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A vergonha desvergonhada

A loucura das pessoas mentalmente sadias é pior do que a loucura das pessoas portadoras de transtornos mentais. É uma loucura consciente e criminosa, como a de Herodes, o Grande, que massacrou todos os meninos que poderiam ser considerados seus herdeiros ao trono, inclusive as crianças que nasceram em Belém e arredores na mesma época do nascimento de Jesus (Mt 2.16-18), e que assassinou a esposa, Mariane, e os filhos Alexandre e Aristóbulo. Ou como a de Hitler, o principal responsável pela Segunda Guerra Mundial, pelos campos de concentração e pela morte de 6 milhões de judeus.
 
Em sua soberania, para operar um livramento na história, Deus usa quem quer, quando quer e como quer. Ele se serve tanto de cristãos como de não cristãos. Para acabar com a vergonha do Hospício de Barbacena, o Senhor usou um congresso de psiquiatria, um psiquiatra estrangeiro, um jornalista e um cineasta.
 
O 3° Congresso Mineiro de Psiquiatria reuniu em Belo Horizonte, em 1979, um grupo de psiquiatras e profissionais ligados à área da saúde mental para reverter o modelo de tratamento de doentes mentais até então adotado. Com esse propósito, trouxeram da Itália o psiquiatra Franco Basaglia, cuja postura era marcadamente antimanicomial. Na oportunidade, o palestrante fez uma visita a Barbacena e ficou escandalizado com o que viu e ouviu. Não teve receio de comparar o hospício com um campo de concentração nazista. Talvez Basaglia tenha lido o livro “O Sobrevivente”, escrito por Aleksander Laks, um dos poucos sobreviventes de Auschwitz, quando ele diz: “O trem parou na rampa de acesso do campo de Auschwitz. Fomos empurrados para fora dos vagões aos gritos e tivemos que deixar no trem a bagagem que trouxéramos, inclusive aquele pão que havíamos guardado para alguma emergência, e também os dez marcos”. Ao tomar conhecimento da venda de cadáveres e esqueletos, é possível que o psiquiatra italiano tenha se lembrado também de outro trecho de O Sobrevivente: “Os dentistas foram separados para arrancar os dentes de ouro dos cadáveres dos mortos na câmara de gás, antes de serem incinerados no crematório. Os barbeiros deviam cortar os cabelos dos cadáveres e enviá-los à Alemanha e serviam para fazer colchões ou outras utilidades”. Parece que Franco Basaglia conseguiu convencer o auditório de que não havia diferença entre o Hospício de Barbacena e o Campo de Concentração de Auschwitz.
 
Desde 1971, a imprensa brasileira e especialistas na área começaram a denunciar a falência terapêutica e estrutural da psiquiatria aplicada no Hospício de Barbacena. Em setembro de 1979, o repórter Hiram Firmino publicou uma série de artigos no jornal Estado de Minas sob o título “Os porões da loucura”. Logo em seguida o cineasta Helvécio Ratton lançou o documentário “Em nome da razão”.
 
Assim como as proporções exatas dos famigerados campos de concentração europeus só vieram ao conhecimento geral após a vitória dos aliados, a hediondez dos hospícios, principalmente o de Barbacena, só veio à tona depois de todos esses expedientes, provocando uma reforma psiquiátrica de grandes proporções. A Cidade da Loucura entrou pela segunda vez na história da psiquiatria brasileira, desta vez para reparar o que havia sido feito na primeira vez. Assim a vergonha de Barbacena foi “desvergonhada”. E para que ambas, a vergonha e a “desvergonha”, jamais fossem esquecidas, criou-se o Museu da Loucura em 16 de agosto de 2009, exatamente no edifício de entrada do outrora Hospício de Barbacena.

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