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Reflexão — Teologia política

Teologia política

 Ed René Kivitz

Anselmo, arcebispo de Canterbury (Cantuária), foi chamado de “o pai da escolástica”, movimento que aconteceu entre o início do século 9º até o fim do século 16 e pretendia conciliar a fé com o pensamento racional. Anselmo acreditava que as verdades cristãs eram filosoficamente demonstráveis. Entre suas mais citadas afirmações, além dos argumentos ontológicos a respeito da existência de Deus, uma delas define o que é teologia: “fides quaerens intellectum”, isto é, “fé em busca de entendimento”.
Embora seja claro -- exceto para pessoas ignorantes (sem tom pejorativo) ou culpadas de desonestidade intelectual -- que a existência de Deus não pode se resumir aos limites da racionalidade científica, como se Deus pudesse ser demonstrado em laboratório, é também razoável que a experiência de fé implique certa racionalidade.
Além das demandas pessoais particulares -- a fé sem teologia se degenera em superstição, pois “quem tem zelo de Deus deve buscar entendimento”, no mínimo, para si, como recomendou o apóstolo Paulo --, há ainda outra razão urgente para que nos dediquemos a fazer teologia com inteligência, a saber, o risco da obsolescência da fé cristã.
A religião como elemento constitutivo da vida pública é um fenômeno de relevância crescente para a organização social e política da sociedade. O labor teológico consiste em um desafio a partir da compreensão de que as sociedades democráticas sobrevivem apenas quando são capazes de conviver com a noção de liberdade de todas e cada uma das pessoas que compartilham o ambiente social, o que exige o reconhecimento da igualdade entre todos os homens e suas liberdades, bem como de sua cosmovisão e crença. “O homem moderno deseja a liberdade de fazer sempre e em todo lugar uso público da própria razão”, disse Jésus Espeja, teólogo dominicano.
Este entendimento fica claro no discurso de Barack Obama (Sorry) quando, ainda senador pelo estado de Illinois, abordou a delicada relação entre as crenças religiosas e a cultura secular. Afirmou que “a democracia exige que aqueles motivados pela religião traduzam suas preocupações em valores universais, em vez de específicos de uma religião”. Exemplificou sua tese dizendo: “Posso ser contrário ao aborto por questões religiosas, mas se pretendo aprovar uma lei proibindo a prática do aborto, não posso simplesmente recorrer aos ensinamentos da minha igreja ou invocar a vontade divina. Eu tenho de explicar por que o aborto viola um princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem fé alguma”.
No interior do atual debate entre Oriente e Ocidente, não estão polarizadas apenas as matrizes religiosas do cristianismo e do islamismo, mas também e principalmente o que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos chamou de “tipologia das teologias políticas”. Santos divide as teologias políticas em dois pares categoriais: fundamentalistas “versus” pluralistas; tradicionalistas “versus” progressistas. Considera que a religião (qualquer que seja ela) somente será capaz de contribuir no domínio público quando sua teologia se articular no eixo pluralista-progressista. Define a teologia pluralista-progressista basicamente como aquela que compreende a tensão entre revelação e razão, e revelação e história; admite que a revelação ocorre num dado contexto histórico, cultural, social e político, e, portanto, sua interpretação deve estar aberta a novos contextos, de modo a responder às novas necessidades que surgem em determinado tempo; rompe a barreira entre público e privado; reconhece a diferença entre a religião dos oprimidos e a religião dos opressores; objetiva contribuir para a libertação estrutural e coletiva dos pobres; compreende a fé [dos cristãos] como práxis na história e na sociedade.
Em termos mais próximos, falando especificamente dos múltiplos contextos e configurações em que se expressa a fé cristã no Brasil -- catolicismo(s), protestantismo histórico, pentecostalismo e neopentecostalismo, no mínimo --, estamos diante de desafios que devem ser encarados com vigor inadiável, a saber, desenvolver a inteligência da fé e sua articulação teológica e experiencial na direção do engajamento dos cristãos nas lutas sociais e nos movimentos de solidariedade que buscam uma sociedade de justiça e paz. Para quem se contenta em esperar o céu, mais do mesmo é suficiente. Porém, quem sonha com sinais históricos do reino de Deus como adventos proféticos do novo céu e nova terra sabe que a “fides reformata” é pouco. A relevância exige uma “fides reformata et semper reformanda”.

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

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