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Colunas — História

A beleza salvará o mundo

Alderi Souza de Matos

Fiódor Dostoiévski (1821–1881), um novelista, contista e ensaísta russo, é considerado um dos maiores literatos de todos os tempos. Suas obras exploram a psicologia humana no contexto da conturbada atmosfera política, social e religiosa da Rússia do século 19. As mais famosas dentre elas são “Crime e Castigo”, “O Idiota e Os Irmãos Karamazóv”. Um personagem da novela “O Idiota” (1869) diz as palavras que se tornaram célebres: “A beleza salvará o mundo”. Desde então, diferentes pensadores têm discutido o significado dessa intrigante afirmação acerca do belo e da arte que tem recebido variadas interpretações.

Um século depois de Dostoiévski, outro russo, o romancista, dramaturgo e historiador Alexander Soljenítsin (1918–2008), assim intitulou seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, em 1970. Depois de referir-se à expressão enigmática do compatriota, ele declarou: “Existe uma qualidade especial na essência da beleza, uma qualidade especial no status da arte: a convicção transmitida por uma genuína obra de arte é absolutamente indisputável e subjuga até mesmo o coração mais fortemente oposto [...]. As obras que estão saturadas de verdade e a apresentam a nós de maneira vívida irão nos conquistar, irão nos atrair para si mesmas com grande poder -- e ninguém, jamais, mesmo numa época posterior, ousará negá-las”. Ele conclui afirmando que as palavras de Dostoiévski não foram um lapso verbal, mas uma profecia, e que a arte e a literatura podem de fato ajudar o mundo contemporâneo.

Um autor atual que tem sentido o impacto desses grandes literatos russos é o professor e escritor americano Gregory Wolfe, nascido em 1959. Um representante do chamado “humanismo cristão”, ele tem contribuído para despertar novo interesse pela relação entre arte e religião. Em 1989, fundou o periódico “Image”, uma das principais publicações literárias dos Estados Unidos, que divulga textos e manifestações artísticas que possuem conexão com a religiosidade. Esse professor católico da Universidade Seattle Pacific publicou em 2008 um livro intitulado “Beauty Will Save the World: Recovering the Human in an Ideological Age” [A beleza salvará o mundo: recuperando o humano em uma era ideológica].

Referindo-se a Dostoiévski e Soljenítsin, ele afirma: “Aqui estavam dois grandes novelistas russos, conhecidos por suas sensibilidades austeras, proféticas e intensamente morais, bem como por suas rigorosas descrições do niilismo e da degradação humana, aplaudindo a força redentora da beleza”. Mais adiante acrescenta: “Enquanto que outrora eu acreditava que a decadência do Ocidente só poderia ser revertida por meio da política e da dialética intelectual, agora estou convencido de que a renovação autêntica só pode emergir das mãos imaginativas do artista e do místico”. Ele se refere ainda a Czeslaw Milosz (1911–2004), poeta, romancista e ensaísta polonês nascido na Lituânia, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1980, como outro escritor que experimentou a devastação do totalitarismo no século 20 e testificou em favor da beleza. Em seu poema “Mais um dia”, Milosz escreve: “[...] e quando as pessoas deixarem de crer que existe bem e mal, somente a beleza as atrairá e as salvará [...]”.

Porém, afinal, em que sentido a beleza poderá salvar o mundo? Alguns, tendo renunciado à fé, entendem que só o belo, o estético, o artístico, o poético, o lúdico, o prazeroso pode dar algum significado à vida, algum senso de transcendência para o ser humano. Não querendo se entregar ao cinismo e à incredulidade fria, procuram consolo na poesia, na literatura, na música, nas artes plásticas, nas artes dramáticas e em outras experiências sensoriais e estéticas. Essa postura caracteriza boa parte da cultura moderna, embora muitos iconoclastas nem isso aceitem mais. Outros entendem essa expressão em termos da beleza do amor, da generosidade, da solidariedade, ou então a beleza de uma causa nobre, de um ideal pelo qual valeria a pena viver e morrer.
Para os cristãos, a expressão de Dostoiévski aponta em duas direções. Em primeiro lugar, para o fato de que Deus mesmo, em sua graça, santidade e glória, é a expressão suprema do belo, do bom e do verdadeiro (ver Sl 27.4; 29.2; 96.9). Somente nele, em conexão com ele, pode existir qualquer outra beleza genuína. Paradoxalmente, essa beleza se manifesta até mesmo naquilo que não é atraente (Is 53.2). O grande pregador e teólogo Jonathan Edwards (1703–1758) explorou amplamente em seus escritos o tema da sublimidade e beleza da graça e da glória do Ser Divino, da sua misericórdia e perdão comunicados em Cristo (Ef 1.6; 2Co 4.6).

Em segundo lugar, o reconhecimento do poder atrativo e transformador do belo deveria levar os cristãos a valorizarem a arte, cultivando-a e utilizando-o como um instrumento para a comunicação mais eficaz do evangelho. Foi o que fez Hans Rookmaaker (1922–1977), um intelectual holandês, amigo de Francis Schaeffer, que dedicou boa parte de sua vida a ensinar e escrever sobre teoria da arte e história da arte, tendo influenciado fortemente a sua geração. Entre seus livros estão “Modern Art and the Death of a Culture” [A arte moderna e a morte de uma cultura (Ultimato, no prelo)], A Arte Não Precisa de Justificativa (Ultimato) e “The Creative Gift – essays on Art and the Christian Life” [O dom criativo – ensaios sobre arte e a vida cristã]. (Ver sua biografia por Laurel Gasque, Rookmaaker – arte e mente cristã, publicada pela Ultimato, que apresenta no final uma valiosa lista de sites sobre o tema.) Preocupado com a relação entre cristianismo e cultura, ele afirmou: “Jesus não veio para nos tornar cristãos. Jesus veio para nos tornar plenamente humanos”.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e "Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil". asdm@mackenzie.com.br

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