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Literatura e cultura

Marinheiro só
Gladir Cabral

“Sim, o mundo é um navio que está de passagem, e cuja viagem ainda não está completa; e o púlpito é sua proa” (Herman Melville, em “Moby Dick”)

Ítalo Calvino, em seu livro “Por Que Ler os Clássicos”, define como clássicos os “livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”. É com renovado prazer que retomei a leitura do romance “Moby Dick”, de autoria do escritor norte-americano Herman Melville. O livro conta a história do marinheiro Ismael e suas aventuras a bordo do barco baleeiro Pequod.
Enquanto aguardava a hora do embarque, ainda se aclimatando à cidade de New Bedford, Ismael, que é presbiteriano, resolve ir à igreja na manhã de domingo. Ele visita a Capela dos Baleeiros, uma igreja frequentada quase exclusivamente por marinheiros e seus familiares. A nave do templo reproduz a ambientação marinha. O púlpito, por exemplo, é construído na forma da popa de um grande navio e é tão alto que o pregador precisa usar cordas para subir até ele.

Depois das orações e de um hino, o pregador lê as Escrituras -- Jonas 1.17 -- e começa a pregar sobre a vida do profeta Jonas, mas não sem antes orientar os fiéis a que se aproximem mais: “Os que estão a estibordo vão para o passadiço! Os que estão na beirada, a bombordo! Meia nau! Meia nau!”. O memorável sermão do rev. Mapple é marcado por uma total identificação entre pregador e congregação. Ele se dirige aos irmãos como “camaradas” e utiliza várias expressões e termos de uso comum entre os marinheiros.

O tom da pregação é solene e com intensa carga emocional, acompanhada de rico gestual, variação de voz, pausa e dramatização. O pregador também faz uso efetivo do silêncio a fim de intensificar os momentos mais tensos e profundos da mensagem. Além desses ingredientes, outro recurso que o pregador utiliza é o da imaginação. Ele não hesita em tornar vívido o relato da experiência de Jonas entre os marinheiros, acrescentando detalhes humanos, diálogos verossímeis e que ajudam a reforçar a riqueza do texto e despertar a emoção dos ouvintes. Um exemplo é o detalhe da lâmpada inclinada perto da cama em que Jonas dormia, abaixo do nível da água, um símbolo do estado de sua alma, de seus caminhos tortuosos, deslocados. Pobre Jonas, “ele pensa que um navio feito pelos homens pode levá-lo a países onde Deus não reina”.
Outro detalhe pitoresco da pregação é a referência a um cartaz pregado no pilar do cais em que o navio está ancorado, anunciando a “recompensa de 500 moedas de ouro a quem ajudar a capturar um parricida”, e o tenso diálogo entre Jonas e o capitão do navio -- a negociação, a desconfiança e a constatação de que “neste mundo, camaradas, o pecado que tem dinheiro suficiente para a passagem pode viajar livremente, e sem passaporte”. Surpreende ainda o comentário positivo sobre a oração de Jonas dentro da baleia, uma oração que não clama por livramento, mas revela arrependimento e conversão. Jonas não nega nem rejeita a punição divina, mas se submete à sua autoridade.

O sermão traz como aplicação duas lições principais: 1) somos todos pecadores como Jonas; não estamos em situação mais confortável nem temos comportamento mais digno do que ele; somos meros fugitivos; 2) a situação do pregador é até mesmo mais complicada e tensa, pois sua responsabilidade é maior; ele sente-se “mais pecador do que os demais”. “Camaradas, Deus colocou sua mão sobre vocês, mas suas duas mãos me apertam”. Ao dizer essas palavras, rev. Mapple fecha os olhos, faz um eloquente silêncio e prostra-se diante da congregação, mostrando que a reação esperada após a proclamação da mensagem é a de contrição e conversão. A mensagem é seguida de outro hino.

A leitura segue seu roteiro, o navio segue seu rumo, Ismael segue em sua busca de conhecimento e a vida segue seu destino. Nessa viagem, cada um de nós é um marinheiro.

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

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