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Colunas — Ética

Sobre a participação evangélica na campanha eleitoral 2010 - Um esclarecimento e três reflexões

Paul Freston

Primeiro, o esclarecimento. Os evangélicos não foram tão decisivos na eleição quanto muitos deles (e muitos opositores) pensam.

Assim que terminou o primeiro turno, fui “assediado” por órgãos da mídia nacional e estrangeira, vários deles querendo que eu corroborasse a versão de que haveria um segundo turno porque muitos evangélicos abandonaram Dilma Rousseff, motivados pela polêmica em torno do aborto. Expliquei-lhes que, embora ainda nos faltassem dados concretos, era improvável que essa questão tivesse privado Dilma da maioria absoluta no primeiro turno. Disse que a polêmica sem dúvida custou votos a ela, mas não o suficiente para mudar o rumo da eleição. Que era natural que os líderes evangélicos mais empenhados na campanha anti-Dilma “valorizassem” a sua participação, retratando-se como politicamente mais importantes do que são. Natural, também, que algumas pessoas antipáticas aos evangélicos quisessem “jogar a culpa” nestes; ou que alguns evangélicos pró-Dilma quisessem se apresentar como peças fundamentais para garantir a vitória no segundo pleito. Mesmo assim, insisti, “todos eles” estavam errados.

Posteriormente, uma pesquisa do Datafolha confirmou minha suspeita. Dilma perdeu quatro pontos percentuais no final do primeiro turno, somente 25% dos quais por causa de “questões religiosas”. O restante foi resultado dos escândalos da ex-ministra Erenice Guerra e da quebra de sigilo de políticos do PSDB.

Essa comprovação de que apenas 1% dos eleitores (nem todos evangélicos) abandonou a intenção de votar em Dilma por causa do aborto é ainda contestada por evangélicos em vários pontos do espectro político. Porém, a evidência sugere o contrário. Além disso, havia razões para minha desconfiança, mesmo antes dos resultados da pesquisa. Em primeiro lugar, a maior parte dos eleitores que deixou Dilma não foi para José Serra, mas sim para Marina Silva, cuja campanha não utilizava o tema do aborto. Em segundo lugar, havia outras razões claras para o declínio de Dilma (os escândalos). Em terceiro lugar, não há no Brasil uma tradição de evangélicos decidindo o voto principalmente com base no aborto, como há nos Estados Unidos. Em todo o país, os evangélicos costumam ser influenciados por um amplo leque de preocupações. Claro, é possível que isso esteja mudando, como resultado de uma economia estável e mais próspera e uma democracia consolidada. Porém, ainda é cedo afirmá-lo. E, em quarto lugar, o voto evangélico não é voto de cabresto. É fácil examinar os pronunciamentos de líderes evangélicos; mas é mais difícil detectar a influência desses pronunciamentos sobre o comportamento eleitoral dos evangélicos comuns. Uma pesquisa internacional em 2006, feita entre pentecostais de vários países, fez duas perguntas sobre o aborto. As respostas dos pentecostais brasileiros são reveladoras: 91% disseram que o aborto é moralmente injustificável, mas apenas 56% disseram que o governo deveria interferir na capacidade de uma mulher obter um aborto. O mais provável é que a campanha anti-Dilma em torno do aborto tenha principalmente reforçado a convicção anti-Dilma de evangélicos que já não pretendiam votar nela.

Agora, minhas três reflexões: uma positiva, uma ambígua, e uma bastante negativa.
A reflexão positiva é sobre o comportamento eleitoral e o relativo sucesso de Marina Silva. Até hoje, é a candidata evangélica que mais perto chegou da presidência. E o fez sendo bastante discreta no uso eleitoral da identidade evangélica. Terá de manter tal discrição, pois a identidade evangélica é uma faca de dois gumes em eleições majoritárias. A péssima imagem pública evangélica, que vai se deteriorando a cada eleição, faz com que o apoio muito ostensivo de líderes evangélicos seja o beijo da morte em pretensões a cargos majoritários.

