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Reportagem — --

Herrnhut

“A pequena cidade que abençoou o mundo”
 
Ao entrar em Herrnhut, uma cidade da Saxônia, o Mineiro quase tirou as sandálias dos pés (Êx 3.5) em respeito ao que aconteceu ali quase 300 anos antes, no correr do século 18. Por ser uma cidade pequena (não passava de 5 mil habitantes em 2009), veio à sua lembrança a profecia de Miqueias cumprida por ocasião do nascimento de Jesus: “Belém-Efrata, você é uma das menores cidades de Judá, mas do seu meio farei sair aquele que será o rei de Israel” (Mq 5.2; Mt 2.6). Pois de Herrnhut saíram centenas de missionários para os lugares mais remotos e difíceis do mundo. Só para as então chamadas Índias Orientais (Antilhas) foram 67 missionários. Outros viajaram para o Labrador (Canadá), Groenlândia, África do Sul, Índia, alguns países da América do Sul e Estados Unidos (para trabalhar com os índios). Na década de 1720, aproximadamente 2 mil pessoas ofereceram-se como voluntárias para missões transculturais (25% eram mulheres). O trabalho que realizaram era tão notável que, cem anos depois, o padre Diogo Antônio Feijó, então regente do Império (1835–1837), solicitou ao embaixador do Brasil em Londres que providenciasse a vinda de duas corporações dos Irmãos Morávios para trabalhar com indígenas brasileiros, o que não aconteceu. Esse despertamento missionário é notável porque a mentalidade protestante da época não se sentia responsável pela evangelização mundial. O teólogo Johann Gerhard (1582–1637), por exemplo, em sua “Luci Theologici”, dizia que a diferença entre os apóstolos e os cristãos de então era que àqueles Jesus entregou a tarefa de evangelizar até os confins da terra (Mt 28.19-20) e a estes a orientação era permanecer onde Deus os colocara. Foi por causa dessa reviravolta, acontecida especialmente em Herrnhut, que o Mineiro quase entrou descalço na cidade.
 
Não se podem mencionar as palavras “Herrnhut” e “morávios” sem relacioná-las com o conde Nicolau Ludwing von Zinzendorf (1700–1760). Embora nascido em Dresden, esse homem rico e nobre, casado com uma mulher da mesma posição social e cultural, foi viver em Herrnhut, onde tinha uma grande propriedade herdada da avó em 1727, com a idade de 27 anos. Zinzendorf, apenas 15 anos mais novo que os famosos compositores alemães nascidos no mesmo ano (1685), Bach e Handel, cedeu suas terras, onde hoje fica a cidade de Herrnhut (cujo significado é “o tabernáculo do Senhor”), para abrigar os refugiados da Morávia, na fronteira da República Checa com a Alemanha. Eles eram descendentes espirituais de John Huss e perseguidos por sua fé. Além de protetor, o conde tornou-se o líder desses morávios.
 
O Mineiro visitou todos os lugares históricos relacionados com Zinzendorf -- a igreja, o museu, a praça onde está o busto do conde, o cemitério e a torre no alto do cemitério. Na livraria dos morávios, comprou algumas biografias de Zinzendorf e de Erdmuth Dorothea, sua primeira esposa. Outro livro tem o sugestivo título que faz lembrar a passagem de Miqueias: “The Llittle Town that Blessed the World” (A pequena cidade que abençoou o mundo).
 
Ao chegar em casa, o Mineiro procurou recordar a história do conde e dos morávios. Com a morte do pai semanas depois de seu nascimento e o novo casamento da mãe, Zinzendorf foi morar com a avó, de quem recebeu a influência pietista. Na Universidade de Halle, fundada por Filipe Jacó Spenner (1635–1705), chamado “o pai do pietismo”, de quem era afilhado, Zinzendorf foi aluno de Augusto Hermann Francke (1633–1727), outro notável pietista. Porém o que levou o conde a “conhecer e tornar conhecido o nome de Jesus” (lema dos morávios) foi um mero acontecimento. Em 1719, ao passar por Dusseldorf, ele viu um quadro de Jesus na cruz, intitulado “Ecce Homo” (“Eis o homem”, de Pilatos), do pintor italiano Domenico Feti, morto 65 anos antes. Embaixo havia uma inscrição que dizia: “Tudo isso eu fiz por você, o que você está fazendo por mim?”. Isso foi suficiente para o rapaz de 19 anos tornar-se um dos cristãos mais apaixonados e cristocêntricos da história.
 
