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Colunas — Ética

O Pai-Nosso e as bem-aventuranças para hoje, num texto do ano 380

Paul Freston

Por volta do ano 380, um grande teólogo chamado Gregório -- que vivia em Nissa, na Capadócia, hoje parte da Turquia -- escreveu sermões surpreendentemente modernos sobre o Pai-Nosso e as bem-aventuranças. Numa linguagem lírica, ele comenta a exortação de Jesus de não orar com “vãs repetições”, o sentido de incluir em sua brevíssima oração-modelo o pedido pelo pão nosso e o tipo de fome que será a do bem-aventurado. O resultado é uma mensagem clara para os nossos dias e para a nossa igreja.

“Orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos” (Mt 6.7)
No original grego, vãs repetições é “battalogia”. Gregório explica: a palavra sensata e racional é chamada “logos”, mas aquilo que é jorrado pelo desejo vão, por prazeres vazios, não é “logos”, mas “battalogia”. Portanto, na oração, não devemos permitir tais coisas. Por exemplo, diz Gregório, pessoas infantis imaginam coisas maravilhosas para si. Sonham com riquezas, casamentos e reinos, e imaginam que estejam de fato realizando suas ideias tolas. E há pessoas ainda mais possuídas por essa loucura. Indo além dos limites da natureza, desenvolvem asas, brilham como estrelas ou carregam montanhas nas mãos. Tornam-se jovens novamente na velhice ou cultivam ilusões infantis.

Em seguida, Gregório faz uma crítica arrasadora a esse tipo de cristão. Se alguém durante a oração não se concentrar naquilo que beneficia a alma, mas preferir que Deus se adapte às incertezas emocionais da própria mente, ele é como um “battalogos” ridículo que pede que Deus se torne um servo das suas próprias idiotices. Ele não quer se elevar à altura do doador, mas quer que o poder divino desça ao nível medíocre dos seus desejos. Com suas vontades desmedidas, ele quase grita: “Ó Deus, que a minha própria cobiça esteja em ti!”. Não pede para ser liberto da doença que o aprisiona, mas ora para que ela chegue ao auge, implorando que Deus seja também acometido dessa doença mental.

Porém, Gregório sabe que há toda uma teologia por trás da oração das vãs repetições. Alguém dirá, diz ele, que algumas pessoas que desejavam postos, honrarias e riquezas, e os obtiveram por meio da oração, eram vistas como amadas por Deus por causa da sua boa fortuna. Por que, então, proibir que nós também oremos a Deus por tais coisas?

A resposta de Gregório é nuançada. De fato, tudo depende da vontade divina, mas há outras razões para o sucesso de tais pedidos. Deus assim procedeu para que, por meio disso, a fé dos fracos fosse confirmada. Ou seja, para Gregório, essa é uma teologia “para os fracos”, e não um sinal de uma fé excepcionalmente forte. Assim, diz ele, aprenderão aos poucos que Deus os ouve, para que então subam ao desejo de dons mais altos e mais dignos de Deus. E se alguém por meio da divina providência obteve altos postos ou riquezas ou fama, devemos considerar o propósito dessas coisas. Deus manifesta assim o seu amor para que, uma vez obtidos esses brinquedos infantis, ofereçamos a Deus pedidos de coisas maiores e mais perfeitas. “Brinquedos infantis” -- eis a perspectiva de Gregório sobre a riqueza, a fama, o poder e outras ilusões que constituem o cerne da oração do “battalogos”.

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11)
Gregório comenta que Jesus nos autoriza a pedir a Deus pão. Não guloseimas, nem riquezas, nem trajes magníficos ou pedras preciosas. Nem latifúndios ou postos militares ou liderança política. Não dizemos: “Dá-nos uma posição proeminente ou estátuas em praça pública ou uma vida de luxo” -- mas somente pão!
“Quanta doutrina está contida nessa sentença curta!”, exclama Gregório. De fato, há várias coisas a dizer sobre o pão. Em primeiro lugar, que é válido pedi-lo. Peça o pão, diz Gregório, porque a vida precisa dele e você o deve ao seu corpo. Na fé cristã (ao contrário das heresias cristãs), a existência corpórea e a inserção num mundo material nunca são vistas como um mal. Gregório não espiritualiza o pão que é lícito pedir. Em segundo lugar, ele não entende o pão num sentido apenas literal. Pão corresponde ao necessário para a vida, o que é mutável e socialmente condicionado. Já na sociedade avançada e sofisticada em que Gregório vivia, precisava-se de muito mais do que o pão para viver. Porém, em terceiro lugar, o perigo é não entendermos a escolha da palavra “pão”.

