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Colunas — Ética

A história do apóstolo João, o bispo e o filho que perdeu o caminho

Paul Freston

Há uma história sobre o apóstolo João que faz parte da tradição oral da igreja primitiva e que foi preservada nos escritos de Clemente de Alexandria. (O artigo que eu pretendia publicar nesta edição, a parte 2 sobre a “primavera árabe”, ficará para a próxima.) Ela conta que João, quando velho e morando em Éfeso, costumava visitar as igrejas das regiões circunvizinhas. Em uma dessas localidades, ele viu um menino bonito e forte, e encomendou-o ao bispo local. Este levou o garoto para casa, o criou, o amou e, finalmente, o batizou. Depois disso, relaxou no cuidado, e o jovem foi corrompido por alguns moços de sua idade, que o levaram a participar de atividades cada vez piores. Com o tempo, o rapaz se acostumou com os crimes que a gangue cometia e, perdendo toda esperança de salvação, decidiu se enveredar pelo caminho da criminalidade, tornando-se chefe dos bandidos e adquirindo a fama de o mais violento deles. Os anos se passaram e João voltou à igreja onde havia deixado o garoto. Quando cobrou do bispo o “depósito”, este chorou e disse: “O menino está morto”. “Morto como?” -- perguntou João assustado. “Morto para Deus” -- falou o bispo. “Ele se tornou mau, devasso e, finalmente, um ladrão. Agora, ele domina a montanha perto da igreja.” Depois de ouvi-lo, João tomou um cavalo e saiu sozinho em direção à montanha. Quando abordado pelos vigias da gangue, gritou: “Levem-me ao seu chefe”. Quando João se aproximou dele, o jovem o reconheceu e, envergonhado, fugiu. João o seguiu como pôde, apesar da idade, clamando: “Meu filho, por que está fugindo de mim? Tenha misericórdia. Não tenha medo; ainda há esperança de vida! Eu prestarei contas a Cristo por você. Se necessário, sofrerei a sua morte, assim como o Senhor morreu por nós. Não fuja, mas creia. Cristo me enviou!”. O jovem começou a chorar amarga e copiosamente e abraçou João. Este o confortava dando-lhe garantias de que encontraria o perdão do Salvador. Caindo de joelhos, João o beijou e o levou de volta à igreja. Nela, suplicou com muitas orações e -- lutando junto dele em constantes jejuns, ao mesmo tempo em que acalmava a mente do rapaz com sábias palavras -- não deixou a cidade até restaurar plenamente o jovem à igreja, como um prenúncio da ressurreição pela qual todos ansiamos.
 
Agora, uma segunda história, de tempos mais modernos. Quando C. S. Lewis estava doente, pouco antes de morrer, ele tinha um jovem secretário americano que, às vezes, saía para caminhar no parque. Lá ele via com frequência um ateu muito conhecido que, apesar dos seus 97 anos, fazia uma longa caminhada todos os dias. Este sempre perguntava ao americano se Lewis “já tinha morrido”. Ele respondia que estava muito doente. Ao que o ateu reagia orgulhosamente: “Mas eu não tenho nada! Ainda vou durar muito!”. Um dia, o americano contou a Lewis que tinha vontade de dizer a Deus que era injusto deixar o ateu vivendo uma vida tão longa e com tanta saúde, enquanto Lewis estava à beira da morte, com apenas 64 anos. “E o que você acha que Deus responderia?” -- perguntou Lewis. “Não sei”-- lamentou o americano. Ao que Lewis disse: “Que te importa?”. O jovem logo entendeu que Lewis aludia à resposta de Jesus a Pedro, em João 21.22. Naquele incidente, depois de restaurar a Pedro por meio da pergunta tríplice, “tu me amas?”, Jesus profetiza o martírio deste. Em seguida, Pedro pergunta sobre o destino de João. Jesus responde que -- ainda que o futuro de João fosse diferente do de Pedro, a ponto de aquele não só não morrer violentamente, mas nem sequer passar pela morte -- a Pedro cabia o: “Que te importa? Quanto a ti, segue-me”.
 