Ordenado pastor e bispo luterano apenas aos 34 anos, Zinzendorf naturalmente não acertou em tudo. Por falta de capacidade administrativa, enfrentou situações difíceis e,  por se dedicar demais ao trabalho e às viagens, descuidou um pouco da mulher e dos filhos. Houve também da parte dele e dos morávios certa ênfase demasiada na morte de Jesus, dando lugar a um misticismo meio mórbido. Outra observação que seus biógrafos fazem é que o conde, embora tenha renunciado à sua vida como um nobre, nunca foi capaz de suprimir o gosto pela boa vida e teve dificuldade em descer ao nível de um missionário “fazedor de tendas” -- o que não aconteceu com Jesus, que “esvaziou-se a si mesmo” e “humilhou-se a si mesmo” (Fp 2.5-8). O fato é que nos primeiros cem anos de atividade (de 1732 a 1832), os Irmãos Morávios obtiveram o impressionante número de 40 mil membros, 209 missionários e 41 centros de missões ao redor do mundo. Em 150 anos enviaram 2.158 missionários! Um ano depois de viúvo, Zinzendorf casou-se novamente, desta vez com uma camponesa, o que causou algum descontentamento por parte dos familiares. Ele e ela morreram três anos depois (em 1760). Raymond Friesen, um canadense residente em Herrnhut desde 1994, contou ao Mineiro que na época da Segunda Guerra, enganada pela propaganda nazista, toda cidade -- com exceção de duas famílias -- deu apoio a Hitler. Chegaram a trocar o nome da rua nova por rua Adolf Hitler e encher a cidade de suásticas. Em maio de 1945, no final da guerra, a cidade foi ocupada pelos exércitos russos e incendiada, não se sabe se por iniciativa das tropas de ocupação ou pela própria resistência alemã em seu desespero.
 
O Mineiro continuou com pés descalços ao visitar um pequeno castelo ali mesmo em Herrnhut. Ao contrário dos castelos medievais, que tinham ao seu redor o fosso, altos muros e a ponte levadiça, impedindo a entrada de pessoas estranhas, o castelo visitado é totalmente acessível. Ali trabalham muitos jovens de várias nacionalidades. Em vez de ter uma pequena capela em seu interior, como acontecia nos velhos castelos alemães, todo o castelo de Herrnhut é uma capela, onde se cultiva a vida espiritual e onde se ora em favor dos dependentes de drogas, das crianças e mulheres vítimas de tráfico sexual, das pessoas que se declaram agnósticas e ateias, dos cristãos apenas de batismo, daqueles que passam fome e frio. Esses jovens ali se encontram, oram, tomam suas refeições, realizam pesquisas e projetos missiológicos, mas não moram no castelo, e sim na cidade. Há apenas uma exceção: a única brasileira do grupo ocupa uma quitinete do castelo, pois ela é sua diretora espiritual (uma espécie de pastora). Trata-se da mineira Lucimar Helena da Silva.
 
O castelo de Herrnhut era da Cruz Vermelha e foi comprado pela JOCUM por 300 mil euros (bem abaixo do preço real) para ser a sede da missão na Europa. JOCUM (Jovens Com Uma Missão) é a tradução de Youth With A Mission (YWAM), uma missão internacional e interdenominacional empenhada na mobilização de jovens de todas as nações para a obra missionária, fundada em 1960 pelo casal americano Loren e Darlene Cunningham. Mais de 30 mil pessoas participam dos programas de curto prazo e escolas de treinamento da JOCUM em muitos países, inclusive no Brasil, onde a missão tem 53 escritórios e centros de treinamento. Dos 16.590 missionários em 171 dos 238 países do mundo, 1.300 são brasileiros.
 
Lucimar explicou ao Mineiro que o grande desafio da base europeia da JOCUM é enviar equipes de missionários para o Leste da Europa, uma área pouco lembrada pelas missões. Ela se refere à Bulgária, Croácia, Grécia, Hungria, Kosovo, Macedônia, Moldávia, Romênia, Sérvia e Ucrânia. Além de ser um lugar estratégico por estar quase na fronteira da Alemanha com a República Checa, o casamento do pessoal da JOCUM com a história dos morávios é bastante salutar. Um dos prospectos que o Mineiro trouxe do castelo da JOCUM é sobre um projeto de socorro a treze meninas de 12 a 17 anos que trabalham no lixão de Addis Ababa, na Etiópia.

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