paulo França, 54 anos, reitor do Seminário Bíblico Palavra da Vida por mais de três anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante na noite anterior. O pastor Key Yuassa, na abertura da consulta, orou pela família (esposa e dois filhos, com 14 e 16 anos) e pela Organização Palavra da Vida, que em 2017 comemorará 50 anos. O pastor Carlos Osvaldo Pinto, chanceler, em publicação no site da instituição ressaltou o entusiasmo contagiante de Paulo: “[Ele] era uma pessoa entusiasmada com a vida e, particularmente, com o que lhe vinha às mãos para fazer. [...] A saudade que Paulo França deixa será amenizada pela presença de sua influência nas vidas daqueles que estiveram mais próximos dele como pessoa e dos colegas de ministério que serviram ao seu lado.”

[Box 2]
Lausanne 40 anos -- celebração e crítica

A consulta Um Chamado à Humildade, à Integridade e à Simplicidade também celebrou quatro décadas do Pacto de Lausanne -- o documento gerado a partir do histórico 1º Congresso de Evangelização Mundial (Lausanne 1), que reuniu 2.700 pessoas na cidade suíça de Lausanne de 16 a 25 de julho de 1974.

Houve celebração, mas também autocrítica. O atual presidente do Movimento Lausanne, Michael Oh, ressaltou que desde Lausanne 1 o movimento tem ajudado na formação de novos líderes, no envolvimento da igreja com os pobres para além do aspecto político e no fortalecimento da missão mundial. “Por mais estratégicos e globalmente impactantes que tenhamos sido nos últimos anos, nosso impacto mais eterno ainda está adiante de nós. É nosso desejo ver toda igreja, levar todo o Evangelho para todo mundo”, disse.

Por outro lado, Valdir Steuernagel, teólogo luterano que integra o movimento e lidera a Aliança Evangélica, reconheceu que “o chamado para um estilo de vida simples praticamente desapareceu dentro do Movimento Lausanne, mas precisamos recuperá-lo. Talvez esse chamado à simplicidade precise andar de mãos dadas com o sacrifício como uma escolha voluntária e comunitária”. Já o pastor Ariovaldo Ramos questionou: “De Lausanne 1 para Lausanne 3 aconteceu uma mudança da igreja evangélica dominante para a igreja pobre? Não houve”.

Os participantes também comentaram o conteúdo de O Compromisso da Cidade do Cabo -- o documento mais recente do movimento, produzido em 2010 durante e logo após o Congresso Lausanne 3, na Cidade do Cabo, África do Sul. Uma nova marca que está presente neste documento, mas não estava tão clara no Pacto de Lausanne é o cuidado com a criação. O missionário e pastor Maicon Steuernagel lembrou que “embora declare Deus como criador, não havia no Pacto de Lausanne a consciência de uma crise ambiental; não havia uma agenda clara sobre isso. Já O Compromisso da Cidade do Cabo fala de Deus como um criador que cuida da criação e que nos chama ao arrependimento pelo que não cuidamos”. Outro ponto mencionado é que o Pacto de Lausanne refletiu a tensão entre missão como proclamação verbal e agenda de ação social. Nesse sentido, o documento de Lausanne 3 avançou, afirmando que a missão só é missão de Jesus Cristo no momento em que é missão integral.

**
Saiba mais

O Portal Ultimato reuniu mais conteúdo sobre o tema. Acesse para ver vídeos e conferir relatos das mesas de debate da consulta Um Chamado à Humildade, à Integridade e à Simplicidade. Leia também os documentos das duas consultas, a global e a brasileira.

**
Colaboraram com esta matéria:
Ariane Gomes, Klênia Fassoni, Lissânder Dias, Marcos Bontempo e Tábata Mori

**
Frases

Nós precisamos de uma teologia da generosidade muito mais robusta. E uma generosidade que não tenha medo de falar de fé e finanças. Que não foque mais a falta do que a aquisição, mas que ensine os princípios bíblicos da aquisição.
Joel Edwards

Justiça é o estado de coisas em que todos desfrutam igualmente de tudo o que Deus é e de tudo o que Deus doa.
Ariovaldo Ramos

A vida no reino é uma forma de vida que não cai na idolatria. É um reino de ponta-cabeça.
Rosalee Velloso Ewel

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.