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Colunas — Ética

O sentido do Censo 2010

Paul Freston
 
Na América do Sul existe um país em que católicos constituem mais de 85% da população e evangélicos não chegam a 10%. Porém, na América do Sul há também um país em que os evangélicos são pouco mais de um terço da população -- não muito atrás dos católicos, com 45%. O primeiro país se chama Brasil; o segundo, também.
 
De acordo com os dados sobre religião do Censo 2010, recém-divulgados pelo IBGE, a diversidade religiosa do Brasil está não apenas nas muitas religiões representadas, mas sobretudo na diversidade “geográfica”. A porcentagem de católicos por estado na população varia entre 85,1% no Piauí e apenas 45,8% no Rio de Janeiro; enquanto a de evangélicos vai de apenas 9,7% no Piauí a 33,8% em Rondônia (três vezes e meia mais). É como se tratássemos de países totalmente distintos.
 
Cada religião no Brasil tem uma força geográfica diferenciada. A força relativa do catolicismo está no interior do Nordeste, em Minas Gerais e na região Sul. O espiritismo tem áreas de concentração no Triângulo Mineiro (herança de Chico Xavier) e no sudeste do Rio Grande do Sul. O “paraíso da umbanda” está (ao contrário do que se poderia pensar) no extremo sul do Brasil, perto da fronteira com o Uruguai. Quanto aos evangélicos, o mapa deles tem manchas mais escuras (ou seja, de maiores porcentagens na população) na faixa litorânea que vai do norte do Paraná até o sul da Bahia e, principalmente, no lado esquerdo do país, nas regiões Norte e Centro-Oeste.
 
Um dos aspectos do Censo que mais chamaram atenção foi a continuidade do acelerado declínio católico que se constatou nos anos 90. Ou seja, entre 2000 e 2010, a porcentagem da população que se declara católica (o que significa mera autoidentificação, independente de prática) caiu nove pontos, de 73,6% para 64,6%. A própria igreja católica tinha esperanças, não de ter crescido, mas, pelo menos, de ter diminuído o ritmo de queda, que continua em quase 1% ao ano. Porém, os esforços para conter a evasão até agora não mostraram efeito. Ao contrário, o catolicismo atingiu dois marcos neste Censo. Pela primeira vez, sofreu uma queda no número absoluto de fiéis (antes, caía somente em porcentagem da população, mas não em número total de católicos). Além disso, os católicos já constituem “minoria” da população em três estados (Rio de Janeiro, Rondônia e Roraima). 
 
De forma geral, o catolicismo continua mais sólido em regiões de população mais estabilizada, nas zonas rurais e nas áreas do Sul que foram colonizadas por imigrantes europeus de tradição católica. O crescimento evangélico é inverso: floresce mais nas zonas urbanas e em regiões de maior fluidez populacional (fronteiras agrícolas e periferias das grandes cidades). Os índices evangélicos não dependem apenas de seus próprios esforços, mas também de fatores sociais que favorecem (ou não) o abandono do catolicismo. As duas confissões têm uma pirâmide etária diferente: quanto mais jovem, maior a tendência de ser evangélico. Fica a pergunta se os evangélicos se reproduzem mais, ou se os que se reproduzem mais sentem mais necessidade de se converter.
 
Quanto às outras religiões, o segmento que mais cresceu proporcionalmente foi o espiritismo (de 1,3% em 2000 para 2% em 2010). Entretanto, é difícil saber quanto disso é crescimento mesmo e quanto se deve ao fato de mais pessoas assumirem que são espíritas. Os espíritas são, de longe, o segmento religioso mais rico, branco e instruído.
 
Os sem-religião também cresceram, mas não tanto quanto nas últimas décadas do século 20. De 7,3% em 2000, chegaram a 8,0% em 2010. Pela primeira vez, o Censo mostrou claramente o que já se desconfiava: apenas 4% dos sem-religião são ateus!
 
Quanto aos evangélicos, primeiro os números frios. Eles já constituem 22,2% da população, chegando a 28,5% na região Norte, mas caindo para 16,4% no Nordeste. Em números absolutos, é o segmento religioso que mais cresceu na primeira década do século 21, chegando agora a 42,3 milhões de brasileiros.
 
Esse resultado foi bom (em termos puramente numéricos)? Tudo depende de como se mede. Comparado com a grande maioria dos países do mundo, representa um crescimento invejável. E comparado com a taxa histórica de crescimento no Brasil, é um bom resultado. Contudo, comparado com os anos 90, a resposta é sim e não. No ano 2000, a comunidade evangélica cresceu em mais de 16 milhões; mais do que os 13 milhões dos anos 90. Aumentou em 6,7% da população (de 15,5% para 22,2%), semelhante ao crescimento dos anos 90 (de 6,5%). Todavia, o crescimento em termos percentuais da população foi de 43%, bem menor em comparação com os 71% dos anos 90. (Cabe lembrar que as estatísticas dos anos 90 se referem a apenas 9 anos, de 1991 a 2000, devido à realização do Censo em 1991, e não em 1990, como previsto.) Nesse sentido, o crescimento evangélico vem desacelerando.
 
