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Colunas — Da linha de frente

Quando morre uma língua...

A cada 14 dias morre uma língua na Terra -- grita o repórter em tom apocalíptico. Como linguista, acompanho há anos a tragédia da morte das línguas no mundo, e celebro este despertar tardio da mídia mundial para o problema. Saber que línguas estão desaparecendo deveria causar uma sensação de desespero e angústia pelo patrimônio humano de conhecimento, sabedoria e percepção única da realidade que morre com elas.

A língua é uma codificação verbal da cultura. Esta, por sua vez, é o conjunto de conhecimentos adquiridos por um povo sobre todas as áreas da vida. Com a morte de uma língua, nossa condição humana se esvazia: a inteligência coletiva empobrece e enciclopédias inteiras de etnociência morrem com ela.

O pragmatismo da cultura evangélica recente nos influencia a ver as línguas como barreiras para o cumprimento da Grande Comissão. Uma língua morta passa a significar menos uma a ser duramente aprendida, menos uma a isolar populações e evitar a entrada do evangelho. Nada mais errado de se pensar. O desaparecimento de uma cultura significa o desaparecimento de uma percepção peculiar de Deus e de suas revelações, que, uma vez assimiladas pelo Corpo de Cristo, certamente nos aproximariam mais dele. Cada vez que uma língua deixa de ser falada na Terra, ficamos espiritualmente mais pobres e limitados.

No entanto, para se chegar ao ideal de transpolinização conceitual, chamado por Paulo de “mistério” (Ef 3.3-10), é necessário cruzar muitas barreiras, para além da língua: a do conceito de missão, que reduziu o evangelho a quatro leis e a ação missionária à pregação unilateral; a da conceituação dos povos indígenas, que os limitou a uma idealização folclorizada e inumana; a do comercialismo religioso e da pressão para se obter uma cristianização imediata e superficial do povo, sem se considerar a preservação de seu patrimônio linguístico.

Recentemente visitei um pequeno país-ilha do Pacífico onde fui verificar “o pulso” de duas línguas nos estertores da agonia. O quadro não muda muito; na África, Ásia, Amazônia e Pacífico línguas morrem porque deixam de ser funcionais. Ninguém mata uma língua, ela morre por falta de uso.

O pequeno país chamado Palau tem dois outros idiomas além dos oficiais, inglês e palauan. Eles são falados por uma população muito pequena que povoa quatro ilhas distantes do arquipélago principal do país. Com eles se fala da flora e fauna marinha, do mundo místico de azul e espuma, das comidas que não são mais cozinhadas e das tecnologias raramente usadas hoje.

Os que ainda falam a língua se entristecem ao ver os jovens serem educados em palauan e inglês, optando por não falar mais o idioma. O povo de Tobi, a menor das ilhas, considera como certa a morte da identidade Tobi; entristece-se, mas não tem como lutar contra o inexorável. Não há mais espaço, no mundo em que vivem, para se ser Tobi. A língua tornou-se irrelevante no cenário sócioeconômico do arquipélago.

O canto do povo que se vai é triste e seu clamor se perde na imensidão do oceano. Entretanto, na minha recente amizade com ele, ganhei esperança. Jovens católicos ativos compõem hinos de louvor em sua língua materna. Cânticos ricos em significado ressoam na paróquia aos domingos. A leitura bíblica da liturgia é feita em sonsorol e tobi.

Nosso ser coletivo não é diferente do individual. Línguas morrem por falta de autoestima, porque se veem de repente sozinhas e sem valor. “Ninguém me utiliza, ninguém me estuda, ninguém precisa de mim.” Morrem por falta de amor.

Como missionária da missão holística, espero que, ao se traduzir a Bíblia, traduza-se também viabilidade econômica, escolarização, documentação do patrimônio cultural. Espero que o quadro atual de morte seja revertido, e que, uma vez amadas por Deus, as duas línguas ouvidas nas ilhas distantes de Sonsorol e Tobi voltem à vida.

Àqueles que de forma cruel e superficial julgam a missão cristã classificando-a de assassina de culturas, pergunto: Existe outra maneira de se encontrar o amor sem que seja através do amor? Missiono sim -- o que para mim é a única forma prática para se amar o coletivo -- ressuscitando línguas que para Deus têm ainda muito a dizer.

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia_ribeiro@yahoo.com

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