Marina, politicamente, não é produto do meio evangélico. Ela (ainda!) tem valores éticos e universais que não suportam a proximidade com o messianismo, corporativismo e entusiasmo interesseiro de alguns líderes eclesiásticos. Estes querem, inclusive, interpretar o sucesso dela como mostra de força do segmento evangélico. Bobagem, pois o suposto dever evangélico de votar em candidatos evangélicos claramente não funcionou no caso dela. Mesmo assim, setores antievangélicos quiseram, nas palavras dela, “desqualificar o voto evangélico que me foi dado”. A isso, Marina retrucou que os seus apoiadores evangélicos “votaram numa proposta fundada na diversidade [...]. E perceberam que procurei respeitar a fé que professo, sem fazer dela uma arma eleitoral”. Até que ponto tais palavras retratam a percepção dos seus eleitores evangélicos comuns, não sabemos; mas certamente não expressam o pensamento daqueles que, no dizer de um líder que apoiou Marina no primeiro turno, querem governar porque “cansamos de ser cauda”.

A campanha de Marina descortinou a diversidade de análises evangélicas (igualmente inspiradas?) do atual estado do país. Por exemplo, a análise da apóstola pró-Marina, Valnice Milhomens, diverge radicalmente da de muitos evangélicos pró-Serra. Ela fala das grandes mudanças no Brasil (queda da pobreza e do desemprego, estabilidade econômica), que saiu ileso da última crise internacional. Além disso, a igreja cresceu e goza de muito tempo na mídia. “O que o Espírito Santo me disse em relação ao PT em 2002 cumpriu-se”. Não vemos aqui o anti-petismo que domina vários setores evangélicos, os quais diziam em 2002 que Lula fecharia as igrejas evangélicas. É interessante, também, que a posição de Marina de aceitar um plebiscito sobre o aborto não afastou esse apoio evangélico. Claramente, os evangélicos pró-Marina encaravam a questão de uma maneira diferente dos evangélicos que encabeçavam a campanha anti-Dilma.

Isso leva à minha reflexão ambígua, sobre a maneira em que o aborto entrou na campanha. Não vejo problemas com a temática em si; ao contrário do que pensam alguns analistas, não há nada antidemocrático em defender uma legislação restritiva sobre o aborto. Afinal, como mostra o Datafolha, 71% dos brasileiros desejam que a legislação fique como está. Uma campanha tem o direito de abranger assuntos como esse, tanto quanto questões econômicas.

Mesmo assim, há maneiras de introduzir o tema que não fortalecem a democracia e não educam o eleitorado. Depois da eleição americana de 2004, publiquei um artigo comentando as desvantagens da “política de questão única” que predominava entre os eleitores evangélicos brancos nos Estados Unidos. Perguntei se é sábio pensar que uma única questão pesa mais do que todas as outras possíveis questões políticas juntas. Votar é sempre uma negociação em que optamos pelo relativamente melhor. No entanto, como atribuir pesos a cada assunto? Não há solução fácil, e devemos evitar o dogmatismo (do tipo “quem vota em fulano não pode ser um verdadeiro cristão”; ou “é cristã dissimulada”, como disse um líder evangélico anti-Dilma a respeito de Marina, porque propôs submeter a questão a um plebiscito!). E, finalmente, ponderei que o aborto tinha sido usado por políticos espertos de determinado partido, que sabiam que era um atalho conveniente para mobilizar uma infantaria de eleitores e militantes, muitos dos quais não se importavam com as outras questões que realmente interessavam aos líderes partidários. Mas eu estava falando, claro, dos Estados Unidos...

Quem sabe, resultará dessa eleição algo de bom, o início de um debate sério no meio evangélico sobre os aspectos morais e legislativos do aborto. Quando debates acontecem somente em épocas eleitorais, tendem a virar “eleitoreiros”. Daí a necessidade de debate sério em momentos não-impregnados pelos interesses de uma campanha.