As análises se complicam com as mudanças internas do segmento evangélico. Segundo o Censo, 60% dos evangélicos são pentecostais, 18,5% são “de missão” (ou seja, de igrejas históricas ou tradicionais) e 21,8% estão numa categoria que o IBGE chama de “evangélicos não determinados”!
 
O crescimento espantoso desta última categoria atrapalha as comparações com os Censos anteriores. De qualquer forma, diminui a porcentagem do mundo evangélico que se declara pentecostal ou que declara adesão a uma denominação categorizada como pentecostal. Isso contrasta com os anos 80 e 90, décadas em que o pentecostalismo subiu para a sua atual hegemonia no mundo evangélico. Uma crise no pentecostalismo? Talvez. Ainda mais porque o Censo anuncia também mudanças demográficas no Brasil que não favorecem o pentecostalismo: o acelerado envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade.
 
Mesmo assim, as Assembleias de Deus ganharam muitos adeptos (subiram de 8,4 milhões em 2000 para 12,3 milhões em 2010). (Claro que a fragmentação do mundo que se chama Assembleia de Deus não aparece nesses dados.) O crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus caiu de 2,1 milhões para 1,8 milhão. Mesmo levando em conta o surgimento, em boa parte à custa da IURD, da Igreja Mundial do Poder de Deus, podemos constatar que o neopentecostalismo ficou muito aquém do crescimento excepcional que conseguiu nos anos 90.
 
E os evangélicos não determinados? Muito pouco sabemos deles. Será que são neopentecostais decepcionados com as suas igrejas, mas que ainda se consideram evangélicos? Ou “pentecostais clássicos”, de terceira ou quarta geração, em processo de “despentecostalização”? Ou históricos que perderam a sua identidade denominacional? Ou uma soma de tudo isso e muito mais?
 
Alguns dos não determinados podem ser não praticantes (a não prática não é exclusividade católica, como mostram os países protestantes da Europa). Porém, há outras hipóteses. Podem ser “hiper-praticantes”, pessoas que frequentam várias igrejas. Ou podem ser frequentadores de uma só igreja, mas que preferem não se identificar prioritariamente com ela, mas sim, com a identidade mais ampla de evangélico. Podem ainda ser pessoas que decidiram responder “evangélico”, esperando que fossem perguntadas em seguida a qual denominação pertenciam.
 
Vários fatores podem estar por trás dessa “desdenominacionalização”, desde fatores negativos, como o individualismo e a falta de compromisso, até positivos, como a melhora econômica e a consequente diminuição da necessidade de uma relação clientelista numa igreja com liderança forte. Vemos no Censo algumas características sociais dos evangélicos não determinados. Eles se concentram mais no Sudeste e no Centro-Oeste; trata-se de um fenômeno acentuadamente dos mais jovens (entre 15 e 39 anos) nas zonas urbanas. Nos índices educacionais, eles estão sempre entre os históricos e os pentecostais; às vezes, mais parecidos com os históricos. Em níveis de renda, também se encontram entre os pentecostais e os históricos.
 
Tenho algumas previsões sobre o futuro religioso do Brasil (“Como será a igreja evangélica brasileira de 2040?”, “Ética”, novembro/dezembro de 2011). Até que ponto o Censo confirma essas previsões?
 
Os dados do Censo desmentem claramente as previsões absurdas que circularam no meio evangélico de que haveria uma maioria evangélica até 2020. Estas fazem um grande desserviço à comunidade evangélica, dificultando a apreciação de resultados mais modestos, mas, ainda assim, impressionantes. 
 
Um conhecido líder evangélico previu que até 2020 os evangélicos superarão os católicos; o Censo mostra quão longe estamos disso. A tendência ao exagero numérico no meio evangélico é preocupante, mas não é exclusividade dos evangélicos. Se a Marcha para Jesus reuniu, segundo os organizadores, mais de 5 milhões de pessoas, a pesquisa do Datafolha constatou apenas 335 mil. Semelhantemente, os organizadores da Parada Gay anunciaram 4 milhões de participantes e o Datafolha constatou apenas 270 mil.
 
Mesmo assim, o Censo provocou previsões da mídia secular. Se mantidas as tendências atuais, os evangélicos poderão chegar a um terço da população em 10 anos e irão superar os católicos em 20 ou 30 anos. Fatores demográficos (maior presença entre jovens e mulheres em idade fértil) favoreceriam o crescimento, mesmo que a evangelização parasse. A Baixada Fluminense de hoje seria o Brasil de amanhã! Quem viver, verá.
 
• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. É autor de, entre outros, Nem Monge, Nem Executivo e Religião e Política, Sim; Igreja e Estado, Não.

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