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Colunas — Redescobrindo a palavra de Deus

No princípio... Deus

Quando eu “descubro” um texto bíblico, eu sei, acabo sendo bastante previsível e fico com um mesmo texto por muito tempo. Mas o fato é que nesse encontro e reencontro com a sua Palavra, Deus nos convida para uma contínua primavera, quando a natureza explode em vigor e cores. Quem me acompanha em Ultimato já percebeu que sou um contador de histórias. Ao olhar para histórias da nossa vida, é bom ver como elas se relacionam com certas histórias bíblicas e sua grande narrativa, na qual encontramos o sentido da própria vida. Hoje convido para iniciarmos uma conversa com o relato bíblico da criação e para fazermos dessa conversa uma jornada rumo à intimidade com Deus e à descoberta da nossa própria humanidade e vocação gregária, bem como do valor, necessidade e possibilidade de uma cidadania que busque a construção de uma sociedade justa, bonita e real.
 
Encontrar-me com o relato da criação como expresso em Gênesis 1 e 2 tem sido uma aventura fascinante. Não porque lá eu tenha encontrado o que lá não está (detalhes científicos quanto à origem do mundo), mas porque ali nos deparamos com Deus como ele é e com seu jeito de fazer as coisas de forma inteira, integrada e bonita. Lá nos encontramos, ainda, com a afirmação de quem nós somos, a quem pertencemos e para que existimos.
 
No princípio é Deus!
 
O relato da criação é como uma grande peça teatral que, em diferentes movimentos e momentos, leva-nos ao encontro do próprio autor da peça: Deus. Tanto na narração mais ampla como nas especificidades criadoras de cada dia, vemos um Deus que cria com discernimento e integração, sentido de celebração e descanso. Assim ele se dá a conhecer e percebemos que, em sua natureza, ele é amor. Deus se revela porque ama. Deus cria porque ama. Deus descansa porque ama. E em amor celebra a sua própria criação. Ao abrirmos a Bíblia, deparamo-nos com Deus em ação reveladora: “No princípio Deus criou [...]”. Ao procurar descortinar o princípio de todas as coisas, nos deparamos com Deus. Ao acompanharmos, dia a dia, a sequência e o encadeamento da criação, encontramos Deus. Ao observar o detalhamento e especificidade da criação do ser humano, como homem e mulher, vê-se Deus colocando a semente da eternidade em cada um, como um convite para ver o que se deve ver: Deus. E, ao chegarmos ao sétimo dia, somos surpreendidos pelo próprio Deus, que, com um grande sorriso, descansa e nos convida para descansar e descobrir a essência da realidade: Deus.
Assim, em cada momento do grande e primeiro relato da criação, ouvimos essa voz dizendo que não estamos sozinhos nem abandonados em meio à narrativa da nossa própria vida, pois no princípio está Deus e no fim está Deus. Ele está lá, no início e no fim de cada dia e na passagem de cada gesto criador. Deus é tudo para todos e Deus está em tudo e em todos. Sem ele nada existe e sem ele ninguém é. Deus é e por isso nós somos!
 
“Soli Deo Gloria”!
 
Conhecendo a Deus sabemos quem somos
 
Em cada novo movimento deste cenário criador recebemos a revelação de quem Deus é e de quem nós somos. Somos produto do seu amor, fruto da sua ação reveladora e contemplados com a graça de ser criados “à sua imagem e semelhança”. O momento passa a ser especial. A descrição torna-se mais elaborada! O número de palavras aumenta e o cenário se expande. Como anteriormente, Deus emerge na palavra – “disse Deus” –, mas sua presença é majestosa. Agora ele diz “façamos” e a própria Trindade ocupa o cenário, como que em preparação para o significado da criação que virá a seguir. Uma criação que se fará à imagem do próprio Deus. E é assim que o homem e a mulher aparecem em cena; eles nascem segundo a imagem da própria Trindade. São criados em relação um com o outro, pois, como homem e mulher, são criados e se destacam ao receberem de Deus a bênção que os saúda e os afirma. E logo em seguida são convocados a participar do gerenciamento da natureza criada. E nós, assim como eles, somos fruto da ação criadora de Deus e marcados pela bênção divina que coloca em nós a semente da eternidade. Nossa dignidade está em reconhecermos que somos o que somos pela vontade absoluta de Deus e só encontramos o real significado da nossa vida à medida que reconhecemos quem nos criou, que fomos criados um para o outro e que temos o privilégio de participar do gerenciamento da natureza. Paulo, ao falar para os varões atenienses e estrangeiros presentes no Areópago, reflete isso ao dizer que “‘nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’” (At 17.28 ).
 
Assim, não há existência fora da realidade de Deus. Não há criação fora do universo da sua Palavra, e todo o sentido da vida deriva do reconhecimento de que somos fruto do amor e da ação de Deus e que só nele encontramos a razão da nossa existência. É por isso que podemos afirmar que é conhecendo a Deus que passamos a reconhecer quem somos.
 
Vamos continuar a conversar, nas próximas edições, sobre essa criação de Deus e a marca com a qual ele dignifica nossa existência. Mas aqui eu queria convidar ao reconhecimento de que você e eu, assim como a criação inteira, somos fruto do amor criador de Deus. Nós somos porque Deus é. A nossa existência está marcada por seu amor e o significado da nossa vida vem desse reconhecimento. E assim, sabendo quem somos, fica mais tranquilo e seguro saber como viver – viver em harmonia uns com os outros, ser coparticipantes do gerenciamento da natureza e seus recursos e fazer da nossa vida um palco para a proclamação da glória de Deus.
 
“Soli Deo Gloria”!
 
• Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

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