Minha última reflexão é negativa e tem a ver com o nível do debate político entre evangélicos de classes média e média-alta. Não é a opção pró-Serra da maioria desse contingente que me preocupa, mas sim a maneira em que o debate foi conduzido. É natural haver defensores evangélicos das várias candidaturas; e eu esperaria ver, da parte dos evangélicos mais favorecidos no sentido educacional, uma discussão madura e não-maniqueísta, que ajudasse a comunidade evangélica a amadurecer politicamente e jogar seu papel na sociedade com mais seriedade. Porém, o que vi na internet e em e-mails foi deprimente.

A crescente informatização das campanhas dá ampla margem a táticas negativas fundadas em boatos. Um exemplo do gênero são os e-mails alarmistas sobre “leis que tramitam em Brasília”, cujo suposto alvo é sempre cercear a liberdade religiosa dos evangélicos. O problema é que quem grita “fogo” (ou “ameaça à liberdade religiosa”) a toda hora não será levado a sério quando houver um incêndio de verdade. Além disso, há as análises apocalípticas da realidade. Tomo como exemplo um e-mail que recebi de renomada líder evangélica. Na visão dela, “estamos lutando com uma ideologia política que levará a nossa nação” ao modelo de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, com a igreja reduzida à clandestinidade. Também, o nosso governo “caminha em harmonia com o Irã, que planeja apagar Israel do mapa”. A campanha de Dilma (guerrilheira que “matou o embaixador americano”) está sendo financiada pelas “nações comunistas” e pelo “Oriente Médio”. Pior de tudo, o vice de Dilma é satanista, e para eleger a sua chapa “pessoas estão sendo sacrificadas em grande número”. O e-mail termina exortando à oração pelo “cancelamento de todo sacrifício humano”.

Mesmo e-mails menos exaltados pintam cenários maniqueístas em torno da corrupção, da política econômica e do cerceamento da liberdade de imprensa. No entanto, se o PT foi jogado na “vala comum”, como se dizia à época do mensalão, é porque os outros partidos já estavam lá. Quanto à política econômica, é interessante ler os frequentes elogios do “The Economist” aos avanços recentes do país, inclusive com avaliações geralmente positivas do bolsa-família. E o Brasil acaba de subir vários pontos no “ranking” internacional de liberdade de imprensa, segundo noticiou a “Folha de São Paulo”. Os maniqueísmos parecem, então, fora de propósito, mesmo para aqueles que acham que José Serra seria a melhor opção. Por fim, havia o argumento da necessidade premente de alternância no poder; mas cabe indagar aos missivistas se votariam em Dilma para garantir a alternância, se o PSDB estivesse no poder há oito anos.

Evangélicos de formação privilegiada têm a responsabilidade de fazer uma contribuição evangélica séria ao debate político nacional e de aprofundar o debate político no meio evangélico. Deveriam justificar a sua opção por Serra (perfeitamente legítima) em linguagem sóbria e ponderada, e não em linguagem apocalíptica que coloca em dúvida o “status” evangélico de quem vota diferentemente. Deveriam liderar o amadurecimento evangélico num debate político mais sério e condizente com a democracia mais estabilizada que o Brasil representa hoje.

Em vez disso, vemos negligenciadas as virtudes cristãs de busca da verdade e de não distorcer as ações e intenções de nossos opositores. Infelizmente, períodos eleitorais são para muitos evangélicos como um Carnaval, uma época em que se pode falar qualquer coisa; um festival de argumentos interesseiros, radicalizações irresponsáveis e mentiras puras, pelas quais ninguém se sente responsável depois. É o equivalente evangélico de Las Vegas (“o que você faz e fala por lá, fica por lá!”). Quão longe estamos do evangelho.

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.



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