Conto essas duas histórias, como muitos terão adivinhado, por causa da morte de Robinson Cavalcanti. As circunstâncias chocantes do acontecimento levam a duas reflexões. Primeiro, uma reflexão sobre a morte precoce (sobretudo se tomarmos como base os padrões modernos de longevidade, já que ele estava com boa saúde). Assim como o jovem secretário particular de C. S. Lewis, somos tentados a perguntar a Deus por que uma pessoa dessas morre aos sessenta e tantos anos, enquanto tantas outras vivem mais, sem nenhuma vantagem aparente para a humanidade. A resposta de Lewis, que é a resposta do próprio Jesus, não “explica” nada, não satisfaz o nosso desejo de compreensão, mas recoloca o foco em nós mesmos: “Que te importa? Quanto a ti, segue-me”. De fato, a tradição cristã relata que Pedro sofreu uma morte violenta (crucificado de cabeça para baixo) aos sessenta e tantos anos de idade provavelmente. João, por sua vez, viveu até uma idade muito avançada e partiu tranquilamente, de morte natural. Nesse caso, tanto Pedro como João foram de grande utilidade para Deus e os homens. Porém, o princípio permanece: o destino do outro não é da nossa conta, e sim o seguir a Jesus.
 
Em segundo lugar, a morte de Robinson e de sua esposa, Miriam, provoca uma reflexão a respeito do papel do filho. Foi uma experiência tocante ler, poucos dias depois do assassinato do casal, o texto de Clemente de Alexandria sobre o idoso apóstolo João. De certo não há um paralelo exato entre aquela história e o que aconteceu com eles. Robinson não agiu como o bispo da história, o menino desta não mata os pais, nem temos (que eu saiba), na Olinda de hoje, a figura do apóstolo João. Entretanto, tiro das semelhanças e, acima de tudo, do desfecho da história, a lição de que enquanto há vida há esperança de mudança. Há possibilidade de que a tragédia humana não seja, em última análise, tragédia pura.
 
A história em si recompensa o exame mais profundo, sobretudo o contraste entre o comportamento do bispo e o de João, e a sabedoria deste em não confiar em um momento inicial de quebrantamento emocional, mas demorar-se naquela cidade para acompanhar o jovem. Inclusive com disciplinas espirituais e ensino personalizado, para quebrar a força das reações habituais adquiridas ao longo dos anos.
 
Nenhuma das histórias que relatei “explica” duas grandes questões: a da morte precoce (sobretudo quando violenta) e a da angústia que todo pai ou mãe sente ao ouvir um relato tão terrível a respeito de um filho. Como gostaríamos de ter uma receita infalível de criação de filhos! Contudo, ela não existe, pois eles se tornam seres tão autônomos quanto nós, e não há uma relação necessária e exata entre o “desempenho” dos pais e o tipo de filho resultante dele. Em vez de “explicações”, essas histórias nos transmitem “esperança”. E esta satisfaz em um nível mais profundo do que a explicação.
 
Conheci Robinson logo depois que cheguei ao Brasil, em 1976. Era claro para mim que se tratava de alguém de destaque no contexto evangélico brasileiro. Sendo ele um pouco mais velho do que eu e mais adiantado na caminhada cristã, foi uma inspiração para mim. 
 
Certamente (é só olhar na internet), o legado de Robinson não é admirado de forma unânime dentro do meio evangélico brasileiro. Inclusive como colunista de Ultimato, ele recebeu tanto farpas quanto elogios. Entretanto, seria uma tragédia se as controvérsias ofuscassem o valor do seu legado em pelo menos quatro áreas: primeiramente, na área da missão integral e na abrangência da missão cristã no mundo; em segundo lugar, no exemplo de acadêmico cristão que relacionava fé, estudo e vida universitária; em terceiro, no exemplo de cientista social cristão, sendo um dos evangélicos pioneiros nessas disciplinas; e, finalmente, na área da inspiração para ligar a fé evangélica à cultura e à realidade social brasileiras. Que o legado de Robinson nessas quatro áreas seja cada vez mais estudado e ajude na formação de outras gerações de seguidores de Cristo.
 
 Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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