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Colunas — História

Universidades protestantes: benefícios e riscos

Alderi Souza de Matos

Devido a suas ênfases e valores fundamentais, a Reforma Protestante deu grande prioridade à educação em todos os níveis. A necessidade do estudo da Escritura, o princípio do sacerdócio de todos os fieis e a convicção de que Deus deve ser honrado mediante o cultivo intelectual levaram os reformadores a incentivar a criação de escolas. Além disso, deve-se lembrar que o novo movimento surgiu em círculos acadêmicos. Lutero era professor universitário em Wittenberg e assim permaneceu por toda a vida. Melanchton, Zuínglio e Calvino foram humanistas cultos, formados em algumas das melhores instituições de ensino da época. Em consequência disso, os protestantes deram grandes contribuições à área educacional, como a criação de importantes universidades que até hoje oferecem valiosos serviços às suas coletividades.

Obviamente, as universidades não foram uma invenção protestante. No início do século 16, ou seja, no alvorecer da Reforma, havia mais de cinquenta universidades na Europa, principalmente na Itália, França, Espanha e Ilhas Britânicas, todas com forte identidade católica romana. As mais antigas e famosas eram as de Bolonha (1190), Paris (1208) e Oxford (1208). Num primeiro momento, algumas dessas instituições passaram a receber nítida influência protestante; mais tarde, os partidários da Reforma criaram suas próprias universidades. Estas e aquelas passaram a refletir em seus currículos a nova cosmovisão protestante. A partir do século 18, essa cosmovisão sofreria grandes abalos com o surgimento do Iluminismo.

Instituições pioneiras
A primeira universidade protestante foi sem dúvida a de Wittenberg, na Saxônia, berço da reforma luterana. Fundada em 1502 pelo príncipe eleito Frederico, o Sábio, quinze anos mais tarde ela aceitou as novas ideias de seu professor mais famoso, o monge agostiniano Martinho Lutero. Posteriormente, os luteranos fundaram as Universidades de Marburg (1527), Königsberg (1544), Jena (1558) e Helmstedt (1575). As universidades de Copenhague, na Dinamarca, e Uppsala, na Suécia, ambas do final do século 15, aderiram ao movimento de Lutero.
O caso dos reformados ou calvinistas foi um pouco diferente, porque embora tenham fundado conceituadas escolas no século 16, só mais tarde criaram universidades. Em 1559, Calvino inaugurou sua famosa academia, embrião da futura Universidade de Genebra. A antiga Universidade de Heidelberg, na Alemanha, se tornou uma instituição calvinista na década de 1560. Na Escócia o mesmo ocorreu com as Universidades de Saint Andrews, Glasgow e Aberdeen. As universidades inglesas de Oxford e Cambridge receberam fortíssima influência calvinista. Thomas Cranmer, Hugh Latimer e Nicholas Ridley, três dos primeiros líderes e mártires da Reforma Inglesa, eram ligados a essas escolas. A convite de Cranmer, os reformadores Martin Bucer e Pedro Mártir Vermigli lecionaram na Inglaterra, o primeiro em Cambridge e o segundo em Oxford.
Entre as primeiras universidades fundadas por calvinistas estão as de Leyden e Utrecht, na Holanda. Posteriormente, reformados de origem holandesa fundaram na África do Sul as importantes universidades de Stellenbosch e Potchefstroom. Todavia, o fenômeno mais extraordinário ocorreu nos Estados Unidos, onde, até meados do século 19, os presbiterianos criaram 49 “colleges” (faculdades), os congregacionais 21, os reformados alemães quatro e os reformados holandeses um. Dessas 75 instituições, três se tornaram famosas universidades: Harvard (1636), Yale (1701) e Princeton (1746).

O drama da secularização
Os protestantes criaram universidades não só por causa do seu compromisso com a educação, mas também como um meio de servir e influenciar a sociedade a partir de uma perspectiva cristã. Nos seus primeiros tempos, essas instituições tinham por objetivo prioritário formar ministros capazes para as igrejas e líderes qualificados para diferentes setores da coletividade, a começar da função pública. Essa situação mudou drasticamente com o advento do Iluminismo -- uma mentalidade racionalista e naturalista que negava o sobrenatural e o transcendente.

O resultado foi a crescente secularização das universidades protestantes. Muitas delas ainda mantinham laços com as igrejas, mas a perspectiva materialista se tornou cada vez mais dominante. Os cursos de teologia que sobreviveram nessas instituições geralmente adotaram uma perspectiva liberal, questionadora da fé cristã histórica. O Harvard College é um exemplo típico desse processo. Fundado pelos puritanos para preservar o ideal de uma comunidade moldada por princípios cristãos, a famosa escola abraçou o unitarismo nos primeiros anos do século 19, rompendo radicalmente com a visão de seus fundadores. Com isso, essa e outras instituições deixaram de dar uma contribuição especificamente cristã às suas comunidades.

O desafio confessional
Hoje o secularismo é a regra na maior parte das universidades de origem cristã, sejam elas católicas ou protestantes. Algumas dessas escolas ainda mantêm um nome religioso ou denominacional, mas em nada diferem das instituições seculares. Poucos dirigentes e professores são cristãos convictos, a filosofia de ensino é não somente não-cristã, mas muitas vezes abertamente anticristã e, portanto, elas se tornam pouco relevantes do ponto de vista dos interesses do reino de Deus, da causa de Cristo no mundo. São escolas “confessionais”, ou seja, ligadas a uma confissão religiosa particular, mas o seu confessionalismo é mais teórico do que concreto, visível.
Uma notável exceção nessa área é a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, cujas raízes remontam a 1870. Fundada por missionários norte-americanos, a escola se secularizou progressivamente ao longo do século 20. Em décadas recentes, todavia, a igreja proprietária resolveu dar um caráter genuinamente confessional à instituição em termos de sua liderança, compromissos e valores. Embora a universidade seja pluralista no seu professorado e corpo discente, como é próprio de uma instituição de ensino superior, a mensagem cristã e os valores cristãos e reformados são continuamente transmitidos em pronunciamentos, publicações e atividades diversas, como congressos e conferências.

Conclusão
São imensos os desafios enfrentados pelas universidades de origem protestante. Não é tarefa fácil conciliar a fidelidade às raízes confessionais, o compromisso com o evangelho e uma visão cristã da vida com a realidade de um mundo marcado pela diversidade religiosa e ideológica, algo que se reflete intensamente no ambiente acadêmico. O importante é que se busque um equilíbrio adequado entre esses dois conjuntos de fatores, não permitindo que as tendências secularizantes sufoquem o testemunho cristão nesse ambiente tão importante para a sociedade.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.
asdm@mackenzie.com.br

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