O resto da exortação de Gregório sobre o versículo tem a ver com esse ponto. Diz ele: “Não se deixem mais distrair, cobiçando vaidades”. Pedir o pão é válido, mas as coisas supérfluas são como pragas. Os luxos são como o joio semeado pelo inimigo.
Em seguida, Gregório faz uma interpretação interessante do relato da queda do ser humano no pecado. Moisés, diz ele (referindo-se a Gênesis 3), ensina algo semelhante por meio de símbolos, quando apresenta a serpente como conselheira de Eva em questões de gosto. Se a “conselheira de Eva” conversar com você, você buscará além do que é necessário. Introduzirá o desejo, e logo a serpente irá se arrastando em direção à cobiça. E tudo isso serve apenas para alimentar mais ainda o desejo. E aí, necessita-se uma renda adequada para tudo isso! E quando a serpente tiver se enroscado em todas essas coisas e se saciado, se arrastará até o “frenesi” ilimitado.

Para que nada disso aconteça, conclui Gregório, a vida é definida na oração pelo pão. Dá-me pão, ou seja, o alimento (e outras coisas necessárias) por meio do trabalho justo. A pessoa que procura comida por meio da cobiça não pode receber de Deus o seu pão. Pois o pão de Deus é, acima de tudo, o fruto da justiça. Mas se você praticar a injustiça, pode até dizer a Deus: “Dá-me pão”. Porém, outro ouvirá o seu pedido, e não Deus. A pessoa que cultiva a iniquidade é alimentada pelo pai da iniquidade.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mt 5.6)
Passando para uma das bem-aventuranças, Gregório afirma que precisamos de discernimento na questão da fome. O Senhor Jesus aceitou passar pela experiência da fome. No deserto, após quarenta dias sem alimento, estava faminto. No entanto, quando o diabo percebeu que até Jesus podia sentir fome, ele o aconselhou a satisfazer esse desejo com “pedras”. Isso significa perverter o desejo pelo alimento natural em algo fora da natureza, como se Deus não alimentasse corretamente a humanidade com grãos! O diabo incita o apetite para coisas além dos limites da natureza. Daí a pergunta de Gregório: o que é a fome saudável? É o desejo da comida que necessitamos. Se alguém busca coisas que não pode comer, em vez de buscar o verdadeiro alimento, está se preocupando com pedras. Enquanto a natureza busca uma coisa, ele está ocupado em encontrar outra. Gregório termina perguntando: “Você escuta aquele que o aconselha a se preocupar com pedras?”.

Diz a bem-aventurança: “Porque serão fartos”. Gregório analisa a verdadeira fartura que Jesus promete, em contraste com as promessas ocas do mundo. Nenhuma das coisas cobiçadas com vistas ao prazer nos satisfará. O desejo é um abismo. Todo tipo de prazer do corpo desaparece quase imediatamente após a sua satisfação. A única coisa realmente sólida e duradoura é o zelo pela virtude, porque aí a própria prática trará junto o gozo. A virtude não é limitada pelo tempo nem pela saciedade. É uma experiência sempre renovada, cheia de gozo. Por isso, Deus promete que serão fartos e, ao serem fartos, o seu desejo não será embotado. A realização desse desejo não leva à aversão, mas a um desejo intensificado. Não traz alegria somente momentânea, mas em todo instante. Pois, se alguém viveu corretamente, encontra gozo na memória do passado, na conduta virtuosa do presente e na expectativa da recompensa futura.

Gregório, então, nos desafia em várias frentes. Até que ponto sou um “battalogos”, um vão repetidor na minha oração? Procuro aprisionar Deus nas minhas próprias patologias ou busco erguer-me (ou deixar que Deus me erga) em direção à verdadeira maturidade humana? E se tenho, mesmo modestamente, poder ou recursos ou fama, percebo o processo educativo que Deus deseja para mim por meio desses “brinquedos”? Até que ponto a “conselheira de Eva” me tem em suas pinças? E quanto da minha vida (e da minha oração) é gasta em buscar pedras em vez de pães?

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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